O paradigma de causalidade histórica sugere uma síntese criativa e original que associa Calvino ao movimento calvinista pelos escritores que se classificam como “calvinistas” concordamos com McGrath quando ressalta que, “O Calvinismo desenvolveu idéias e perspectivas que foram muito além das modestas recomendações provenientes de Genebra, mesmo que, em última instância, fossem inspiradas nas propostas de Calvino”.192
Ao referir-se sobre o conhecimento de Deus explícito na criação do mundo e no seu contínuo governo, Calvino afirma que,
Deus não só incutiu na mente dos homens aquilo que chamamos semente da religião, mas tornou a si de tal modo evidente no conjunto da obra do mundo e com tal clareza se mostra cotidianamente, que eles não podem abrir os olhos sem que sejam obrigados a contemplá-lo. Por certo, sua essência é incompreensível, de tal modo que sua deidade escapa a todos os sentidos humanos. Mas ele imprimiu, em cada uma de suas obras, certas marcas de sua glória, e tão claras e insignes que está excluída qualquer desculpa de ignorância aos insultos e aos rudes.193
O primeiro passo ao discorrer sobre os fundamentos da Cosmovisão Calvinista de Ação Social é concordar que o mundo em que vivemos é regido por cosmovisões, mesmo
191
BEZA, Theodore de. A vida e morte de João Calvino. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Brasil, 2006. p. 102.
192
Cf. MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino. Tradução de Marisa Lopes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 236.
193
CALVINO, João. As institutas da religião cristã. Tradução de Carlos Eduardo de Oliveira et al. São Paulo: UNESP, 2008. Tomo I, Livro 1, cap. V, p. 51.
quando muitos não imaginam que as possuem, os “modus operandi” que encontramos nas civilizações, nas culturas, nas religiões que se sobressaem indicam que as pessoas estão condicionadas a algumas cosmovisões e estas determinam o conhecimento sobre o mundo e seus sistemas de valores e crenças, embora muitas vezes limitado e alienado.
A pesquisadora reconhece que o tema desta pesquisa é desafiador, instigante e provedor de esperança, esperança em uma cosmovisão de mundo que atenda as demandas e os anseios dos que estão com olhos no passado para discernir os tempos, pés que caminham em busca de respostas para o tempo presente e mãos que se lançam para promover um futuro melhor para a humanidade que sofre com a desordem reinante neste mundo em que vivemos.
Deste modo, concordamos com James W. Sire quando este reforça sua convicção de que é fundamental apresentar uma cosmovisão,
Pelo menos em um tópico eu permaneço constante: estou convencido de que para qualquer um de nós ser plenamente consciente, intelectualmente falando, seria necessário não apenas ser capaz de detectar as cosmovisões dos outros, como também ter consciência da nossa própria - porque é nossa e porque à luz de tantas outras opções, cremos ser a verdadeira.194
O autor Rodolfo Amorim Carlos de Souza ao tratar sobre a origem e avanço do conceito de cosmovisão refere que o termo Weltanschauung “cosmovisão” em sua origem e aplicação a partir da filosofia foi utilizado por vários filósofos e pensadores. Ele afirma que inicialmente foi Kant em 1790 que o cunhou como “a capacidade humana de intuir o mundo exterior à medida que este é apreendido pelos sentidos”, com o idealismo alemão e a tradição romântica o termo passa a ser utilizado na filosofia alemã nos séculos 18 e 19 ganhando outras conotações por teólogos, filósofos e artistas. Mas no século 20, o termo passa para uma concepção de vida, sendo traduzido pelo Oxford English Dictionary (1989) como uma palavra carregada de sentido que define uma filosofia ou visão particular de vida; um conceito de mundo utilizado por um grupo ou indivíduo. Souza ressalta em sua pesquisa que foi o teólogo e apologista James Orr (1844-1920) que propôs um conceito de cosmovisão para o cristianismo em sua plenitude como um sistema. Sua proposta inspirou outros seguidores a investir neste conceito de cosmovisão.195
Seguindo o exemplo de Orr, um dos homens que se dedicou na defesa de uma cosmovisão cristã como sistema de vida foi Abraham Kuyper (1837-1920), sua defesa
194
SIRE, James W. O universo ao lado. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 8. 195
Cf. SOUZA, Rodolfo Amorim Carlos de. Cosmovisão: evolução do conceito e aplicação cristã. In: CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. (Org.). Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social. São Paulo: Ultimato, 2009. p. 41-43.
magistral contribuiu com a fé reformada e deixou-nos uma visão abrangente sobre o conceito de cosmovisão cristã inspirado pelo pensamento calvinista.
