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A ideia de região se constitui na construção da própria sociabilidade dos homens, o que a torna passível de mistificação social e manipulação política. O uso deste termo na linguagem comum gerou grande polissemia e denuncia a presença do conhecimento geográfico em nossas vidas desde os tempos mais remotos (LENCIONI, 2003).

Nesse sentido, no decorrer do desenvolvimento científico da Geografia, para se diferenciar de seu uso pelo senso comum, a noção de região se complexifica à medida que é transformada em conceito científico, o qual passa a herdar as indefinições e a força de seu uso da linguagem comum, somados agora às discussões epistemológicas que o emprego desse conceito impõe (GOMES, 2003).

Para Corrêa (2005), os diversos conceitos de região desenvolvidos pelos geógrafos constituem respostas a um mundo real complexamente fragmentado e articulado, possível de ser observado, mesmo ainda timidamente, desde o final do século XIX e início do século XX. Entre as principais adjetivações conceituais de região a partir da sistematização e institucionalização da Geografia, dadas por geógrafos diante das mudanças ocorridas no mundo, estão: a Região Natural, a Região Geográfica, a Região Homogênea, a Região Funcional ou Polarizada e a região como uma totalidade socioespacial com base na lei do desenvolvimento desigual e combinado (GOMES, 2003). Chama atenção, também, a influência da fenomenologia na construção de novos parâmetros ao estudo regional, ou seja, da região enquanto espaço vivido.

O conceito de região teve uma posição de destaque na Geografia Clássica, principalmente através do conceito de Região Natural e da Região Geográfica. Os estudos geográficos dessa fase tinham uma perspectiva regional -

descritiva, pois não procuravam estabelecer relações, análises e correlação entre os fatos. Tratava-se de uma geografia que não estava amparada por uma teoria e ou modelos analíticos, culminava em tratar os fatos como sendo únicos (ciência idiográfica) verificados pelo peso grande das monografias regionais (GOMES, 2003).

Uma monografia regional deveria, na perspectiva lablachiana, conter uma análise detalhada do meio físico, das formas de ocupação, das atividades humanas e de como o homem se ajusta à natureza. O olhar sobre a natureza deveria conter uma perspectiva histórica na análise da relação homem-meio. Fundamentalmente, a monografia regional deveria estabelecer a integração dos elementos físicos e sociais e acrescentar uma visão sintética da região (LENCIONI, 2003, p.105).

No pensamento lablacheano as regiões se evidenciavam na superfície terrestre, traduziam-se na paisagem e nas realidades físicas e culturais e os agrupamentos humanos tomavam consciência dessa divisão, nomeavam e a utilizavam na criação dos quadros administrativos. Já para Hartshorne apud Lencioni (2003), a região não se constitui num objeto em si mesmo, mas é definida a partir de uma construção mental, sendo os seus recortes provenientes do exercício intelectual do pesquisador a partir de objetivos determinados.

A partir das proposições do método regional de Hartshorne, a região não pôde ser mais vista como uma evidência do mundo real-concreto, ela sequer pode existir no mundo científico sem estar submetida a critérios explícitos, uniformes e gerais. Estabelecer as regiões passa a ser uma técnica da geografia, um meio para demonstrar uma hipótese e não mais um produto final do trabalho de pesquisa. Regionalizar significa agora dividir o espaço segundo diferentes critérios, que são devidamente explicitados e que variam segundo as intenções explicativas de cada pesquisador em prol de seu trabalho.

As divisões regionais passam a não ser mais definitivas, nem pretendem inscrever a totalidade da diversidade espacial, elas, as regiões, devem simplesmente contribuir para certo entendimento e colaborar em uma dada explicação. A região agora passa a ser um meio e não mais um produto (GOMES, 2003).

A região se torna uma classe de área, fruto de uma classificação geral que divide o espaço segundo critérios ou variáveis arbitrárias que possuem justificativa no julgamento de sua relevância para certa explicação. Trata-se da

Região Homogênea, a qual parte da ideia da seleção de variáveis estruturantes do espaço, sendo os intervalos das frequências e a magnitude das variáveis mensuradas estatisticamente, definindo espaços mais ou menos homogêneos.

Na segunda metade do século XX, a urbanização, industrialização e centralização passaram a ser questões centrais na geografia. A sociedade cada vez mais urbana e metropolitana traduziu-se como um campo de ação de fluxos. Esses fluxos ao confluírem para uma determinada cidade acabavam a transformando num polo regional. “O desenvolvimento dessa perspectiva na Geografia significou o abandono da ideia de região como síntese dos aspectos naturais e humanos para se vincular à organização do espaço” (LENCIONI, 2003, p.141).

