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In document Først og fremst NOU (sider 37-41)

Através do Decreto de 28 de Maio de 1834 Joaquim António Aguiar extingue as ordens religiosas. Esta extinção reflecte uma grande perda em termos culturais para o país, como refere o deputado Francisco Soares Franco: Há mosteiros famosos

pela sua antigiguidade, santidade e grandeza, que seria uma barbaridade destruírem- se ou entregarem-se a particulares, que não fariaõ delles uso algum302. O deputado tem razão, mas não intui que estes mosteiros são espaços muito cobiçados, porque normalmente situam-se em lugares privilegiados no tecido urbano. Tornam-se verdadeiras oportunidades para uma indústria que estava a despontar.

Em Faro não foi diferente e, assim, fecha-se um ciclo, mais ou menos conturbado, de vida do edifício em análise, enquanto espaço religioso e abre-se outro com novas funções relacionadas com a pequena indústria.

O encerramento dos conventos de freiras decorreu de uma forma mais suave e progressiva do que o dos seus congéneres masculinos. Os edifícios eram fechados e as comunidades extintas apenas quando morria a última freira. Mas, no convento de Faro as últimas freiras foram transferidas, em 1836, para o Convento das Bernardas, em Tavira. Iniciando-se, de seguida, uma nova fase de dessacralização do lugar e de apropriação do mesmo pela sociedade. A cidade voltava a “ganhar” um quarteirão inteiro passível de ser, novamente, urbanizado e reutilizado303.

302 Franciso Soares Franco citado por CORREIA, José Eduardo, Liberalismo e Catolicismo o

Problema Congraganista, 1820-1823, 1974, p. 246.

303 Em Portugal, após a extinção das ordens religiosas os espaços conventuais contribuíram para a

implementação de várias industrias, que se apropriaram destes grandes espaços e aí se instalaram. Sobre este assunto pode consultar-se GASPAR, Jorge, “Os espaços conventuais e o metabolismo da cidade”, 2002, p. 87-93, FOLGADO, Deolinda, “O sagrado e o profano num dialogo patrimonial: reflexão inicial sobre instalações fabris em conjuntos monásticos”, 2002, p. 104-108. e MARADO, Catarina, “O «destino» dos antigos espaços conventuais da cidade”, 2006, p. 32-41.

Dos bens pertencentes à casa religiosa, objecto do nosso estudo, iniciaram-se em 1836 os autos de posse. Assim a 17 de Abril de 1836304 passou para a Fazenda Nacional o Hospício do extinto convento de Nossa Senhora da Assunção; a 16 de Maio desse ano foi a fez de umas casas térreas, sitas no Largo de São Francisco, pertencentes à extinta casa e a 20 de Julho de 1836 realiza-se o auto de posse do extinto convento de Nossa Senhora da Assunção, tomado pelo Administrador do Concelho, António José de Souza Gomes305.

Até 1840 são vendidos separadamente vários espaços do património das freiras clarissas, respectivamente: a cerca do convento e a horta das freiras. Faltava vender o edifício do convento e o hospício com quintal306. O Convento (aqui entende- se apenas o edifício principal e parte da cerca) foi sendo pilhado e utilizado pela vizinhança até ser vendido em 25 de Janeiro de 1844307. Em 1860 é novamente vendido a José Maria de Carvalho e Teodoro José Tavares, que o comprou por 1.200$00 réis. Foi vendido pela terceira vez por 1.800$00 e em 1900 aí se instalou uma fábrica de rolhas e preparação de cortiça em prancha pertença de Abrahão

Amram.

Em 1920 está registado no registo predial como um edifício constituído por

uma morada de casas onde se acham instalados a fábrica de cortiça e suas dependências e escritórios. E D. Sol Sequerra Amram, viúva de Samuel Amram,

declara a 21 de Dezembro de 1921 que a descrição do prédio é a seguinte: compõe de

304No dia seguinte fez-se o auto de avaliação. 305A.D.F. Pasta 146 Maço 8 – 28 de Maio de 1839.

306 Relação dos Bens Nacionaes Situados no Algarve, suas avaliações, e preço dos que tem sido

arrematados até ao fim de 1840, Convento das Freiras da Assumpção – 2:200$000, Cerca do mesmo Convento – 300$000 (avaliação) e arrematação: 301$000, Hospício do mesmo com quintal – 40$000, Horta das Freiras – 350$000 (avaliação) e arrematação: 960$000, retirado de LOPES, João Baptista da Silva, op.cit, 1841, quadro 33.

