5 Metode
5.3 Utvalg
Enegrecendo o feminismo é a expressão que vimos utilizando para designar a
trajetória das mulheres negras no interior do movimento feminista brasileiro. (CARNEIRO, 2003, p. 118).
“Eu não sou uma mulher?” (Ain’t I a woman?) é o nome dado ao histórico discurso pronunciado por Sojourner Truth (1797-1883) na Women’s Convention (Convenção das Mulheres) em Ohio/EUA, em 1851. Nascida escrava no estado de Nova Iorque, Sojourner
Truth tornou-se conhecida pela sua luta em prol do fim da escravidão desde quando liberta, em 1827. Ao questionar as demandas do movimento feminista deste período, composto basicamente por mulheres brancas, seu discurso “demonstra muito bem o poder histórico de um sujeito político que desafia imperativos de subordinação e, por isso, cria novas visões”52. (BRAH; PHOENIX, 2015, p. 252). Como analisam Avtar Brah e Ann Phoenix (2015), em meados do século XIX, Sojourner Truth apontava para a importância do rompimento com a visão essencialista de gênero. Os essencialismos ocorrem quando as categorias sociais são tomadas como universais. Ao tomar o feminino como universal, se estabelece um modo único de ser mulher e uma demanda política que atenda a esse feminismo, desconsiderando as peculiaridades dos demais grupos, em especial os mais inferiorizados, como as mulheres negras. Em seu pronunciamento, Sojourner Truth mostrou seus braços fortes pelo trabalho pesado e a necessidade de ser vista também como uma mulher. Naquele momento, surge com suas palavras e gestos a demanda pela interseccionalidade, pelo enegrescimento do feminismo, pela possibilidade de olhar além dos marcadores identitários até então estabelecidos. Segundo Brah e Phoenix (2015, p. 253),
Este discurso inovador (em todos os sentidos do termo) desconstrói todos os principais clamores sobre gênero em uma formação social de escravos e patriarcado. De um modo mais geral, o discurso oferece uma crítica devastadora dos processos sociopolíticos, econômicos e culturais de ‘outridade’, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a importância simultânea da subjetividade - da dor e violência subjetivas que os causadores geralmente não desejam ouvir ou reconhecer.53
Não faltam exemplos para demostrar a importância feminina negra na história das sociedades marcadas pela experiência da escravidão. Embora pareça haver um consenso sobre a necessidade dos múltiplos olhares no que se refere à questão feminina, historicamente essa valorização é bastante recente. No Brasil, o movimento feminista se articula especialmente a partir da década de 1970. Dagmar E. Meyer (2013) mostra que a trajetória do feminismo é geralmente apresentada em duas ondas do movimento feminista: “A primeira onda aglutina- se, fundamentalmente, em torno do movimento sufragista” (MEYER, 2013, p. 13), e a segunda onda “inscreve-se nos anos 60 e 70 do século XX” (2013, p. 14) e “remete ao reconhecimento da necessidade de um investimento mais consistente em produção do
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Traduzido do original: “very well demonstrates the historical power of a political subject who challenges imperatives of subordination and thereby creates new visions”.
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Traduzido do original: “This cutting edge speech (in all senses of the term) deconstructs every single major truthclaim about gender in a patriarchal slave social formation. More generally, the discourse offers a devastating critique of socio-political, economic and cultural processes of ‘othering’ whilst drawing attention to the simultaneous importance of subjectivity - of subjective pain and violence that the inflictors do not often wish to hear about or acknowledge”.
conhecimento, [...] que tivesse como objetivo não só denunciar, mas, sobretudo, compreender e explicar a subordinação social e a invisibilidade política” (MEYER, 2013, p. 14) a que tinham sido submetidas as mulheres ao longo da história.
Desde então, a diversidade de perspectivas teóricas marcou os estudos feministas. De modo geral, os argumentos convergiram para o entendimento de que as características atribuídas ao feminino e ao masculino são produções históricas e culturais. (MEYER, 2013). Estavam criadas, assim, as condições de possibilidade para os estudos de gênero. De acordo com Meyer (2013, p. 17), “com o conceito de gênero pretendia-se romper a equação na qual a colagem de um determinado gênero a um sexo anatômico que seria ‘naturalmente’ correspondente resultava em diferenças inatas essenciais”. Para Butler (2003, p. 12), essa diversidade de arcabouços teóricos é importante, na medida em que “a complexidade do conceito de gênero exige um conjunto interdisciplinar e pós-disciplinar de discursos, com vistas a resistir à domesticação acadêmica dos estudos sobre o gênero ou dos estudos sobre as mulheres, e de radicalizar a noção de crítica feminista”.
