3. Metode
3.3. Utvalg
Para Vygotsky (1930/2003), a “imaginação criadora” é uma atividade fundamental, base do espírito criador e da capacidade do homem de transformar o presente, pois permite a passagem do “concreto” ao “concreto novo”. O surgimento de imagens depende de um “coeficiente social”, ou seja, experiências, necessidades, interesses, desejos, meio ambiente, além de criações e descobertas anteriores. A criação não acontece por “geração espontânea”, o que aparece nas entrevistas. Uns do interior, sem nenhum acesso à arte e com muito preconceito familiar:
Eu nasci em Catanduva, cidadezinha pequena, no interior, sem nenhum acesso à arte, nada. Eu nunca tinha ido assistir a uma peça; cinema, poucas coisas eu via, não tinha vídeo, não tinha a quantidade de informação que a gente tem hoje, computador. Então eu convivi muito pouco com essa proximidade na arte, mas tinha um gosto grande [...] Fantasiar-me, dançar, brincar de atuar eram coisas que eu fazia comigo mesmo, não para outras pessoas. Tinha um preconceito muito grande. (ICb, grifos meus)
Outros, desde cedo consumidores de arte, assíduos freqüentadores de espetáculos, filhos de artista, ou cuja família ajudara financeiramente na construção do teatro; ou ainda freqüentaram escolas que tinham artes como conteúdo curricular básico.
[...] desde pequeno eu ia trabalhar com artes plásticas, porque meu pai é artista plástico [...] assistia tudo quanto era espetáculo de dança, porque minha mãe gostava de assistir e me levava pra assistir tudo [...] eu participei de performances com o meu pai com 2 anos. (ICe, grifos meus)
E o que é legal é que me incentivavam, mesmo porque minha mãe e meu pai se conheceram no teatro, de maneira mais afetiva. Meus avós paterno e materno ajudaram mesmo na construção do teatro, deram dinheiro. (ICd, grifos meus)
Mas o diálogo com o mundo e a possibilidade de um “corpo que cria” não se encerra na infância: “A vitalidade de um corpo vibrátil depende do ambiente que ele encontra ao longo da existência – e não apenas da infância, como sugerem algumas teorias” (ROLNIK, 2006, p.16). Aproximam-se do mundo artístico em fases diferentes da vida: sentiam-se “intrigados” e, talvez, instigados a mergulhos mais profundos.
[...] eu comecei a não ficar bem comigo: “tem alguma coisa e eu preciso ter essa coragem agora pra mudar”, mas também ainda não imaginava ser ator. [...] Aí a primeira coisa que eu fui fazer foi com a Fátima Toledo, uma diretora de atores [...]. Uma maneira de me aproximar desse mundo, porque eu não tinha nenhum canal pra me levar. Não tinha nenhum amigo, nenhum conhecido, nenhum parente, nada, ninguém que trabalhasse com arte. Então ainda era assim, inatingível. (ICb, grifo meu)
[...] eu já tava com 17 anos e acompanhei uma galera dessa turma que foi prestar EAD [...] era público, a galera apinhada, lotada, com o público e banca e você lá no meio. E aí eu fui e nesse teste eu fui fazer réplica pra um dos atores. E aí eu meio que me fascinei por aquele ambiente, a galera nos corredores, meio louca, falando texto, todo mundo se preparando pra fazer o teste. Eu fiquei bem intrigado. (ICc, grifos meus)
Quando eu tava no 1º grau, sexta série, eu descubro que a menina mais tímida da minha classe faz teatro. [...] eu descubro e aquilo me intriga e eu começo a me relacionar com ela e descubro que ela faz Casa de Cultura e aí a gente monta um grupinho na escola [...] E aí, na oitava série, minha irmã mais caretinha, mas super de brincar, começa a fazer teatro e fala pra mim “e eu fico mais intrigada ainda”. (ICg, grifos meus)
Hoje, olham para o passado e buscam em suas vidas situações que reconheçam em si (ou que os outros reconheciam neles) as características que hoje lhes parecem fundamentais para a arte que fazem: espírito livre, brincalhão, criativo, de “situações de presença de espírito”. Desde crianças, eram os palhaços da família, imitadores, viajantes em devaneios solitários pelos mundos da imaginação. A “não naturalização” existe na fala de um dos entrevistados, que, por um lado, não identifica em si essas características desde a infância e, ao mesmo tempo, reconhece que havia muito preconceito ao seu redor em relação à arte, à música, à dança... Para ele, libertar-se foi essencial para seguir o “caminho da arte”.