Após três séculos da Reforma protestante, e da expansão do Calvinismo na Europa e no Novo Mundo, Kuyper teólogo holandês surpreende a comunidade acadêmica da Universidade de Princeton (1898) com suas seis palestras sobre o Calvinismo, não apenas como um conjunto de dogmas teológicos, mas como um fundamento para uma visão mais abrangente. Retomou a importância do Calvinismo e sua relevância confessional, denominacional, como movimento científico que elegeu um sistema lógico de teologia e ao mesmo tempo promoveu um sistema de concepções nas diversas esferas da vida.196
Uma das primeiras interpretações do ponto de vista reformado foi expressa por Kuyper, em sua Stone Lectures. Ele elencou quatro cosmovisões principais: o Paganismo, o Romanismo, o Modernismo e o Calvinismo. Diante destes quatro sistemas gerais de vida como ele mesmo os define, Kuyper discorre sobre o Calvinismo como um “sistema de princípios abrangente que, enraizado no passado, é capaz de fortalecer-nos no presente e de encher-nos de confiança para o futuro”.197
Deste modo, ao terminar suas palestras Kuyper expressa seu propósito em erradicar qualquer equívoco quanto à representatividade do Calvinismo como apenas um movimento dogmático e eclesiástico, o defensor da visão Calvinista afirma que
O Calvinismo não se deteve numa ordem eclesiástica, porém expandiu-se em um
sistema de vida. E não esgotou sua energia numa construção dogmática, mas criou
uma vida e uma cosmovisão tal, que foi e ainda é capaz de ajustar-se às necessidades de cada estágio do desenvolvimento humano, em cada um de seus departamentos.198
Não é possível elencarmos todos os autores que se debruçam sobre este tema tão complexo que é a Cosmovisão. Entretanto, sabemos que alguns autores trazem diferentes concepções e interpretações sobre o que é uma cosmovisão, ou quais cosmovisões influenciam a humanidade. O interesse desta pesquisa está em estabelecer uma interpretação para a cosmovisão calvinista de ação social, partindo da premissa que o pensamento calvinista e reformado promoveu mudanças significativas no contexto religioso e social, e assim marcou profundamente a história das nações que foram influenciadas por essas ideias.
Se a primeira onda da Reforma Protestante identificava o Luteranismo como único oponente ao Romanismo, a segunda onda da Reforma foi norteada pelas ideias de Calvino,
196
Cf. KUYPER, Abraham. Calvinismo. Tradução de Ricardo Gouvêa Quadros. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 20-22.
197
Cf. Ibid., p. 28. 198
que se propagavam aceleradamente através do trânsito de refugiados reformistas que em contato com os escritos de Calvino, ao retornarem a seus países de origem divulgava-os, tornando conhecida a obra das Institutas traduzida para a língua francesa, que ficou conhecida em diversas províncias dos Países Baixos e toda a Europa.199
A princípio a segunda onda do Calvinismo, se consagrou levando consigo a perspectiva religiosa dos seguidores de Calvino, mas para McGrath o estudo da relação entre os homens e seus movimentos é pertinente na história intelectual. Percebemos que
O Calvinismo é um sistema de idéias historicamente associado a João Calvino. [...] Na prática, porém, é de certa forma evidente que o Calvinismo designa um sistema de crenças cuja inspiração deriva, em ultima análise, ao menos em parte, do próprio Calvino. Apesar de evidentes paralelos entre certos aspectos de seu pensamento e o de escritores anteriores, o sistema de Calvino (nós empregamos esse termo de forma genérica) como um todo representa uma síntese criativa e original. Há um evidente paradigma de causalidade histórica que liga Calvino àqueles escritores normalmente designados como “calvinistas” e ao movimento conhecido como “Calvinismo”.200
Diante dos acontecimentos da história percebe-se a recorrência da “volta ao passado”, da valorização de experiências de outrem para uma nova concepção que possa trazer mudanças, são as experiências e ações que compõem o quadro de respostas em torno de problemas e dilemas que acompanham os homens em todas as épocas. Homens reconhecidos por este desejo de satisfazer seu senso de significado e sentido também buscaram respostas para os anseios intelectuais, espirituais, psicológicos e sociais. Concordamos com Oadi Salum quando escreve que “Para nós, reformados, estudar o calvinismo significa reconhecer a relevância que exerceu no século 16, a relevância de que se reveste e permanece até o nosso século 21. Calvino é contemporâneo de todos nós, independe do tempo e do espaço”.201
A ideia da cosmovisão nos reporta a algo que transpassa o tempo, o espaço, os limites do conhecimento, ela abarca todas as esferas da existência humana, as quais se alojam no passado, presente e futuro, engloba e sugere a individualidade e a totalidade, a integralidade e a completude do ser humano e sua relação com o universo e com o que ele crê como verdade. Sire refere que uma cosmovisão em essência é isto:
[...] um comprometimento, é uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história ou um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser total ou parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas), que detemos
199
Cf. MCGRATH, Alister. A vida de João Calvino. Tradução de Marisa Lopes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 226; REID, W. Stanford. (Ed.). Calvino e sua influência no mundo ocidental. São Paulo: Casa Presbiteriana, 1990. p. 590.
