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Humberto Guimarães.

Diferentemente da Foto 16, a Foto 17, ambientada na casa do Sr. Jésus, revela o uso de um suporte textual de um modo totalmente diferente do que é usual: o livro está amarrado e pendurado na cortina ao lado da porta da sala e, como nenhum dos dois moradores da casa sabem ler, sua utilização se dá exclusivamente como enfeite. Segundo o morador, Sr. Jésus, o livro foi ganho em uma das aulas que frequentou há anos atrás e, por achar a capa da obra bonita, ele e a esposa o penduraram lá:

Patrícia: E esse livro aqui Sr.Jésus é do senhor? Sr. Jésus: É. É meu sim.

131 Jésus: Não, eu nem lembro mais quem deu ... Deixa eu lembrar aqui... Acho que foi uma professora que nós tivemos que deu esse livro.

Patrícia: E faz tempo?

Sr. Jésus: Eu acho que faz viu... Mas eu não me lembro direito não. (o livro foi publicado no ano de 2009)

Patrícia: E o senhor conhece a história do livro?Ele se passa em uma comunidade quilombola sabia?

Sr. Jésus: Não. Eu não sei ler né?!

Patrícia: Mas a professora não leu pra vocês durante a aula não? Sr.Jésus: Ah, que eu me lembre, a gente só ganhou mesmo. Patrícia: E quem pôs ele aqui?

Sr.Jésus: Ah ela (referindo-se à sua esposa) pendurou aqui assim e ficou bonito né?! Patrícia: É ficou sim. Combinou com a cortina... O senhor tem outros livros aqui na casa?

Sr. Jésus: Assim igual a esse (possivelmente referindo-se ao viés literário da publicação) não tem não.

Patrícia: E outros livros diferente tem?

Sr.Jésus: Tem a bíblia né?! E tinha os livros dos meninos na época da escola. Mas agora é só a bíblia mesmo.

O livro utilizado por Sr. Jésus e sua família é uma obra paradidática resultado de uma pesquisa realizada pelo CEDEFES69 que aborda as tradições africanas através da história do personagem Zezé e traz ao leitor muitos elementos ligados às tradições africanas. A obra paradidática é notadamente voltada para o público como se pode observar através do projeto gráfico, da linguagem e até mesmo pelo próprio título. Entretanto, mesmo não havendo nenhuma criança na casa o livro fica exposto ornando o ambiente. Mesmo que o livro focalize uma temática que vem sendo discutida pelo grupo durante as reuniões da Associação, o morador não demonstrou conhecer esse viés, ao ressaltar a questão meramente estética da utilização do material.

A utilização dos materiais escritos de forma diferente da usual, como é o caso do livro exposto na cortina da casa do Sr. Jésus, pode ser entendida como um indicativo de valorização da obra como sendo um ícone representativo da cultura escrita. O uso do livro como elemento decorativo

69 A pesquisa contou com o apoio do com apoio do Governo Federal, da Secretaria Especial de Políticas de

132 ocorre nos mais variados meios sociais, sendo o livro tomado como objeto com valor artístico e cultural, legitimado pelo poder atribuído à língua escrita.

Em relação à declaração de desconhecimento de Sr.Jésus sobre a temática do livro, inferimos duas possíveis explicações para tal postura diante dessa questão: a primera é de que ele realmente não tenha tomado conhecimento da narrativa e dos elementos culturais relacionados à África presentes na história, que suscitam a questão da ancestralidade, ponto muito pertinente nas discussões sobre as especificidades das comunidades quilombolas. O que certamente decorreu da falta da mediação de outro leitor experiente e crítico, ciente da importância da apreensão de tais aspectos. A segunda explicação é a de que provavelmente para não ser questionado sobre o assunto, ele assinalou não conhecer o livro que, e assim, não precisou aprofundar o discurso sobre o tema, e assim não sendo questionado sobre o assunto haja vista a expectativa das pessoas de fora da comunidade, assim como eu, esperam um discurso bastante centrado na temática quilombola.

