No tocante ao diálogo direto entre os personagens, característica inerente à linguagem cinematográfica, verificaremos os constantes signos que surgirão durante essa interação. Além disso, o cenário, o vestuário, a montagem e as mudanças de planos produzem, da mesma forma, signos relevantes para a interpretação de um filme, uma vez que constituem a própria linguagem do cinema.
Com relação ao uso específico da palavra no cinema, Lótman (1978, p. 69) expõe o seu pensamento de que “(...) a palavra não é um elemento facultativo, suplementar da narrativa cinematográfica, mas um elemento obrigatório desta”. Dessa maneira, não podemos desprezar a palavra inserida na tela de cinema, observando como a significação se revelará a partir do conjunto estruturado pela sonoridade (fala, música, ruído) e pela imagem (ambiente, vestuário, acessórios).
O diálogo que evidenciaremos no filme de Ruy Guerra acontece em um jogo de futebol onde Max comparece com o objetivo de chamar a atenção de Ludmila, filha de Otto Strudell, que se encontra nas arquibancadas.
No estádio, Ludmila está acompanhada de Fiorella, funcionária que trabalha na casa de Strudell. Max, ao chegar, recebe instruções de Geni sobre o formato do corpo de Ludmila. No entanto, o malandro, que se veste como marinheiro para simular alguma importância, acredita que a filha de Otto é Fiorella e senta ao lado desta.
A princípio, verificamos que o jogo de futebol é disputado entre os times Fluminense e América, e que Fiorella é torcedora do time tricolor (o Fluminense), uma vez que ela está vestida com uma das cores do clube, o verde. Já Ludmila veste uma roupa branca e possui um pirulito na boca. O branco, no caso específico, não representa, em sua totalidade, nenhum dos times em campo. O pirulito, por outro lado, demonstra certa infantilidade, jovialidade ou mesmo ingenuidade de quem o desfruta, ao mesmo tempo em que representa,
simbolicamente, um pênis, revelando uma ambivalência no comportamento de Ludmila. Max, ao querer se aproximar de Fiorella, achando ser a filha de Otto, oferece doces, mostrando-se simpático e agradável.
Todavia, as circunstâncias cômicas acontecem quando o malandro tenta demonstrar conhecimento a respeito de futebol, dando origem a uma confusão:
Max: Mas é um craque. Fenomenal. O maior center-forward do mundo, sem dúvida. Só podia ser Heleno. Dá-lhe Heleno!
Torcedor 1: Que Heleno!? Não é Heleno, homem. Max: Cadê o Heleno?
Torcedor 1: Tá no Botafogo. Max: Perdão. Qual é o metiê? Torcedor 2: Fluminense e América. Ludmila: Heleno! Vai, Heleno!
Max: Não é Heleno, senhorita. É, dá-lhe América. Ludmila: Viva a América!
Torcedor 3: América aqui não!América aqui não!
Torcedor 2: Não está vendo a tribuna social? Aqui é Fluminense.
Max: Aqui é fascismo? E a liberdade de expressão? É América, sim. Deus salve a América.
Torcedor 3: Cala a boca, aí. Seu capadócio. (GUERRA, 1985, 39m55s).
O malandro procura se agregar à torcida do Fluminense, elogiando um atleta do time chamado Heleno, que atuou até o ano de 1939, passando a jogar pelo Botafogo a partir do ano seguinte. Entretanto, Max não sabia a fisionomia de Heleno e elogiou um jogador equivocadamente. Sendo, assim, reprimido, pela primeira vez, por um dos torcedores.
Depois que recebe a informação de que Heleno está no Botafogo, Max pergunta quais os times que estão jogando, obtendo como resposta: Fluminense e América. Neste momento, Ludmila, não ouvindo a explicação, vocifera o nome de Heleno. Mas é logo corrigida por Max, dizendo que é “dá-lhe América”. Ludmila, então, grita: “Viva a América”; e há uma segunda repressão contra eles, uma vez que estavam na arquibancada da torcida do Fluminense. Essa segunda repressão é bastante significativa, pois faz referência à semântica produzida pelos nomes dos dois times em relação ao contexto da época, que passava pela Segunda Guerra Mundial. Os estadunidenses poderiam ser representados pelo time do América, enquanto que o Fluminense simbolizava a Itália, ou seja, o regime fascista, devido à igualdade entre as cores das bandeiras: vermelha, branca e verde. Dessa forma, há uma confusão entre os torcedores quando Ludmila grita “viva a América”, dado que ela, por não entender de futebol e nem torcer por nenhum time, exalta o continente americano, ou melhor, os Estados Unidos da América, enquanto que os torcedores, convergidos para o jogo,
entendem que ela está manifestando sua predileção pelo time do América. Por isso, um dos torcedores reclama: “América aqui não”; e o outro diz: “Aqui é Fluminense”.