No contexto de luta pela igualdade de direitos e de enfrentamento ao racismo, a participação das mulheres negras foi fundamental. Atuantes tanto no movimento negro quanto no movimento feminista, “as mulheres negras estabeleceram seu espaço próprio de luta [...], mas logo iriam contestar as ações e discursos desses dois organismos”. (NEPOMUCENO, 2013, p. 400). As reinvindicações se deram, basicamente, por uma agenda que contemplasse a questão racial nas lutas feministas e as questões de gênero no movimento negro. Enquanto movimento oriundo de classe média branca, as mulheres lutavam contra os padrões machistas que definiam a elas certos papéis, além de desejarem adquirir maior liberdade no âmbito social. Para as mulheres negras, a discriminação tinha outras facetas. No início do século XX, como descreve Bebel Nepomuceno (2013, p. 383), “ao contrário do prescrito para a mulher idealizada da época, as negras circulavam pelas ruas, marcando a seu modo presença no espaço público”. Muitas vezes, as únicas responsáveis pela renda familiar, “essas mulheres valeram-se dos trabalhos ligados à cozinha, à venda de salgados e doces nas ruas e à lavagem de roupas. Serviram também como empregadas domésticas”. (NEPOMUCENO, 2013, p. 386). Foi somente com a inserção das categorias sexo e cor/raça nas pesquisas oficiais, na década de 1990, que a situação da mulher negra brasileira se tornou visível. “O perfil retratado pelos indicadores foi o de mulheres ocupantes, maciçamente, de postos de trabalho mais vulneráveis, concentradas nas profissões tradicionalmente femininas e menos remuneradas, e sub-representadas em cargos de gestão, gerência ou planejamento”. (NEPOMUCENO, 2013, p. 388).
O feminismo negro teve início nos EUA (Black Feminist Moviment), como uma resposta ao Black Liberation Movement e ao Women’s Movement, ambos movimentos que não delegavam a necessária atenção às mulheres negras. Em 1973, foi criada a National Black Feminist Organization (NBFO), primeira organização americana de mulheres negras para discutir questões relacionadas à discriminação de gênero e étnico-racial54. No Brasil, registros históricos apontam a participação de mulheres negras desde a primeira fase do movimento negro. (DOMINGUES, 2007b). Tanto na Frente Negra Brasileira quanto no Teatro Experimental Negro – instituições de maior representatividade do movimento negro brasileiro nas décadas de 1930 e 1950, respectivamente – havia uma presença feminina atuante, desempenhando funções geralmente vinculadas à imprensa e à educação. (NEPOMUCENO, 2013). É na década de 1980, no entanto, que as ativistas “procuraram trilhar uma trajetória própria de autodeterminação política” (NEPOMUCENO, 2013, p. 400), formando diversas organizações feministas negras no país. A participação no III Congresso Feminista Latino- Americano, em 1985, teria sido um dos primeiros espaços de registro da expressão coletiva de mulheres negras. Desde aquele período, ativistas negras “são acusadas de fragmentar tanto a luta feminina quanto a luta contra a discriminação racial” (NEPOMUCENO, 2013, p. 400), mas não há dúvidas de que uma agência específica tem garantido maior visibilidade a esse grupo. Como afirma Butler (2003, p. 22), “a fragmentação no interior do feminismo e a oposição paradoxal ao feminismo – por parte de ‘mulheres’ que o feminismo afirma representar – sugerem os limites necessários da política de identidade”. Trajetórias como a de Lélia Gonzalez (1935-1994), intelectual negra que se destacou na política e foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado – MNU, em 1978, passam a ser foco de atenção por parte de estudiosos da temática e dos coletivos feministas.