Dadas as características do grupo que em muitos momentos revelou-se muito fechado em relação ao tema quilombola, sobretudo, nos meses iniciais da pesquisa, o fato de o Sr. Jésus negar conhecer a história do livro, foi analisado também como um silenciamento que demarcou o campo até onde o outro “de fora” no caso a pesquisadora, poderia adentrar. O fato da publicação do material ser recente, 2009, pode corroborar com essa hipótese, além disso, a ilustração da capa já traz consigo muitos elementos que caracterizam a cultura africana que influenciam os povos quilombolas como o congado, que fora percebido durante a festa do Rosário descrito no Capítulo 3.

No contexto dos dois lares apresentados, a diversidade de materiais escritos dispostos nas paredes exerceu uma função estética, decorativa entre os moradores.

133 4.3.2 A escrita com função usual

Ainda no que diz respeito à esfera doméstica, ao chegar à casa de D. Necila, outra líder da Casa de Doces, tive a oportunidade de presenciar uma cena que evidenciou outro evento relacionado ao uso da escrita, conforme entrevista à pesquisadora em outubro de 2010:

Patrícia: As compras de casa a senhora faz sozinha? Necila: Com Deus né?!

Patrícia: E como a senhora faz pra poder escolher as coisas?

Necila: Chego lá (...) Compra né?! Minha filha porque não sabe ler! Né?! A gente escolhe lá. Eu fui lá hoje. Comprei.

Patrícia: A senhora sempre compra as mesmas coisas, o mesmo sabão, o mesmo biscoito, a senhora sempre compra igual, da mesma marca?

Necila: Os mesmos né, não tem jeito. Eu sempre levo meu neto comigo. Patrícia: Ele tem quantos anos?

Necila: Quantos anos tem?12.

Necila: Esse aí é da minha filha caçula. (um neto adentra na casa enquanto conversávamos)

Patrícia: A que estava com 01 ano quando a senhora veio morar aqui na Vila? Necila: Isso.

Patrícia: Aí é ele que sempre vai com a senhora escolher as coisas?

Necila: Não é só ele não. Ele vai, mas só que hoje ele foi pro Serro aí eu fui lá comprei pro (inaudível)

Patrícia: E o dinheiro pra senhora pagar, o troco lá... A senhora sabe mexer com o dinheiro?

Necila: Dinheiro eu sei, só não sei se tem validade, se passou da validade, isso aí eu não sei não.

Patrícia: Aí quando o seu neto vai a senhora pede pra ele olhar?

Necila: Não, aí eles olham pra mim, sabe?! "Não compra não esse aqui passou da validade", o outro fala "esse passou da validade". E eu digo “Ô menino olha pra mim se tem alguma coisa que passou da validade na compra aí”.

A fala de D. Necila mostra que, mesmo não sabendo ler e escrever ,ela atribui ao rótulo o seu real sentido, sabe que compete a esse texto informar sobre o prazo de validade dos produtos industrializados. Esse saber nos remete a consideração de Street (2010) sobre a importância de se pensar na ideia da atribuição de significado ao uso da língua escrita, ao invés de se adotar o princípio que subjuga os sujeitos como letrados ou iletrados. Uma vez que conforme salienta

134 Barton e Hamilton (1998), as práticas de escrita são intercedidas por práticas orais, pelo diálogo, o que nos leva a compreender o quão imprevistas são as probabilidades de uso leitura e da escrita assim como são ilimitados também os significados constituídos baseado nesse uso.

Ainda durante nossa conversa, presenciei a entrega das compras do mês realizadas por ela na mercearia local naquele mesmo dia, pela manhã. Estávamos na sala e ela orientou os entregadores que deixassem as caixas no quarto e então continuamos a conversa. Assim que as compras foram deixadas no quarto, ela pede ao neto que faça a conferência dos produtos que haviam sido entregues.

Observo tudo e percebo que o neto analisa a data de validade no rótulo de todos os produtos perecíveis que haviam sido comprados: leite, iogurte, manteiga, e em seguida confere os demais produtos enlatados, assim como o feijão e arroz. Após a conferência dos rótulos e embalagens informa à avó que está tudo certo.

Indaguei o motivo de o garoto estar fazendo aquilo e D. Necila explicou que como ninguém a acompanhou no mercado, ela não sabia se tinha comprado algum produto vencido, por isso, quando ocorria dela fazer as compras sozinhas, logo que os produtos chegavam algum neto lhe fazia o favor de conferir a validade, pois se o produto estivesse com prazo ultrapassado ou perto de vencer eles o separavam e depois ela voltava na mercearia para trocar por uma mercadoria com prazo mais longo.