Max, inclinado ao entendimento de Ludmila, exalta-se e mistura a representação real dos times de futebol com a representação figurada por ele. Assim, ele questiona: “É fascismo? E a liberdade de expressão?”. O malandro compara o regime fascista italiano com a repressão que está sofrendo naquele momento, pois, como já dissemos, o torcedor do Fluminense estaria desempenhando o fascismo, que era regrado de autoritarismo. Por fim, Max declara “Deus salve a América”. Esta expressão tem como referência uma canção muito tocada, cantada e exaltada no período da Segunda Guerra Mundial, sendo considerada como um hino não oficial dos Estados Unidos. Ao ouvir essa manifestação, um dos torcedores acaba chamando Max de “capadócio”, isto é, um ser ignorante. Essa ofensa também tem o sentido de “malandro”, “trapaceiro” e “impostor”, as verdadeiras características de Max.
Observemos que o malandro sofreu três repressões: a primeira aconteceu quando ele falou o nome do jogador Heleno; a segunda, quando pediu para Ludmila se expressar com exaltação à América; e o terceiro momento ocorre quando Max louva a América. Pensando com fundamento em Bergson (1983), esse procedimento é semelhante a um boneco de mola, que a todo instante é estendido e comprimido. O estudioso diz que a referência a este objeto alude à infância, gerando circunstâncias cômicas que, no caso da cena específica, acontece através do diálogo entre Max e os torcedores, havendo uma “certa ideia que se exprima, se reprima, uma vez mais se exprima, certo fluxo de falas que se arremesse, que se detenha e recomece sempre. Teremos de novo a visão de uma força que se obstina e de outra resistência que a combate” (BERGSON, 1983, p. 38). Contudo, ele defende que a repetição da mola em si não provoca o riso, mas “numa repetição cômica de expressões, há em geral dois termos em confronto: um sentimento comprimido que se distende como uma mola, e uma ideia que se diverte em comprimir de novo o sentimento” (BERGSON, 1983, p. 39, grifos do autor). Dessa forma, não é apenas o fato de existir uma determinada circunstância que lembra uma mola, mas de haver também um propósito que é exprimido e reprimido constantemente. Na cena do jogo de futebol, a mola funciona nas três passagens em que Max se entusiasma com o jogo e com o nome “América”. O cômico, consequentemente, torna-se visível nas repetidas vezes em que o malandro procura exprimir um sentimento de exaltação e é reprimido por algum torcedor devido à confusão que demonstra, primeiramente, em relação ao jogador Heleno e, posteriormente, ao termo “América”.
Portanto, apesar da valorização da imagem no cinema, não se deve desprender-se da palavra. Esta é um dos elementos que compõe o conjunto da linguagem cinematográfica e
que, por isso, necessita ser examinada juntamente à imagem. Vimos, na cena em análise, que o malandro causa uma confusão entre as partes presentes na arquibancada devido à plurissignificação da língua. O cômico, dessa maneira, encontra-se na conduta sofrida pelo malandro de estar repetidas vezes sendo reprimido em virtude das confusões expressas por ele, do mesmo modo que a um boneco de molas, como referido por Bergson. Para Max, o nome “América” possui um sentido além do time de futebol que estava em campo. Enquanto que para os demais torcedores, que eram do Fluminense, o nome não ultrapassava o sentido futebolístico.
Assim, todos os componentes presentes na linguagem cinematográfica devem ter igual importância. Um dos elementos que estudamos no texto dramático foi o vestuário visto como revelador de signos nas prostitutas. No filme Ópera do malandro, observaremos estes signos do vestuário materializados e transfigurados em uma personagem específica chamada Fichinha.