Trata-se agora da Região Funcional, a qual valoriza o papel da cidade como centro de organização espacial. As cidades organizando sua área de influência e outros centros urbanos de menor porte, em um verdadeiro sistema espacial, são também denominadas de regiões polarizadas, em virtude de estarem atreladas ao raciocínio da teoria dos polos de desenvolvimento de Perroux. Pierre George vinculado à perspectiva da Geografia Ativa afirma: se antes, na geografia clássica, a região fazia a cidade, agora na geografia moderna, é a cidade que faz a região (GOMES, 2003).

Com a incorporação do marxismo à temática regional, estabeleceu-se a crítica à feitichzação do espaço e aos estudos baseados na descrição e na análise das funções regionais. A região a partir da concepção do materialismo dialético passa a ser compreendida como uma totalidade socioespacial. A região é nessa perspectiva, a síntese concreta e histórica dessa instância espacial ontológica dos processos sociais, produto e meio de produção e reprodução de toda a vida social (SANTOS, 2008).

Entre os aspectos centrais da abordagem geográfica de cunho marxista estão: a preocupação de mostrar a relação entre regionalização, como recorte espacial, e as práticas sociais; a reconstituição histórica como percurso metodológico para a compreensão da região em estudo e o uso da noção de formação econômico e social. O mundo deveria ser percebido como uma totalidade não-harmônica, promovida pelas injustiças e desigualdades sociais do capitalismo, preocupação que se fez central na condução de análises da geografia de base marxista.

A perspectiva geográfica influenciada pelo marxismo, semelhante a outras correntes do pensamento geográfico, concebeu a região como parte de uma totalidade. A diferença agora residia no fato de que essa totalidade não era mais concebida nem como uma totalidade lógica nem como uma totalidade harmônica. Foi concebida como uma totalidade histórica (LENCIONI, 2003, p.164-165).

Ocorre que em muitas situações a totalidade socioespacial, a totalidade histórica se transmuta na velha ideia da síntese regional, reforçando assim a concepção metodológica da geografia clássica. Essa abordagem regional tem como problema o enxerto de instrumentos teóricos do materialismo histórico dialético, que não colaboraram com um conceito de região efetivamente operacional, predominando muitas vezes a ideia evolucionista e mecanicista revestida de vocabulário marxista (GOMES, 2003).

Chama atenção que em muitas análises, a região passou a ser entendida como produto de uma divisão territorial do trabalho oriunda do processo geral de produção capitalista, tendo suas características internas e particulares postas em segundo plano. Dessa maneira, as diferenças na produção do espaço regional seriam derivadas apenas de processos externos (LENCIONI, 2003).

Quanto à diferença da região sob influência do marxismo em relação à região de fundamentação fenomenológica, desenvolvida, também, em período de intensas críticas da geografia, está que a última entende a região como espaço vivido enquanto a primeira como um espaço concebido. Para Lacoste apud Lencioni (2003) o espaço vivido não se confunde com a região, pois esse corresponde a um espaço que as pessoas tem um conhecimento implícito e intuitivo, ou seja, é o espaço de vida das pessoas, segundo o lugar que elas ocupam na sociedade e na divisão do trabalho, portanto, um espaço que não passa pelo concebido, por um conjunto espacial bem mais amplo que conformariam as regiões. A dimensão do percebido e do vivido está em grande parte ausente da Geografia Regional de inspiração marxista, pois essa se desenvolveu ancorada na visão estruturalista do marxismo.

Já a análise regional numa perspectiva fenomenológica não fica restrita à investigação geográfica da dinâmica econômica ou da estrutura social, mas procura ultrapassar o nível socioeconômico, buscando compreender como o homem se coloca em relação à região em termos do modo da organização dos elementos que constituem a região, de sua dinâmica regional e da relação do aspecto estrutural e

funcional com o aspecto subjetivo, como, por exemplo, a relação das imagens mentais que os homens constroem a cerca do espaço vivido, da região. A identidade dos homens com a região se tornou, então, um problema central na Geografia Regional de inspiração fenomenológica (LENCIONI, 2003).

No clássico estudo geográfico sobre região a partir de uma perspectiva humanista, La région, espace vecú de Armand Frémont, é ressaltada a importância dos valores simbólicos e tradicionais para a compreensão da região enquanto um espaço vivido. A partir da perspectiva do vivido, os estudos regionais passaram a conceber o homem com seus valores culturais e sociais, em busca de superar o reducionismo de muitas análises que o viam, acima de tudo, como um ser econômico ou um dado de uma matriz.

Principalmente a partir da década de 1990, uma Geografia Regional renovada se esforça para recuperar o sentido dos recortes espaciais, seja a partir de sua inserção desigual em movimentos mais globalizados ou através da recriação de singularidades que lhes dão um caráter próprio. Revalorizar o singular não significa cair outra vez numa fenomenologia pura, que vê somente o acontecimento, ou ainda num empirismo bruto, baseado no binômio observação-descrição, mas significa evidenciar a capacidade dos grupos humanos de recriar espaços múltiplos de sociabilidade (HAESBAERT, 1999).