307A.D.F. Maço 8 Pasta 146 – S.D. – relação dos Conventos de freiras do Algarve. Lista 46 – Portaria

casas de habitação com diferentes compartimentos, grandes armazéns, escritórios, terrenos anexos, de construção antiga. Em 1932 a mesma senhora declara que o mesmo prédio é constituído por um outro edifício ocupado outrora por um convento com o respectivo claustro e egreja e dois pavimentos encontrando-se n’estes algumas constituições modernas aplicadas a armazéns, tendo um poço no centro do claustro e outro na construção que serve de casa de caldeira, sendo ocupado quasi totalmente por uma fábrica de cortiça308. Do poço situado no claustro há registo fotográfico, mas este foi destruído nas obras da DGEMN e substituído, pelo que Pinheiro e Rosa chama de mesquinha celha309. O poço da sala das máquinas não está identificado, devendo ter sido desactivado aquando das obras da DGEMN, sem ficar qualquer registo, nem sequer registo fotográfico da casa das máquinas.

Porém, o edifício seria novamente vendido no final de 1930 à firma alemã Greiner Limitada, negócio realizado pelo seu gerente e futuro sócio Fritz Henzler310, que continuaram com a produção de cortiça. O registo faz-se a 31 de Agosto de 1939, com o valor de transmissão de 123.200$00.

Em 1945 a firma Greiner Limitada regista no livro de descrições prediaes que

foram realisadas novas edificações, ampliações, e reconstruções de armazéns e outros melhoramentos que são: um armazém, três alpendres altos em dois armazéns, e um terraço em cimento armado construído, dois armazéns – um deles com altos – casa de máquinas e garagem ampliados, três armazéns e um alpendre reconstruídos, uma caldeira de coser cortiça com respectivo alpendre, balneários e refeitórios

308 Livro das Descripções Prediaes, referente aos anos de 1920, 1931, 1932 e 1939.

309 Pinheiro e Rosa pede logo em 1981 (ano em que terminam as obras) para que se faça dali um

repuxo de duas taças. Mas esse intruso acaba finalmente por ser demolido em 1998, por ordem do então director Doutor Francisco Lameira. ROSA, José António Pinheiro e, Uma figura dos Descobrimentos e uma obra do Renascimento, 1983, p. 14.

310 Após um incêndio, provocado por um foguete na noite de S. João, na fábrica destes alemães situada

instalados, colocação de portas e janelas envidraçadas com harestas de tijolos nos corredores dos dois pavimentos, e ainda outros melhoramentos que tudo atribue valor de 330:000.00311. Da descrição realizada podemos afirmar que todos estes acrescentos realizados em 1945 ainda se mantêm no interior da cerca, dando-lhe um aspecto de completo abandono e em nada contribuindo para a valorização do edifício conventual. De referir que os armazéns estão encostados à cerca conventual ocultando-a. Neste momento os armazéns são ocupados por diversos serviços camarários: aprovisionamento, som, arquivo da secção de obras312; os armazéns com terraço em cimento foram até 1998 ocupados pelas oficinas de pintura da Câmara Municipal de Faro e actualmente servem, provisoriamente, de reservas de arqueologia e epigrafia. Outros armazéns (a poente), um deles com altos, foram ocupados pela oficina de carpintaria até 1998; o primeiro piso de um desses armazéns está desocupado desde meados da década de 90, do século passado, pois o pavimento não apresenta segurança e está em risco de derrocada. Nestes armazéns realizaram-se, em 2001, sondagens arqueológicas para avaliar o potencial arqueológico do lugar, com vista à, então proposta, ligação subterrânea entre os edifícios do convento e o da antiga fábrica da cerveja Portugália; nessas escavações foram encontrados vestígios do tanque para demolhar a cortiça. O refeitório passou em 2002 a oficina pedagógica, apesar de extremamente pequeno. Os balneários ainda lá continuam e são utilizados.

O edifício estava descrito no registo como um edifício que serve de fábrica de

cortiça com os respectivos escritórios, habitação de gerência e garagem que se compõe de dois pavimentos, com quarenta divisões, 163 vãos e corredor, com a área

311Livro das Descrições Prediaes, Descrições e Averbamentos, 23 de Janeiro de 1948, p. 146.

312Em 2004, apesar de já existir intenção de valorizar este espaço da cerca e integrá-lo no circuito de

visita do museu, construiu-se mais um anexo sem qualidade para alargar o arquivo de obras, ocultando ainda mais a cerca conventual.

coberta de 2.414,40m2, 2 quintais, um terraço e hortejo com a área de 2226,80m2, um poço no quintal e outro na casa duma das caldeiras313. As casas de habitação situavam-se na ala nascente do antigo edifício conventual. Actualmente existem 35 divisões no edifício conventual e sete divisões anexas sem contar com os armazéns encostados à cerca. Os dois quintais correspondem, respectivamente, um ao claustro e outro ao interior do espaço cercado.