200
Ibid., 2004, p. 233. 201
Cf. SALUM, Oadi. Uma visão cosmológica na perspectiva da revelação bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 76.
(consciente ou subconscientemente,consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade e que fornece o alicerce sobre o qual vivemos, movemos e possuímos nosso ser.202
A relação que estabelecemos com uma cosmovisão é essencial para a obtenção de diretrizes que nos auxiliem na concretização de nossos projetos, sejam eles em qualquer esfera de nossas vidas. Não é possível promover um cristianismo integral sem uma cosmovisão de vida e futuro que não seja compartilhada. Neste sentido Brian J. Walsh e J. Richard Middleton reconhecem que
Uma cosmovisão nunca é meramente uma visão da vida. É sempre uma visão, também, para a vida. De fato, uma visão da vida ou cosmovisão, que não conduza, necessariamente, uma pessoa ou um povo em uma forma distinta de vida não é cosmovisão. Nossa cosmovisão determina nossos valores. Ela nos auxilia a interpretar o mundo ao nosso redor. Ela separa o que é importante do que não é; o que é mais valioso do que é menos. [...] Uma cosmovisão, então, proporciona um modelo de mundo que direciona seus adeptos no mundo.203
Acrescentamos que a nova definição de Sire sobre cosmovisão faz três coisas como ele mesmo afirma:
Primeiro, ela muda o foco de uma cosmovisão como “um conjunto de pressuposições” para um “compromisso, uma orientação fundamental do coração”, concedendo uma ênfase maior às raízes pré-teóricas do intelecto. Segundo, expande a forma pela qual as cosmovisões são expressas, adicionando ao conjunto de pressuposições uma noção de história. Terceiro, torna mais explícito que a raiz mais profunda de uma cosmovisão é seu comprometimento e compreensão da “realidade real”. Quarto, ela reconhece o papel do comportamento em avaliar o que a cosmovisão de uma pessoa realmente é.204
No estudo da história da Igreja Cristã em suas crises e inquietações teológicas, sociais e culturais, encontramos pessoas que se ocuparam em dar sentido às suas vidas através da verdadeira revelação de Deus e seu propósito neste mundo. Podemos nos reportar a estes como homens inconformados com seu tempo, homens que de fato queriam uma experiência genuína com Deus, com sua religião, Igreja e a sociedade de seu tempo. Foram muitos os homens e mulheres que viveram esta busca, e que encontraram como resposta o grande desafio de uma vida inteiramente voltada para a glória de Deus. Nas últimas décadas o conferencista e teólogo John Stott expressou sua expectativa quanto ao chamado e missão dos cristãos nos dias atuais enfatizando que,
202
SIRE, James W. O universo ao lado. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 16. 203
WALSH, Brian J.; MIDLETON, J. Richard. A visão transformadora: moldando uma cosmovisão cristã. Tradução de Valdeci Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 29.
