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2. Materiale og metode

2.5 Utvelgelse av prøveflatene

Para entender a função da música na sociedade moderna renascentista, examinaremos a obra Il Cortegiano (O cortesão), de Baldassare Castiglione (1478-1529), tida como uma das mais representativas do período.

Il Cortegiano tornou-se a base dos modos de ser e das maneiras aristocráticas, influenciando os escritores renascentistas e a nobreza da época. Nascido numa família aristocrática e considerado um cavaleiro extremamente refinado em seus modos, Castiglione descreve a formação do cortesão (o sucessor do cavaleiro medieval na sociedade) e seus atributos morais, de modo a ser um cavaleiro culto e agradável. Era uma espécie de livro de etiqueta, com a pretensão de educar e promover o bem-estar coletivo em toda a Itália.

Entre outras qualidades, o cortesão (homem educado) devia ser também um músico instrumentista e conhecedor da escrita musical, pois os músicos são agradáveis aos demais homens, pela revitalização proporcionada pela música, “grandiosa em seus benefícios (...) não apenas como ornamento, mas uma necessidade para o cortesão”. (Castiglione: 1528, livro I)

Nesta breve incursão, vemos que o conceito acerca da música tem nesse período uma relação direta com seu papel na educação. Para os antigos gregos, o verdadeiro músico era o filósofo, o matemático, o que pensava sobre ela por meio da razão; os instrumentistas, longe de serem considerados músicos (artistas), eram apenas “tocadores” (artesãos), a quem os grandes filósofos não davam muita importância (embora o povo se divertisse com eles).

Só a partir do Renascimento a figura do instrumentista começa a ter certo destaque, embora de modo ainda bastante tímido e controlado, um pouco à maneira grega, como lemos no Livro II (Castiglione: 1528, livro II):

“(...) [a música] deverá ser executada em bom estilo e com precisão. Mas cantar com o acompanhamento do alaúde é ainda melhor (...) também os instrumentos de traste são harmoniosos (...) E a música para o conjunto de violas não é menos encantadora (...) Mas acima de tudo, o momento adequado [para se tocar] é aquele em que as damas se encontram presentes, pois a visão delas suaviza o coração de quem está ouvindo, tornando-o mais susceptível à delicadeza da música, e também estimulando o espírito dos próprios músicos. Como anteriormente disse, deve-se evitar tocar na presença de um grande número de pessoas, especialmente se for gente do povo. E de qualquer modo, tudo deve ser moderado pela discrição, pois é quase impossível imaginar-se todo tipo de circunstância e, se o cortesão for um bom juiz de si mesmo, ele

adaptar-se-á à ocasião e saberá quando sua audiência está pronta a ouvi-lo, e quando não. E ele agirá de acordo com sua idade, pois é seguramente inconveniente e desagradável para um velho senhor grisalho, já desdentado e enrugado, tomar a viola para tocar e cantar diante de um grupo de damas, mesmo se sua execução for realmente boa. Isso porque as palavras das canções são quase sempre amorosas e, vindas da boca de um velho, elas soariam ridículas; embora por vezes, parece que o Cúpido, junto a outros milagres, possa deleitar-se em derreter até os gelados corações dos velhos.”

Embora, à primeira vista, esse excerto de Castiglione possa soar semelhante aos textos gregos, ele parte de um princípio totalmente diferente, em que a essência é substituída pela aparência, característica de uma ética e de uma estética tipicamente burguesas. Revela-nos também a transição para uma concepção de música e de músico em que o instrumentista não é mais um simples artesão sem importância para a sociedade, e sua música tampouco é mero exibicionismo, ou em que o exibicionismo adquire um valor positivo.

O homem da Renascença desenvolve uma percepção mais aguçada de si mesmo e se afasta dos elementos místicos e religiosos em direção ao questionamento e à busca da razão. Mais uma vez, o homem é a medida de todas as coisas, como o fora antes para Protágoras de Abdera.

À volta aos ideais gregos e novas concepções de mundo exerceram enorme influência sobre os músicos e as músicas que criavam. A música profana ganha força, os instrumentos já não estão fadados à função de acompanhantes das vozes e, em razão disso, a técnica musical evolui, passando a assumir um caráter profissionalizante.

Diante dessa multiplicidade de concepções, as observações de Salles são esclarecedoras. Ele aponta a história da música como uma sucessão de definições de música, sempre se sobrepondo às anteriores, seja por acréscimo, por subtração, por ampliação ou adaptação, e afirma que, ao longo do tempo, o homem tem transformado sua forma de encarar a arte dos sons e sua visão de música, sempre propondo novos conceitos, usos, formas, materiais sonoros e instrumentos. (Salles, 2004: 110)

Percebemos quão distante está hoje o ensino musical das possibilidades conceituais e simbólicas de outras épocas, assim como de seu vínculo indissociável com o conhecimento humano.

Retomando nossas considerações, se o saber musical enfrenta hoje uma falta de identidade e de legitimação no ensino escolar, isso se deve em parte à crescente fragmentação de sua essência e à redução de seu alcance como atividade humana. A música deixou de

pertencer a uma categoria intelectual para tornar-se um saber teórico-prático moldado nos preceitos estéticos ocidentais, apenas reproduzido e destituído de significado. Vemos claramente a decadência de seu valor como conhecimento, refletida na prática escolar; outrora, um conhecimento indispensável ao homem e à compreensão de sua existência, hoje, uma atividade menor, levada ao último degrau da banalidade.

No entanto, esta breve incursão histórica não pretende que o ensino musical se volte a basear nas regulamentações ou na abrangência conceitual de outras épocas, mas apenas para mostrar transformações devidas a fatos sociais e culturais, eventualmente inspiradoras de possibilidades que respondam às expectativas educacionais contemporâneas.