Kapittel 3 Vitenskapsteoretisk ståsted og forskningsdesign
3.2 Valg av forskningsdesign
3.2.1 Utvelgelse av dokument og informanter, og dataenes validitet
Sob o filtro do olhar de Poussin, Balzac confere a Frenhofer um aspecto misterioso, ao que se associa uma espécie de inspiração própria aos artistas, um “não-sei-que” (p. 390) sedutor ou mesmo perturbador. Conforme expressa o narrador, Poussin busca definir Frenhofer como “um gênio fantástico que vivesse numa esfera desconhecida” (p. 400)173, sobre o que o próprio narrador complementa: “tudo naquele ancião ultrapassava os limites da natureza humana” (p. 401)174. Quando Poussin vê Frenhofer pela primeira vez é tomado por um pressentimento incomum; quando o vê pintar pela primeira vez, vê “um demônio que atuava por suas mãos” (p. 397)175. Ao conhecer as obras do velho pintor, conclui: “estou então em casa do deus da pintura” (p. 399)176. O pintor ancião é observado por Poussin como uma “criatura sobrenatural” (p. 401)177, com habilidades simultaneamente divinas e sediciosas, ambíguas e raras, uma perspectiva que nos traz elementos psicológicos complementares à descrição predominantemente física do personagem:
Imaginem uma fronte calva, abaulada, proeminente, projetando-se saliente sobre um nariz pequeno e chato, arrebitado na ponta como o de Rabelais ou o de Sócrates; uma boca risonha e enrugada, um queixo curto, orgulhosamente erguido, tapado por uma barba grisalha, aparada em ponta, olhos verde-mar embaciados na aparência pela idade, mas que, pelo contraste com o branco nacarado em que a pupila flutuava, deviam por vezes despedir olhares magnéticos no paroxismo da cólera ou do entusiasmo. O rosto, aliás, estava singularmente emurchecido pelas fadigas da idade, e, mais ainda, por esses pensamentos que corroem igualmente a alma e o corpo. Os olhos não tinham mais cílios, e mal se viam vestígios de sobrancelhas por sobre as arcadas salientes. Ponham essa cabeça num corpo franzino e débil cerquem-na de uma renda de deslumbrante alvura e perfurada como uma colher para peixe, atirem sobre o gibão preto do ancião uma pesada corrente de ouro, e terão uma imagem imperfeita desse personagem, ao qual a escassa luz da escada acrescentava ainda uma cor fantástica. Dir-se-ia uma tela de Rembrandt caminhando silenciosamente, e sem o quadro, na escura atmosfera de que o grande pintor se apropriou (p. 390-391).178
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« [...] un génie fantasque qui vivait dans une sphère inconnue. » (p. 19).
174 « [...] tout en ce vieillard allait au delà des bornes de la nature humaine. » (p. 19). 175 « [...] un démon qui agissait par ses mains [...]. » (p. 13).
176 « [...] je suis donc chez le dieu de la peinture, [...]. » (p. 16). 177
« [...] être surnaturel, [...]. » (p. 19).
178 « Imaginez un front chauve, bombé, proéminent, retombant en saillie sur un petit nez écrasé, retroussé du bout comme celui de Rabelais ou de Socrate; une bouche rieuse et ridée, un menton court, fièrement relevé, garni d'une barbe grise taillée en pointe, des yeux vert de mer ternis en apparence par l'âge, mais qui par le contraste du blanc nacré dans lequel flottait la prunelle devaient parfois jeter des regards magnétiques au fort de la colère ou de
60 Figura 3 - Rembrandt. Autorretrato. 1636-1638.
The Norton Simon Museum, California.
A descrição fundamentada em cores, luminosidades e nas comparações com objetos conferem ao texto aspectos picturais, que se reforçam quando o escritor compara Frenhofer a uma tela de Rembrandt que caminha. Segundo Nogacki, “o que atrai Balzac num pintor é sua habilidade em expressar uma impressão ou um caráter”179. No trecho em evidência, Rembrandt é lembrado pelo tipo de atmosfera com que impregna suas obras, o que nos indica certa obscuridade que circunda o personagem descrito ou, conforme expressa o escritor, uma “imagem imperfeita” que prevalece apesar da minuciosa descrição.
l'enthousiasme. Le visageétait d'ailleurs singulièrement flétri par les fatigues de l'âge, et plus encore par ces pensées qui creusent également l'âme et le corps. Les yeux n'avaient plus de cils, et à peine voyait-on quelques traces de sourcils au-dessus de leurs arcades saillantes. Mettez cette tête sur un corps fluet et débile, entourez-la d'une dentelle étincelante de blancheur et travaillée comme une truelle à poisson, jetez sur le pourpoint noir du vieillard une lourde chaîne d'or, et vous aurez une image imparfaite de ce personnage auquel le jour faible de l'escalier prêtait encore une couleur fantastique. Vous eussiez dit d'une toile de Rembrandt marchant silencieusement et sans cadre dans la noire atmosphère que s'est appropriée ce grand peintre. » (p. 5).
