Os discursos emergentes da cidade deixam-nos perante territórios que nos surpreendem pela sua capacidade de nos convocar para os campos da reflexão sobre a cidade social, ora pela sua capacidade de nos abstrair, ora pela sua capacidade de nos (re)converter em seres urbanos, pelo que “No cabe duda de que el território donde vivimos constituye un desafio radical a todas las formas tradicionales de la vida comunitária.” (Cacciari, 2010, p. 35). São influências da paisagem rica de diversidade, projectada para além da nossa capacidade de a perceber, porque dela não fizemos parte e dela não constituímos cultura. São testemunhos de um tempo que não sendo o nosso, nos confronta com as acções de um passado difuso, do qual nos restam as pedras cujo discurso nem sempre é compatível com o léxico que nos desenhou o saber e a competência para incorporar outras literacias.
Certos de que a cultura urbana há-de decorrer daqueles e de outros factores, por sua vez associados às incertezas e influências a que os novos tempos nos habituaram, acabarão por reverter em novas ideias para a cidade, em face da crise de valores instalada e das vicissitudes dela resultante, da qual hão-de emergir novas soluções que contrariem o apocalipse que se vem anunciando – pois, segundo Portas et al. (2007), do ponto de vista sociológico, a cidade qualificada e qualificante passa pela capacidade de cada um gostar dela, por apropriação pessoal e investimento colectivo.
Conscientes da gravidade das consequências que uma cidade ausente dos seus cidadãos pode representar, é portanto urgente que se redefinam políticas e soluções capazes de accionar o retorno a uma ideia de cidade cívica, próxima e participada pelos cidadãos, dotada de um projecto que contribua para a sua socialização e humanização – um processo dinâmico que, de acordo com Providência (2004), constitua uma forma positiva de modelação social de comportamentos.
Ideias que rejeitam a aceitação da suficiência de uma paisagem urbana estritamente ceno- gráfica, (re)feita de objectos que a despropósito se disseminam no espaço e interpelam os passantes numa atitude sobranceira, incapaz da relação empática, geradora de interacções que caracterizam as cidades mais próximas das carências e do quotidiano dos cidadãos. Pressupostos conducentes a uma estratégia que, no quadro actual, há-de resultar no estrei- tamento de laços afectivos entre espaço físico e acção humana, muito próxima das relações que caracterizam o afecto pela cidade que passamos a assumir como nossa, porque dela dependemos e à qual queremos pertencer.
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É uma ideia feita desejo que remete por sua vez para uma perspectiva conceptual de socia- lização da cidade, indutora de uma cultura urbana que, recusando a imposição do pensa- mento único, aposta na liberdade individual dos cidadãos e na possibilidade da divergência confluente, aberta à diversidade e promotora do respeito entre cidadãos na relação directa com os espaços e objectos assumidos como pertença e devir.
A cidade assim desejada corresponderá à cidade social, feita da aceitação mútua do gesto do outro, de gente que encontra nos espaços indutores de pacificação interior os lugares que correspondem à cidade por si ansiada, com outros partilhada e em comunidade respeitada – a cidade-lugar de encontro.
É imperioso pensar actualmente a evolução da cidade a partir da ideia de que, enquanto objecto físico, poderá por via da sua apropriação, transcender-se e reclamar uma alma capaz de despoletar nos seus cidadãos o sentido de partilha, num processo simbiótico indutor de metamorfoses urbanas situadas no cruzamento de múltiplos discursos e lugares.
A cidade cujo objecto se centra nessa apetência de se renovar, oferecendo a sua imagem e o seu corpo à diligência regulada dos seus cidadãos, é uma cidade reflexiva disponível para se interrogar, que recusa o arbítrio de um futuro sem data – garantindo a reedição da história daqueles que a vivendo se identificam com ela.
Perspectiva que passa pela assunção da crítica como atitude que, complementar à reflexão, é geradora de uma ideia de cidade evolucionária, atenta às necessidades dos seus cidadãos e à evolução que os novos paradigmas sociais exigem dos espaços de vivência colectiva, designa- damente, novas formas de usar a cidade e consequentemente, novas exigências de cidadania. Uma cidade que assim se assume está mais própria de se recriar a si própria, se renovar e se transformar naturalmente, no fluir do tempo e das mudanças sociais, ou seja, capaz de se tornar em entidade criativa e simultaneamente recreativa, pela possibilidade que esta du- plicidade tem em garantir vivências de excepcionalidade, tendo em conta a predisposição natural do homem em aceitar a renovação qualificada dos contextos, seja essa renovação no estrito plano físico, ou, não menos relevante, no plano das possibilidades de qualificação da vida pelo lazer e pelo prazer que o espaço público pode e dever proporcionar.