Essa estratégia utilizada por D. Necila denota que tal como aponta Soares (1998) o letramento se configura “como um fenômeno cultural, um conjunto de atividades sociais que envolvem a língua escrita, e de exigências sociais de uso da língua escrita” (SOARES, 1998, p. 66-70, grifos da autora). Ainda que não alfabetizada, essa senhora aporta conhecimentos e saberes sobre a escrita apresentando um “grau” de letramento, uma vez que inserida em um ambiente que mesmo apresentando características bastante peculiares, isto é, uma comunidade quilombola situada em área rural, onde a circulação da escrita se dá de modo bastante restrito, em muitos momentos os sujeitos desse grupo, como se pode constatar através desse episódio, vivenciam situações onde há

135 uma integração com uma tradição da escrita. Deste modo, esses sujeitos acabam por envolverem- se em práticas diárias onde o ler e o escrever estão presentes utilizando-se a seu modo, da leitura e da escrita.

Nesse sentido, as reflexões de Kalman (2010) foram fundamentais para compreendermos o modo como assim como D. Necila e outras pessoas não alfabetizadas lidam com a escrita, uma vez que partilhamos da ideia da autora de que a escrita é muito mais do que letra, haja vista que no letramento a ênfase não se centra no texto, mas nas práticas. Tal conceito nos auxiliou compreender os usos da língua escrita como fenômeno diverso em que cada sujeito da Vila a partir de sua vivência sócio-cultural ressignifica as práticas de letramento.

No passado, tal como D. Necila, Sr. Jésus, D. Geralda, assim como outros habitantes da Vila afirmam que a maioria dos alimentos era cultivado por eles, a “compra de fora” era mínima e assim não havia a necessidade da incorporação da prática de verificação da durabilidade dos produtos, pois como a maioria dos perecíveis eram produzidos por eles próprio, o período de validade era conhecido por todos através da experiência adquirida na vida.

Todavia, como o passar do tempo, mudaram-se as práticas e a compra de mercadorias industrializadas passou a ser frequente. O que por sua vez, exigiu certo conhecimento sobre o funcionamento da escrita nesse contexto, tal como o evento vivenciado por D. Necila nos aponta: ela sabe que é preciso conhecer a validade do produto, pois senão ele poderá causar danos à saúde, nos mostrando, assim, que o uso e compreensão das informações contidas nos textos dos rótulos é muito mais ampla do que simplesmente o texto, codificado nas embalagens.

Isso porque o letramento é o processo social de produzir significado com um texto, e esse episodio evidenciou o modo como D.,Necila significa a escrita. Já que as práticas de letramento são constituídas no enfrentamento de diferentes situações na vida dos sujeitos que demandam a mobilização de diferentes estratégias, e, conforme assinala Street (2003 a) é através das práticas sociais e concepções de leitura e escrita que os participantes inserem-se nos eventos e os significam.

136 4.3.3 A valorização da escrita ligada ao conhecimento escolar

O terceiro evento no qual o uso da escrita foi observado durante a pesquisa na Vila, no ambiente doméstico, diz respeito à atitude da mãe diante da realização de tarefas escolares dos filhos. O episódio foi vivenciado na casa de Margarida. Durante uma visita no mês de novembro de 2010, conversávamos sobre seu interesse de aprendizagem na escola, pois até então ela participava das aulas do Programa Brasil Alfabetizado na comunidade, e ela discorria sobre a vontade de aprender a ler e escrever para conseguir um emprego melhor (segundo ela gostaria de trabalhar como secretaria). Enquanto continuávamos a conversa, no quarto, seu filho maior (de 08 anos) realizava a leitura de um livro de literatura que fora emprestado pela escola, e a cada trecho lido percebia que o tom de sua voz ficava cada vez mais alto, compreendo que ele gostaria de ler para mim. Assim o convidei a ir para a cozinha e ler para nós duas, tal como se pode observar na Foto 18.

Foto 18- O filho mais velho de Margarida realiza a leitura em voz alta do livro “O leão e o ratinho” para