Do ponto de vista conceitual, intelectuais do feminismo negro têm produzido novas formas de nomear determinados processos vivenciados pelas mulheres negras, ativistas ou não. Com a expressão enegrecer o feminismo, cunhada por Sueli Carneiro, as feministas negras chamam a atenção para “a identidade branca e ocidental da formulação clássica feminista, de um lado; e, de outro, [procuram] revelar a insuficiência teórica e prática política para integrar as diferentes expressões do feminino construídas em sociedades multirraciais e pluriculturais”. (CARNEIRO, 2003, p. 118). De acordo com Patricia Hill Collins (1990, p. 322), uma das maiores referências no pensamento feminista negro, “viver a vida como uma
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Informações disponíveis em: http://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio-feminista/quem-tem-medo-do- feminismo-negro-1920.html e http://www.mit.edu/activities/thistle/v9/9.01/6blackf.html. Acesso em: 7 mar. 2016.
mulher afro-americana é um pré-requisito necessário para produzir o pensamento feminista negro, porque no interior de comunidades de mulheres negras o pensamento é validado e produzido com referência a um determinado conjunto de condições históricas, materiais e epistemológicas”55. São exemplos destes espaços o Blogueiras Negras e o portal Geledés56.
Nesta articulação entre gênero e raça, outro termo importante para o campo do feminismo negro é a interseccionalidade. Para Kimberle Crenshaw (2002), a interseccionalidade é produtiva na medida em que visibiliza as questões que atravessam gênero e raça ou ainda outros marcadores identitários. Ao atuarem em conjunto, gênero e raça produzem formas múltiplas de discriminação sobre as mulheres negras. Uma vez compreendendo esses atravessamentos, abrem-se outras possibilidades de pesquisas. A partir de dados estatísticos que mapeiam as desigualdades e possibilita o governamento biopolítico da população negra, é possível verificar no cruzamento das categorias sexo e cor/raça que, na maior parte do mundo, as mulheres negras correspondem ao segmento mais excluído. Assim, a ideia de discriminação interseccional tem por objetivo “identificar mecanismos para que instituições trabalhem em conjunto para garantir que a discriminação racial que afeta mulheres e a discriminação de gênero que afeta mulheres negras sejam consideradas mutuamente e não de uma maneira excludente”. (CRENSHAW, 2002, p. 8). Para além da questão protetiva, o conceito é empregado como descrição de espaços específicos voltados às mulheres negras e também como chave de leitura para compreender temáticas que afetam diferentemente as mulheres negras, como violência, abuso sexual, entre outras.
Como veremos no decorrer das análises desta Tese, não há dúvidas de que o feminismo negro tem proporcionado a produção de novas subjetividades que alteram significativamente as formas de condução das mulheres negras contemporâneas. Ao descrever os resultados de sua pesquisa com/sobre mulheres, Alain Touraine (2007) mostra que as mulheres assumem, mais do nunca, posições de atrizes sociais. O autor observa uma mudança de perspectiva importante, que caracterizaria o pós-feminismo. “O mais importante não é que sua imagem de mulher se tenha transformado, se tornado mais positiva, mas que as mulheres passaram da consciência de objetos à consciência de sujeitos”. (TOURAINE, 2007, p. 43). Pela análise de Touraine (2007), vemos que a mudança está nos processos de subjetivação que constituem as mulheres como sujeitos sociais. No caso das mulheres negras que escrevem no BN, a capacidade de transformar-se a si mesmo, de criar outros modos de (re)existência se
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Traduzido do original: “Living life as an African American woman is a necessary prerequisite for producing Black feminist thought because within Black women’s communities thought is validated and produced to a reference set of historical, material, and epistemological conditions”.
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reflete tanto na dimensão individual quanto coletiva, impactando os movimentos sociais em que estão engajadas.
