3.2 TERRITÓRIO ENQUANTO OBJETO AGREGADO: Terra,
território, territorialidade
Segundo Zedeño (2008:210-211), a habilidade de dialogar com conceitos e modelos de largos e, algumas vezes, diferentes campos científicos e conhecimentos tradicionais, construindo a partir desses uma estrutura interpretativa sobre sociedades humanas, é uma rara característica da prática arqueológica que garante seu lugar nos estudos contemporâneos de território, de uso da terra e territorialidade.
Os territórios surgem então, como estruturantes da paisagem, delimitando a relação entre os elementos “de dentro” e os elementos “de fora”, assim como entre o “nosso lugar” e os “outros lugares” (TILLEY, 1994:17). Entretanto, os territórios não são homogêneos, formados por fronteiras bem definidas. Essa visão derivada do pensamento da geografia moderna do ocidente, não se aplica aos territórios de sociedades não industrializadas (ZEDEÑO, 1997:70; 2008:211). Ao contrário, pretendemos demonstrar que território, assim como paisagem, para seu amplo entendimento deve ser analisado não como a forma de um espaço geográfico, mas como objeto de análise social (SANTOS,1994).
O território é formado pela operação da interatividade ampliada (taskscape) da sociedade. Trata-se de um recorte na paisagem, constituído por um único lugar ou uma composição de lugares, em termos das formas efetivas de ocupação e uso da terra. Os vestígios materiais, registros dessa interatividade ampliada, refletem as mudanças na paisagem empregadas pelos Homens, assim como os ajustes das estratégias de uso da terra em relação às mudanças ambientais.
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São muitos os sinônimos aplicados à palavra terra. De forma geral, terra pode ser entendida como um tipo de espaço natural, que se apresenta em diferentes tipos de escalas. Assim, chamamos costumeiramente de terra um terreno, um lugar desconhecido e inexplorado, ou o planeta Terra. Neste trabalho, adotamos o termo terra utilizado por Zedeño (1997) para pensar o processo de formação de um território. Desta forma, deve ser entendida como um termo que abarca a noção espacial de uma área conhecida habitualmente, com seus elementos incorporados, onde se encontram os recursos da natureza e os objetos da ação Humana.
Território, por sua vez, pode ser entendido como a manifestação material da territorialidade humana. Para Zedeño (1997:72), território, enquanto objeto de análise arqueológica que totaliza o espaço de pertencimento de uma sociedade, pode ser definido pela presença e combinação de três materiais elementares: I) Terra; II) Recursos naturais e III) Vestígios da ocupação Humana.
Através desses elementos, o território é visto como sendo um conjunto de objeto
agregado, reunidos historicamente através de processos dinâmicos de interação sócio-
ambiental, que direcionam para três fatores de dimensões essenciais do território: I) A gama de interações do homem com a terra;
II) As escalas espaciais dessas interações; e
III) O processo histórico do uso da terra e dos recursos naturais.
Com esse modelo a pesquisadora almeja vislumbrar as trajetórias sociais de estabelecimento, manutenção e transformação pelas quais passa a história de formação dos territórios, revelando os processos de continuidades, mudanças e rupturas das populações que habitam e habitaram esses territórios. A variabilidade dos conjuntos de materiais arqueológicos e sua disposição espacial, portanto, está relacionada com as atividades levadas a cabo nestes locais, revelando a disposição das áreas de atividades, a funcionalidade dos sítios, a dinâmica dos processos de deposição dos materiais (SCHIFFER, 1972; BINFORD, 1983b, 1983c, 1983d, 1983e) e, ao mesmo tempo, revela o modo como os materiais deixados por um grupo podem ter sido apropriados – como objeto de uso ou objeto simbólico - pelos grupos herdeiros dessa paisagem (HODDER, 1992; ZEDEÑO, 1997; 2008; 2009; PANJA, 2004; STEWARD et al., 2004; CARROLL et al., 20004; ASHMORE, 2009).
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Sendo assim, a história de vida do território é o resultado da combinação da história natural da região e de seus recursos, com as diferentes histórias sociais do uso da terra e de seus recursos. O exame desses processos através dos vestígios deixados na paisagem permite ao arqueólogo identificar não apenas territórios em geral, mas também, específicas formas e estratégias de territorialidade. A partir dessa constatação, Zedeño (1997:86-95) elabora um modelo teórico – apropriando-se do “diagrama de fluxo” de Schiffer (1987:13) – das possíveis etapas e sub-etapas do ciclo de vida de um território, que visa subsidiar as análises sobre o processo de formação territorial em diferentes contextos históricos e culturais.
Para além da história de vida do território, nosso trabalho etnoarqueológico no quilombo Mandira pretende explorar a territorialidade dos Mandira para pensar como se constituiu o processo de formação de seu território. Para isso, partimos dessa perspectiva de território enquanto unidade espacial que abriga o escopo dos elementos que envolvem o comportamento humano em sua interação com a paisagem natural e arqueológica, buscando traços específicos do significado sócio-cultural destas duas dimensões da paisagem.
Estudos mostram que desde o passado remoto toda a região que hoje é o município de Cananéia, onde está localizado o território Mandira, foi ocupada por povos bastante distintos. Várias identidades e histórias se sucederam ou coexistiram neste território, formando um palimpsesto de ocupações, re-ocupações e abandonos territoriais que precisam ser estudados. Nosso objetivo, neste trabalho, é contribuir na recuperação da história dos Mandira em seu território.
Procurar explorar o modo como a população quilombola do Mandira reage à diversidade de vestígios arqueológicos presentes em seu ambiente habitado, implica diretamente no processo de formação do seu Território. Entender, a trajetória de formação territorial é crucial em contextos de pesquisa arqueológica em comunidades tradicionais (por exemplo, quilombolas, indígenas, caiçaras, caboclos), pois tal conhecimento é, muitas vezes, fundamental e estratégico para os direitos territoriais e a manutenção da autodeterminação dessas populações (FUNARI, 2008; SILVA, 2009).
“Em contextos territoriais ocupados por populações indígenas e quilombolas, a arqueologia pode desvendar as múltiplas ocupações e modos de vida que ali se sucederam e a mudança dos ambientes com o tempo. Neste sentido “a relação simbólica desses grupos com seus ambientes encontra, na pesquisa arqueológica,
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contrapontos e recursos para a sua re-interpretação da comunidade como entidade histórica” (FUNARI, 2008:3-4 apud SILVA, 2009:212).