Minha mãe conta muito histórias de meus amiguinhos todos tinham aquelas roupas de super-homem, metralhadora de verdade, e eu não pedia. Tinha uma fantasia que eu adorava: eu colocava uma calça, uma cueca vermelha por cima, e aí eu desenhava com um batom um “S” com a marca do super homem e aí pegava um cabide e botava como um arco e flecha (no ombro) e aí eu tinha um toco que eu tinha feito que era o meu revólver; então quando todo mundo , os meus amigos, tinham mesmo as coisas, eu gostava de inventar, de criar e brincava muito sozinho. Muito isso, de imitar, o ‘palhaço da família’: “faz isso, faz aquilo, imita isso, imita aquilo” e eu tinha uns 5, 6 anos. Dá pra ver que aí já tava... (ICc, grifos meus)
Outra característica que buscam em suas histórias é um “espírito fortemente empreendedor” (“meninas super-poderosas”) e autônomo, com muita disciplina, dedicação e assertividade. Consideram essas características fundamentais para, hoje, suportar longos processos de pesquisa. Outra característica que relatam é a “abertura para várias coisas”, o ecletismo, uma apreciação por múltiplas técnicas e
“uma cabeça aberta” e muito gosto pelo novo. Em algum ponto da vida, descobrem o “prazer de se mostrar”, expor-se, fazer algo para serem vistos, que “movia as pessoas para o teatro”:
[...] eu me lembro que na época eu tava louca pra ir pras pontas – eu achava lindo - ir pros Festivais, que na época eram muito fortes em Três Rios, movia as pessoas, levava ao teatro [...] Todo final de ano, eram vários figurinos, roupas, a gente ficava feliz em poder dançar e compartilhar isso com a família. Era uma coisa que levava a comunidade para o teatro. (ICd, grifo meu)
Aí teve esse curso de artes plásticas, uma coisa de instalação e de performance [...] a gente fez uma coisa super legal no jardim; foi a primeira vez que eu lembro de ter consciência de fazer uma coisa em público [...] eu lembro que eu pensei sobre isso “é a primeira vez que eu faço algo na frente de outras pessoas que não eram do grupo”. (ICa, grifo meu)
Quase todos falam em “prazer pelo movimento”, “uma forte disponibilidade física” ou “ligação com o corpo”. Para a maior parte, manifestou-se na infância pelo esporte e só depois pela dança, com a descoberta do Contato Improvisação, pela possibilidade de uma dança mais livre, aberta a diferentes corpos. Ligação com o corpo que talvez os aproxime dos batráquios de Lygia Clark, cuja percepção sobre o mundo “veio através da barriga, vísceras e mãos” (CLARK apud LOUPPE, 2005, p.33), que vai se afinando com a educação somática.
[...] eu sempre gostei muito, desde criança, de me mover..., era uma loucura, eu sempre gostei de dançar em casa, fazer... Minha casa era toda marcada de pés porque eu escalava as paredes, fazia parada de mão, estrelinha. Então, uma coisa de prazer muito grande. (ICf, grifos meus) [...] sempre gostei de arte, e corpo e tal. E atletismo, também gostava do lance corporal, mas também era muito gordinha, atletismo também não dava... Aí, eu descobri a capoeira. (ICa, grifos meus)
Então, rapidamente, eu vi que eu gostava da consciência corporal. (ICe, grifo meu)