Muitas feministas negras concordam que os movimentos sociais mais amplos, como o negro e o feminista, tende a excluir as mulheres negras. Por isso, é necessário que sejam criados espaços específicos para que haja visibilidade e oportunidade de livre manifestação destes indivíduos. Para além das reinvindicações que estão no bojo do feminismo negro, intelectuais negras estão contribuindo para consolidar um campo de pensamento específico. Como Collins (1988) sugere, o Black Feminist Thought é uma corrente de pensamento elaborada por mulheres negras e voltada para mulheres negras, com vistas a interpelar um número cada vez maior de ativistas. Esse é um modo também de garantir o protagonismo intelectual das pesquisadoras negras, já que muito de sua produção tem efeitos diretos nos coletivos feministas negros. É por essa razão que o feminismo negro tem sido um campo fundamental para o fortalecimento da negritude. As produções autobiográficas das mulheres negras e a ampliação de sua presença nos mais diferentes espaços permitiu que a negritude fosse pensada como uma matriz de experiência, que produz subjetividades através da articulação dos eixos do saber, do poder/governo e da ética, como procurei mostrar ao longo do capítulo. É nesse processo que as questões de gênero abordadas por Touraine (2007) vão ao encontro da produtividade das narrativas elaboradas e publicadas pelas mulheres negras no BN. Por meio dos relatos de como vivenciaram as experiências de tornarem-se negras, “essas mulheres dão um sentido muito preciso aos objetivos que procuram alcançar: a construção de si mesmas”. (TOURAINE, 2007, p. 44).
Diversas questões apresentadas nesta seção serão retomadas ao longo dos capítulos de análise, na medida em que as mulheres negras descrevem a importância do feminismo negro em suas narrativas autobiográficas. Conforme argumenta Meyer (2013, p. 21), “quando nos dispomos a discutir a produção de diferenças e de desigualdades de gênero [...], também estamos fazendo uma análise de processos sociais mais amplos que marcam e discriminam sujeitos como diferentes”. Se por um lado, as feministas negras ainda correspondem a uma pequena parcela da população afrodescendente, por outro lado a atuação dessas atrizes sociais (TOURAINE, 2007) contribui para a produção de novos modos de ser sujeito negro, especialmente por meio da educação. Tais processos, assim, merecem ser observados, descritos e analisados, quanto mais se o intuito é contribuir para pensar de outro modo a educação das relações étnico-raciais brasileiras.
No próximo capítulo, apresento os modos de olhar para as narrativas autográficas das mulheres negras que guiaram esta pesquisa. Além da descrição dos passos metodológicos no
trabalho com os materiais, discuto as questões éticas que estão implicadas na investigação e as ferramentas teórico-metodológicas que escolhi para produzir as análises da Tese.
3 DOS MODOS DE OLHAR: METODOLOGIA
São os olhares que colocamos sobre as coisas que criam os problemas do mundo. (VEIGA-NETO, 2002, p. 30).
Inicio este capítulo metodológico com uma epígrafe de Veiga-Neto (2002), pois entendo que o autor nos ajuda a compreender a importância do olhar no direcionamento das pesquisas que realizamos. Não só a metáfora do olhar, mas também as metáforas das lentes têm servido como orientação importante para a realização de nossas investigações na linha de pesquisa Formação de Professores, Currículo e Práticas Pedagógicas. Os óculos que utilizamos para olhar e ver o mundo, para compreender as práticas que nos constituem como seres humanos, têm relação direta com a perspectiva teórica a que nos filiamos. De acordo com Marlucy Alves Paraíso (2014, p. 26), “o modo como fazemos nossas pesquisas vai depender dos questionamentos que fazemos, das interrogações que nos movem e dos problemas que formulamos”. As metáforas do olhar e dos óculos, deste modo, contribuem para o entendimento de que há muitas formas de fazer pesquisa, há diversos modos possíveis de analisar os mesmos materiais. Não existe um modo mais correto de análise ou de tratamento de dados, mas quando se trata de produção de conhecimento há um conjunto de cuidados que devem ser tomados ao longo da pesquisa, pois são estes pressupostos que direcionam nossas análises e garantem a confiabilidade dos resultados.
Esta investigação teve como inspiração a perspectiva pós-estruturalista e os estudos desenvolvidos por Michel Foucault. Como explicita Veiga-Neto (2002, p. 33, grifos do autor), “para Foucault, são os elementos visíveis – formações não-discursivas – e os elementos enunciáveis – formações discursivas – que farão do mundo isso que parece ser para nós”. Isso quer dizer que não há nada por detrás de uma suposta realidade, nem uma ideologia que possa ancorar nossas análises. “Consideramos que a ‘realidade’ se constrói dentro de tramas discursivas que nossa pesquisa procura mostrar”. (PARAÍSO, 2014, p. 30, grifo da autora). Procurar desvencilhar-se pelas ideologias não significa assumir uma suposta neutralidade. É justamente o nosso comprometimento com o tema que nos propomos a pesquisar que nos mobiliza a problematizar o conhecido e ir em busca da compreensão daquelas discursividades que constituem novas e/ou diferentes formas de ser e de estar no mundo. Assim como nossa escrita, o olhar é político. É através do olhar que colocamos sobre as problemáticas que são importantes para nós que os problemas de pesquisas são constituídos.