204
Certos cristãos, preocupados acima de tudo com serem inequivocadamente fiéis à revelação de Deus, ignoram os desafios do mundo e vivem no passado. Outros, ansiosos por responder ao mundo que os cerca, enfeitam e torcem a revelação de Deus, em busca de relevância. Tenho tentado evitar ambas as armadilhas, pois o cristão não é livre para submeter-se, nem à antiguidade nem à modernidade. Ao invés disso, tenho buscado com toda a integridade submeter-me à revelação de ontem dentro da realidade de hoje. Não é nada fácil combinar lealdade ao passado com sensibilidade ao presente. É este, no entanto, o nosso chamado cristão: viver no mundo sob a Palavra.205
O desafio de viver neste mundo sob o desígnio da Palavra de Deus implica em conhecer toda Verdade de Deus, todo mandato estabelecido para que o homem tenha um relacionamento direto com Deus e viva em sociedade glorificando-o em tudo que lhe for confiado. Superar este desafio é alcançar uma vida que se identifica com a vida de Cristo, o Deus encarnado, vida revelada em sua expressão máxima de obediência, amor e compaixão. De fato uma cosmovisão demanda uma vivência significativa para a existência daqueles que a possuem, esta deve permear e patentear todas as ações do indivíduo, retomamos então a afirmação de Sire quando se refere à cosmovisão,
Cosmovisão como um comprometimento. A essência de uma cosmovisão repousa
nos mais profundos e íntimos recônditos do eu humano. Uma cosmovisão envolve a mente; porém, é, acima de tudo, um compromisso, uma questão de alma. É uma orientação espiritual mais que uma questão de mente apenas.206
Os autores Walsh e Middleton207 reconhecem que é possível que cristãos desconheçam qual é a cosmovisão que os orienta, isso poderá causar um mal estar, quando se depararem com uma cosmovisão que não é permeada e fundamentada pela Bíblia Sagrada, a Palavra revelada de Deus. Deste modo os autores apresentam alguns critérios que podem validar uma cosmovisão: primeiramente uma cosmovisão deve elucidar toda a vida, a partir da criação e não apenas considerar alguns aspectos da vida, assim ela deve atingir a vida integral, a realidade em toda sua complexidade existencial. Outro critério a considerar é se esta cosmovisão os sensibiliza ou não para os assuntos do amor e da justiça, e se a mesma apresenta uma coerência entre o que se crê e o que se vive, ou seja, se há unidade de comprometimento. Eles concluem que é necessário avaliar se uma cosmovisão desvenda a vida e a encerra. Para eles uma cosmovisão não é infalível, absoluta, mas é continuamente revista à luz da Palavra de Deus, aberta à correção e refinamento. Neste sentido os autores entendem que,
205
STOTT, John. Mentalidade cristã. Tradução de Sileda Silva Steuernagel. São Paulo: Vinde, 1997. p. 14. 206
SIRE, James W. O universo ao lado. São Paulo: Hagnos, 2009. p. 16. 207
WALSH, Brian J.; MIDLETON, J. Richard. A visão transformadora: moldando uma cosmovisão cristã. Tradução de Valdeci Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 34-35.
Para os cristãos, o critério máximo pelo qual julgamos nossa cosmovisão é Bíblia. Ela é a revelação de Deus a respeito da realidade. Paulo diz a Timóteo que as Escrituras têm um propósito; elas são para ensinar, reprovar e corrigir, e para nos treinar na retidão de maneira que possamos estar equipados para uma vida de boas obras. (2 Tim 3.16-17). Se buscamos uma cosmovisão que nos leve à vida e não a morte, então devemos procurar as Escrituras para a instrução. E, como nossa cosmovisão é informada, corrigida e moldada pelas Escrituras sob o direcionamento do Espírito, receberemos orientação para nosso modo de vida. 208
O drama da pessoa humana se reflete na sociedade e repercute sobre o destino de toda criação. Impossível é compreender a história da humanidade sem situá-la no drama cósmico e universal de que nos fala a Bíblia e que, por seu lado, se esforçou Calvino por interpretá-la e explicá-la na linguagem de seu tempo à luz das Escrituras Sagradas ‒ a Bíblia.209
Calvino foi um dos protagonistas do período pós-reforma protestante que se destacou por seu perfil sistematizador, com presença na cidade de Genebra (1541-1564), consagrando deste modo o pensamento calvinista e reformado que ainda influencia a sociedade contemporânea ocidental. Seu pensamento social e suas obras destacam a importância da dignidade humana, seu direito e dever diante de Deus e da sociedade. Ao abordar a cosmovisão calvinista Oadi Salum afirma que o pensamento de Calvino é contemporâneo, independente do tempo e do espaço.