A ideia de cidade crítica que se reinventa e se renova face à emergência de um futuro que quer aceitar aponta para uma perspectiva situada no campo da cognição urbana, que nada mais é do que a capacidade de se projectar a partir do conhecimento que tem de si própria, no plano dos valores que elege o cidadão como figura central, na senda da possibilidade de instauração de processos que reiterem a ideia de cidade ideal31.
Estamos perante ideias e confluências que sublinham a relação interdiscursiva entre terri- tório e sociedade, dado que incorporam uma das preocupações centrais da democracia das e nas cidades, pela possibilidade que a dualidade destes conceitos representa no espectro mais vasto das coexistências entre espaços humanizados e natureza, numa perspectiva de sustentabilidade que há muito vem sendo adiada.
31 Segundo Ribeiro (2004) essa cidade “(...) corresponderá, talvez, a uma cidade feita de colagem de cidades que, com a proliferação da informação e a emergência das intervenções, poderá tornar-se possível no século XXI” (p. 79) – mas que em nossa opinião poderá corresponder a uma efectiva perda de identidade.
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É um problema que constitui hoje uma das preocupações centrais das sociedades contem- porâneas face ao risco de colapso do equilíbrio ecológico do planeta, no qual as cidades têm particular responsabilidade e que por isso mesmo são convocadas para a procura de soluções que conduzam à resolução do problema, ou que, no mínimo contribuam para a sua atenuação.
Numa perspectiva complementar desta problemática importa referir que a pressão resultan- te dos fenómenos de expansão desregulada das cidades, foi geradora de comportamentos desviantes, evidência que se tem vindo a adensar perigosamente nos grandes centros urba- nos, com o surgimento de zonas exclusivas, induzidas por grupos sociais que transformam núcleos do território urbano em guetos. Condomínios em que impera a desigualdade social e comportamentos em sentidos absolutamente contrários – o rico, que se protege no seu condomínio fechado, o pobre que se defende no seu condomínio aberto.
É esta a sociedade que habita as cidades do mundo, territórios em processo de privatização material e cultural, que dita as novas formas de as habitar, de as ocupar, de as dinamizar, de as fazer progredir e de as fazer regredir, quiçá asfixiar – novos paradigmas de comporta- mento provindos de modelos alternativos, compatíveis e incompatíveis, que participam no redesenho das cidades.
Depois, importa reconhecer que a cidade constitui um espaço de liberdade, longe do controlo característico da vida das pequenas comunidades, fenómeno que tem contribuído para uma cultura de autonomia e liberdade individual, mas também e simultaneamente de um maior isolamento por parte de quem, pretendendo a liberdade e a privacidade, se vê numa situação de solidão colectiva, constatável nas grandes metrópoles contemporâneas.
Da evolução das cidades, que decorre em muito das grandes mudanças sócio-geográficas e demográficas, accionadas pelos fluxos migratórios, gerou-se uma cultura híbrida resultante do confronto entre os seus autóctones e a diversidade dos seus novos habitantes, produzindo um novo espectro cultural influenciador de mudanças sensíveis – “A imagem das grandes urbes onde teria reinado uma miscigenação total, funcional e social está mais associada a uma mito- logia comunitária aldeã do que a referências históricas concretas.” (Ascher, 1998, pp. 93-94). Na senda do quadro conceptual deste estudo, e na linha das preocupações que regulam a cultura e as relações entre cidadãos, será importante retomar a pertinência da definição de urbanidade, agora proposta por Ascher (1998):
“(...) a urbanidade é simultaneamente um estado de espírito e um modo de vida, um código de conduta (...). É uma urbanidade que torna possível o anonimato e que, no entanto, está na origem de uma sociabilidade alargada e renovada, eventualmente descontínua ou episódica, citadina que alimenta e necessita de uma plasticidadade de cidade e de uma adaptabilidade a modos de vida múltiplos.” (Ascher, 1998, p. 100). Definição que sintetiza a cidade enquanto factor determinante para o desenvolvimento social e para a forma como a sociedade se organizou e evoluiu face a um mundo que, em permanente mudança, viu nela uma oportunidade alternativa à vida ruralizante, o que pro- piciou alterações profundas nos territórios natural e humanizado e transformou a paisagem sócio-urbana num quadro de grande complexidade.
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1.3.3 Democracia e cidadania urbanas