Como descrevi na introdução desta Tese, a problemática central da pesquisa foi construída ao longo de alguns anos de estudo sobre a constituição do sujeito negro e a
temática da ERER. Compreender os processos de subjetivação que constituem os sujeitos de uma negritude tornou-se uma questão importante para a continuidade de minhas investigações, no desejo de pensar em como estas subjetividades contribuiriam com o campo da educação das relações étnico-raciais. Foi com esse direcionamento que o blog Blogueiras Negras me pareceu, desde o primeiro contato, um espaço produtivo para responder a esta problemática. A construção da pesquisa mostra que os problemas não “estão aí, soltos no mundo, à espera de qualquer teoria para serem resolvidos”. (VEIGA-NETO, 2007, p. 19). “É preciso uma teorização – ou, pelo menos, uma visão de mundo – na qual, ou a partir da qual, se estabelece aquilo que chamamos de problemas (a serem pesquisados ou resolvidos)”. (VEIGA-NETO, 2007, p. 20). Na medida em que fui trabalhando com as narrativas das mulheres negras, a pesquisa foi ganhando contornos distintos daqueles previamente pensados. O olhar intenso para os materiais, comprometido ao mesmo tempo com a perspectiva que orienta a pesquisa e com as demandas políticas deste grupo, fez com que fossem produzidas algumas questões que se desdobram da problemática central da pesquisa e focalizam nas narrativas autobiográficas. São elas:
a. Que processo(s) de subjetivação é/são produzido(s) e colocado(s) em operação nas narrativas autobiográficas de mulheres negras que publicam no BN?
b. Quais os efeitos dessa(s) subjetividade(s) para as relações raciais brasileiras? c. Como a compreensão deste(s) processo(s) de subjetivação pode contribuir para pensar a Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER)?
Este capítulo é composto por três seções. Na primeira seção, apresento o blog em estudo e discuto algumas questões centrais para a pesquisa com comunidades virtuais. Em seguida, descrevo como realizei a seleção dos materiais, o escrutínio e a categorização dos textos que compõem o corpus analítico, além de apresentar quem são as mulheres negras autoras das narrativas em análise. Na segunda seção, discuto as implicações éticas que atravessam esta investigação. O acesso aos textos produzidos em uma comunidade exclusiva para mulheres negras implicou em um questionamento constante sobre a realização de pesquisas com narrativas de sujeitos que vivenciam experiências distintas, especialmente quando se trata das relações raciais. O posicionamento ético-racial do pesquisador e o modo de entrada na comunidade virtual implicam em potencialidades e limitações da pesquisa, que serão também discutidas nesta seção. Por último, a terceira seção apresenta alguns pressupostos metodológicos da pesquisa com narrativas e as ferramentas escolhidas para a análise dos textos autobiográficos. Discurso e escrita de si são noções conceituais
desenvolvidas por Foucault que direcionam meu olhar analítico sobre os textos das mulheres negras.
No desejo de que as discussões metodológicas construídas aqui permitam ao(a) leitor(a) compreender como esta pesquisa foi realizada, mas também que permitam refletir nas implicações teóricas e éticas que orientam as nossas investigações, faço uso das palavras de Meyer e Paraíso (2014), que destacam a dimensão pedagógica das metodologias de pesquisa:
Uma metodologia de pesquisa é sempre pedagógica porque se refere a um
como fazer, como fazemos ou como faço minha pesquisa. Trata-se de
caminhos a percorrer, de percursos a trilhar, de trajetos a realizar, de formas que sempre têm por base um conteúdo, uma perspectiva ou uma teoria. Pode se referir a formas mais ou menos rígidas de proceder ao realizar uma pesquisa, mas sempre se refere a um como fazer. Uma metodologia de pesquisa é pedagógica, portanto, porque se trata de uma condução: como conduzo ou conduzimos nossa pesquisa. (MEYER, PARAÍSO, 2014, p. 17, grifos das autoras).