Esse autor explica que
Encontramos a resposta no fato que todo seu pensamento teológico concentra-se numa única e decisiva verdade: a autoridade soberana, suprema da Palavra de Deus. E isto nos permite a liberdade de reexaminar o pensamento de Calvino sempre pelo crivo das Sagradas Escrituras.210
A importância histórica do Calvinismo e sua Cosmovisão devem-se à extraordinária contribuição de seu mais destacado mentor Calvino, Reformador que exerceu uma influência excepcional em todo contexto dos países que foram alcançados pela Reforma Protestante do século XVI e pelo seu pensamento. Em seu capítulo sobre “O Calvinismo como uma força cultural” Knudsen deixou claro que
O impacto de Calvino e do Calvinismo sobre a moderna cultura ocidental está bem documentado. Reconhece-se que esta influência foi grande. Calvino e o Calvinismo
208
WALSH, Brian J.; MIDLETON, J. Richard. A visão transformadora: moldando uma cosmovisão cristã. Tradução de Valdeci Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 36.
209
BIÈLER, André. O pensamento econômico social de Calvino. Tradução de Valdyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Presbiteriana, 1990. p. 303-304.
210
SALUM, Oadi. Uma visão cosmológica na perspectiva da revelação bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 76.
ocuparam seu lugar entre as maiores forças que moldaram nossa moderna sociedade ocidental.211
Esta é a relevância para a cosmovisão calvinista diante de todas as áreas da existência humana, de todos os aspectos que permeiam a sociedade, as ciências e a religião. Kuyper reafirmou a extensão do propósito calvinista que não se limitou a dogmática e a eclesiologia.
O Calvinismo não se deteve numa ordem eclesiástica, porém expandiu-se em um
sistema de vida. E não exauriu sua energia numa construção dogmática, mas criou
uma vida e uma cosmovisão tal, que foi e ainda é capaz de ajustar-se às necessidades de cada estágio do desenvolvimento humano, em cada um de seus departamentos. Ele elevou nossa Religião Cristã ao seu mais alto esplendor espiritual; criou uma ordem eclesiástica que tornou-se a pré-formação da confederação de estados; provou ser o anjo da guarda da ciência; emancipou a arte; divulgou um esquema político que deu à luz o governo constitucional tanto na Europa como na América; encorajou a agricultura e a industria, o comércio e a navegação; colocou uma marca completamente cristã sobre a vida da família e sobre os laços familiares; através de seu alto padrão moral promoveu pureza em nossos círculos sociais; e para produzir este multiforme efeito colocou sob a Igreja e o Estado, sob a sociedade e a vida da família uma concepção filosófica fundamental estritamente derivada de seu princípio dominante, e portanto, completamente própria.212
Calvino deixou um legado sociocultural para a Igreja Cristã. Sua interpretação bíblica a respeito da ação cristã a favor de uma cultura social, política e econômica, foi direcionada para a glorificação a Deus e o reconhecimento da dignidade humana por ser o homem criado a semelhança e imagem do Deus Criador.
Os fundamentos da Cosmovisão Calvinista tiveram sua gênese no pensamento de Calvino, que formalizou sua interpretação geral do Cristianismo à luz das Escrituras Sagradas em sua obra máxima As Institutas (Instituição da Religião Cristã) de 1559. Calvino elencou as doutrinas bíblicas de maneira que sua base essencial era as Escrituras Sagradas, portanto a partir de seu pensamento outros cristãos reformados e calvinistas formalizaram confissões, catecismos e credos. Dentre estes se destacam os Cânones de DORT (1618-1619) e a Confissão de Fé de Westminster (1647) e os Catecismos (Maior e Breve Catecismo) (1648). Como constatamos no primeiro capítulo em breve síntese, Calvino fora rodeado de grandes vultos da história da Reforma, posteriormente o Calvinismo constituiu-se não apenas do pensamento de Calvino, mas de muitos que o sucederam e que tinham o germe da preocupação em certificar e fundamentar as doutrinas da graça.213
211
KNUDSEN, Robert D. O Calvinismo como uma força cultural. In: REID, W. Stanford. (Ed.). Calvino e sua
influência no mundo ocidental. São Paulo: Casa Presbiteriana, 1990. p. 11.
212
KUYPER, Abraham. Calvinismo. Tradução de Ricardo Gouvêa Quadros. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p.