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61 A referência à “pesada corrente de ouro” também nos remete a retratos de Rembrandt, nos quais o acessório usualmente aparece, conforme ilustra a figura 3, acima, um autorretrato realizado entre 1636 e 1638. A presença da corrente era um símbolo de prestígio muitas vezes concedido a artistas por um patrono nobre. Juntamente com a boina e a vestimenta tinha o propósito de demonstrar o status do artista, uma distinção necessária para a época, na qual os pintores apenas iniciavam a busca pelo reconhecimento de sua arte entre uma elite intelectual180.
Figura 4 - Frans Pourbus II. Retrato de um homem. Sem data. Art Gallery of New South Walles, Sydney.
Demais elementos do personagem são, entretanto, melhor associados a outros artistas e obras, ou mesmo a escritores e pensadores, conforme a referência explícita a Rabelais e a Sócrates. Quanto à “renda de deslumbrante alvura e perfurada como uma colher para peixe”, podemos observá-la caracterizando o traje de Frenhofer em ilustrações de época (figuras 1 e 5), e
180 Rembrandt, Van Rijn. Autorretrato. Pintura. 1636-38. Disponível em: http://www.nortonsimon.org/collections/ browse_artist.php?name=Rembrandt+van+Rijn&resultnum=65. Acesso em: 26 set. 2012.
62 também podemos encontrá-la bem exemplificada no quadro Retrato de um homem (figura 4), de Frans Pourbus II, o pintor que serve de referência para a criação de François Porbus181, o personagem. Enfim, Balzac se baseia em um somatório de indícios e referências com o objetivo de enquadrar Frenhofer no estereótipo de um pintor tradicional, cuja barba “aparada em ponta” é um dos elementos mais característicos.
Figura 5 - P. Soyer. Frenhofer segurando uma tela. S/d. Fonte: Œuvres Illustrées de Balzac. p. 41.
Biblioteca Nacional da França (Gallica).
Figura 6 - Pablo Picasso. Pintor diante de sua pintura. 1927. Fonte: Le Chef-d'œuvre inconnu. Livro ilustrado.
MOMA Collection.
As figuras 5 e 6, acima, nos mostram a relação entre o pintor e sua obra. Na primeira ilustração (figura 5), de autoria de P. Soyer, Frenhofer é representado conforme Balzac o descreve, estando ainda a suster uma tela entre as mãos, em gesto de cuidado. Interessante notar que é o verso da tela que se encontra voltado para o observador, logo, a imagem é resguardada. Na segunda ilustração (figura 6), de autoria de Picasso, para edição organizada por Ambroise Vollard (1931), o personagem é representado como um esboço simbólico de qualquer pintor, e fica destacado o íntimo envolvimento que estabelece com a figura feminina que está a compor.
181 Balzac utiliza a forma “François Porbus” para nomear seu personagem, enquanto nos livros, que tratam da vida e obra do pintor, consta a grafia “Frans Pourbus”.
63 Para Didi-Huberman, Frenhofer é um sujeito confuso que anda às voltas com a loucura – “loucura da dúvida”. Alguém que, de tanto investigar, chega a suspeitar do próprio objeto de investigação e protela irremediavelmente o fim da obra. O autor sugere que Frenhofer lida com o fracasso, pois lida com um “limite” do pictórico, com a possibilidade/impossibilidade de representar o encarnado da pele no contexto da pintura de figuras humanas. A pele é uma retícula sob a qual corre sangue, e o sangue significa vida. Assim, a obtenção de sucesso na representação do encarnado da pele envolve lidar com um limite pictórico entre a arte e a vida e, por isso, a representação da carnação – a morna vitalidade, o rubor – é o mesmo que lidar com um “fantasma” da pintura182.
Para Teixeira Coelho, Frenhofer é a expressão plena de um sujeito romântico, em cuja personalidade não há espaço nem para insanidade, nem para conotações de fracasso. Podemos dizer que, segundo este autor, associar loucura à Frenhofer é desconsiderar a primazia da função estética da arte. Coelho chega a associar ao personagem ideias de Herder (1744-1799) e Schelling (1775-1854), e enfatiza que a relação entre arte e vida é própria de uma “concepção romântica da arte”183.
Diante do exposto, podemos compor a suma de Frenhofer ao dizer que se trata de um artista que se dedica cuidadosamente à reflexão sobre os processos de criação e, por possuir o objetivo apaixonado de suplantar o limite do conhecimento, as ambiguidades prevalecem em relação às certezas.