centenárias com milhares de indivíduos até coleções particulares com apenas um indivíduo.
Os indivíduos analisados podem ser divididos entre arqueológicos e etnográficos, estes últimos são assim considerados por estarem acompanhados de informações sobre sua coleta entre grupos indígenas nos últimos 120 anos. Temos 1716 indivíduos representando cerâmicas arqueológicas e 307 representando cerâmicas etnográficas, estas úlimas contabilizando 15% do total.
O estado de conservação dos artefatos nas coleções é bem variado, já que existem condições exemplares de curadoria e condições de abandono do patrimônio. Infelizmente as situações de curadoria precária superam os casos de bons procedimentos, não cabendo aqui explicitar os problemas individuais de cada instituição, já que estes são muitos e particulares a cada uma delas. Compete-nos, entretanto, em caráter de denúncia e de informação aos órgãos competentes afirmar que a falta de recursos, fiscalização e cobrança por parte de poderes administrativos têm levado a inevitáveis perdas no conteúdo das coleções. Seja perda por quebra, extravio e inviabilização de pesquisa por desconexão com os contextos arqueológicos.
A desconexão com os contextos parece ser um dos piores problemas nas coleções. Infelizmente para muitos artefatos guardados nas coleções se perderam a relação com a origem, não é possível muitas vezes sequer saber se as peças são de perto da instituição ou de estados ou países alheios. Ou seja, permanece a noção de acervo de museu como curiosidade e exotismo, sem utilidade para pesquisa, meros enfeites, troféus de preservação.
Por incrível que parece a sociedade da informação, neste quesito, perde para a capacidade de acúmulo de informação das gerações anteriores, pois as coleções antigas, do final do século XIX e início do XX, apresentam mais informações sobre os artefatos do que as mais recentes. As instituições abdicaram de livros de tombo, do processo de tombamento (numeração) físico dos artefatos e de curadoria permanente. Não basta por uma etiqueta, ou por em uma embalagem e simplesmente guardar sem manter cuidados permanentes, a experiência tem mostrado que os sacos plásticos da década de 1980 hoje estão desfeitos e os artefatos por eles individualizados hoje estão em polvorosa mistura. Para os mais
diversos tipos de etiquetas e modos de numeração nas peças tem se mostrado fracassos passados 20 ou 30 anos de sua implementação, o que deve fazer-nos refletir: o modo como tombamos e guardamos as coleções são realmente adequados para manter as informações por centenas de anos previstos para sua guarda?
Tabela 2: Instituições com coleções visitadas
Instituição Sigla UF Município Nº de indivíduos analizados
Biblioteca Pública Municipal de Pelotas BIBPUPEL RS Pelotas 5
Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas - UNISC CEPASC RS Santa Cruz do Sul 128
Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas - UFPR CEPAPR PR Curitiba 14
Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas - PUCRS PUCRS RS Porto Alegre 108
Centro de Pesquisa em História Natural e Arqueologia do Maranhão CPHNA MA São Luiz 23
Coleção Marlisa Sornberger HORT RS S. J. do Hortêncio 1
Fundação Casa da Cultura de Marabá FCCM PA Marabá 68
Instituto Anchietano de Pesquisas - UNISINOS IAP RS São Leopoldo 49
Instituto de Pesquisas Ambientais e Tecnológicas - Setor de Arqueologia - MIPAT SC Criciúma 10
Instituto do Homem Brasileiro IHB MT Cuiabá 0
Laboratório de Arqueologia - UFPE LA PE Recife 74
Laboratório de Arqueologia - UFG LAUFG GO Goiânia 98
Laboratório de Arqueologia e Etnologia - UFRGS LAE RS Porto Alegre 8
Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia - LEPAARQ UFPel LEPAARQ RS Pelotas 5
Laboratório de Ensino e Pesquisa em Arqueologia e Antropologia ‐ FURG LEPAN RS Rio Grande 11
Laboratório de Estudos e Pesquisas Arqueológicas - UFSM LEPA RS Santa Maria 15
Museu Antropológico do Rio Grande do Sul MARS RS Porto Alegre 12
Museu Antropológico Diretor Pestana MAPESTANA RS Ijuí 71
Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul MARSUL RS Taquara 217
Museu Câmara Cascudo MCC RN Natal 56
Museu da Pedra do Urubu MPU CE Brejo Santo 1
Museu das Culturas Dom Bosco MDB MS Campo Grande 3
Tabela 02: Continuação - Instituições com coleções visitadas
Instituição Sigla UF Município Nº de indivíduos analizados
Museu de Arqueologia e Etnologia - UFPR MAEPR PR Curitiba 81
Museu de Arqueologia e Etnologia - USP MAEUSP SP São Paulo 92
Museu de Arqueologia e Etnologia da Faculdade Cenecista de Osório MFACOS RS Osório 2
Museu de Arqueologia e Etnologia Oswaldo Rodrigues Cabral - UFSC MArquE SC Florianópolis 23
Museu de Arqueologia - UFMS MUARQ MS Campo Grande 39
Museu de História Natural - UFMG / Setor de Arqueologia MHN MG Belo Horizonte 13
Museu de Pré-história Casa Dom Aquino MDA MT Cuiabá 5
Museu do Ceará MC CE Fortaleza 33
Museu do Homem do Sambaqui "Pe. João Alfredo Hor" - Colégio Catarinense MCat SC Florianópolis 57
Museu do Índio MI RJ Rio de Janeiro 220
Museu Gama D'Eça MGAMA RS Santa Maria 12
Museu Histórico Anita Garibaldi MAG SC Laguna 3
Museu Júlio de Castilhos JCASTILHO RS Porto Alegre 39
Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa MCANGU RS Canguçu 3
Museu Nacional MN RJ Rio de Janeiro 86
Museu Nogueira Machado MNM CE Caririaçu 6
Museu Paraense Emílio Goeldi MPEG PA Belém 179
Museu Regional do Alto Uruguai URI RS Erechim 14
Museu Rondon MR MT Cuiabá 2
Museu Universitário de Arqueologia e Etnologia - UFRGS MUAE RS Porto Alegre 16
Museu Vicente Pallotti MPALOTI RS Santa Maria 76
Análise Espacial
Mesmo com todos os problemas de documentação nos acervos pesquisados foi possível identificar a localização mesmo que aproximada de onde foram encontrados um significativo número de indivíduos (vasilhas ou fragmentos). Para isso consultei, quando existentes, os documentos das instituições (livros de tombos, fichas, relatórios, etc.), na ausência destes vali de publicações e das informações orais de curadores e pesquisadores dedicados, pessoas excepcionais que conhecem a história de cada artefato e a guardam. Ressalva há de ser feita neste último caso, já que mesmo em pessoas excepcionais a memória não é uma boa amiga e o registro por escrito deveria ser feito o mais rápido possível, antes que estas pessoas esqueçam ou sejam esquecidas.
Por meio das estratégias descritas acima foi possível relacionar 1094 indivíduos aos contextos de origem, ou seja, 54% do total, garantindo maior validade no que concerne à sua contribuição no entendimento dos eventos históricos de que tomaram parte e que hoje são testemunhos. Esta porcentagem de 54% parece pequena frente aos dados, contudo é bem significativa por apresentar as características das cerâmicas esperadas para cada região ou cada evento. Desta forma, permitindo que mesmo os indivíduos descontextualizados possam ser indiretamente atribuídos a determinadas regiões.
De modo geral as coleções permitiram a vinculação de indivíduos a 180 localidades de 17 estados brasileiros como podemos ver no mapa 10. Em sua grande maioria as