Não nos detivemos na análise e estudo do edifício enquanto fábrica de cortiça porque as obras de adaptação a museu apagaram quaisquer vestígios desta função; ainda um pouco na senda de Viollet-le-Duc (1814-1879)314, onde o restaurador podia, por um lado, completar o monumento de acordo com um hipotético plano original e, por outro, destruir tudo o que considerava acrescento ou dissonância. Podemos aqui referir o sucedido em Portugal na década de 40, onde muitos dos nossos monumentos sofreram intervenções radicais, numa tentativa vã de buscar o original. Veja-se o caso das igrejas góticas em que foram destruídos todos os retábulos barrocos, como aliás questionam os deputados Abel Lacerda e Bartolomeu Gromicho: Como admitir que,

numa desvairada ânsia de recuar no tempo a fisionomia dos nossos monumentos religiosos, se tenham destruído para sempre conjuntos magníficos de arte barroca?315.

Foi um século (1860-1960) que se apagou da memória física do edifício. A função industrial/ produtiva deste espaço foi totalmente sacrificada à função inicial. Pensamos que a filosofia de intervenção adoptada também se deve ao facto, atrás

313Livro das Descrições Prediaes, Descrições e Averbamentos, 23 de Janeiro de 1948, p. 146.

314 Este afirmou que restaurar um edifício é restitui-lo a um estado que pode, talvez, nunca ter

existido, CHOAY, Françoise em BOITO, CAMILLO, Conserver ou restaurer Les dilemes du patrimoine, 2000, p. 13.

315 Citados por NETO, Maria João Baptista, Memória, Propaganda e Poder, O restauro dos

indicado, de aquando do inicio dos trabalhos o espaço funcionar como armazém de cortiça e não existir já praticamente nenhum equipamento no local; apesar de nas fotografias da obra ainda se conseguir ver algumas máquinas espalhadas pelo claustro de fabrico de rolhas de cortiça. Mas ainda era cedo para o património industrial ser considerado parte integrante da nossa identidade e história.

Assim, o edifício que chegou até nós está amputado de uma parte da sua vivência, é uma descontinuidade temporal316. Não existe nenhuma memória desta fase, apenas o registo fotográfico geral da obra.

Antes de passar à segunda parte deste trabalho e tendo como base de análise as plantas, as fotografias da obra (da DGEMN) e as descrições prediais podemos afirmar que a utilização do edifício como fábrica de cortiça levou à realização de várias alterações, que de seguida passaremos a elencar:

- - igreja transformada em armazém de cortiça;

- - claustro entaipado no piso superior com paredes de tijolo e construções anexas no interior do claustro ao nível do piso térreo;

- - construção de um novo piso na ala poente do claustro, junto ao mirante; - - abertura de uma porta no coro baixo que dava para a Rua do Castelo (n.º

de polícia 3);

- - abertura de vãos na sala do capítulo e antiga escola de noviças em número de quatro janelas e duas portas (números de policia 5 e 7);

- - alterações significativas na antiga sacristia e portaria, que se transformaram em casas de habitação;

316 Os monumentos que classificamos, preservamos ou reconstruímos já não são sinais de continuidade

(...) mas de descontinuidade, AA.VV, Ideologias do Património e Intervenção Arquitectónica, 1994, p. 5.

- - abertura de um vão de garagem na fachada principal do edifício a seguir à sacristia para nascente;

- - construção de dois armazéns adossados à ala sul do antigo convento; - - construção de dois armazéns um de alto que dá para a Rua do Castelo e

que fica na continuação da ala poente e outro que fica na seguimento do corredor entre a ala poente e a sul e que dava directamente para o interior da cerca;

- - construção de vários armazéns e alpendres encostados à antiga cerca conventual.

Podemos terminar este capítulo dizendo que a história deste edifício não é distinta da de outros edifícios no nosso país, adaptando-se à sociedade contemporânea e industrial. Com a dessacralização do lugar, este torna-se uma mais valia para uma sociedade em mudança e em fase de pré-industrialização, que precisava de edifícios grandes para aí instalar as suas indústrias, procurando adaptar o existente às novas funções, como forma de rentabilização económica.

Pelo estudo que temos vindo a realizar, foi possível perceber que estávamos perante um edifício que ao longo da sua “vida” sofreu várias fases, tendo sido alterado e adaptado às necessidades de cada época. Intervir neste edifício implica esta percepção. As várias intervenções e projectos para o edifício serão analisados, tendo por base duas premissas: a valorização do monumento e a adequação à função museológica.

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