• No results found

Porque o cozinhar não é você fazer o almoço, o arroz e o feijão e jogar lá na mesa de qualquer jeito. Na minha casa eu faço arrumadinho, eu gosto de colocar um prato bonito na mesa. Natal, Ano Novo, eu faço questão. Márcia Pude verificar, ao estudar o domicilio e a realização do trabalho doméstico, que os modos de alimentar e os modos de cozinhar aparecem nas experiências das entrevistadas com destaque, articulando dimensões de suas memórias, e sua discussão contribui para fazer emergir lembranças e sentimentos sobre suas vidas: a infância, as festas, as crenças. As entrevistadas têm forte ligação com a cozinha e as práticas culinárias, pois são donas-de-casa, patroas ou trabalhadoras domésticas, que cozinhavam/cozinham ou orientavam/orientam sua realização quotidianamente. Discutiremos as transformações nos modos de cozinhar e na alimentação neste capítulo, buscando perceber as transformações no domicílio, entrando pela porta da cozinha.

A cozinha mineira tem sido objeto de diversos estudos, que buscam compreender a associação entre cozinha e a construção da imagem do mineiro. Ainda que nossas preocupações não centrem na discussão da mineiridade, esses estudos trazem importantes contribuições para a compreensão da alimentação e da cozinha nas regiões do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, local em que nos detivemos a estudar, pelos relatos de mulheres que vivem atualmente em Uberlândia e Monte Carmelo. Entre os estudos sobre o tema, destaco os da professora Mônica Chaves Abdala “Receita de mineiridade: a cozinha e a construção do Mineiro” (1997) e sua tese de doutorado “Mesas de Minas: as famílias vão ao self-service”(2002).33 Para a autora “a cozinha mineira não é apenas um conjunto de hábitos alimentares, mas espaço privilegiado de convívio e relações sociais” (ABDALA, 1997: 15).

Busco compreender de que maneira as mulheres que entrevistamos percebem a cozinha e o cozinhar, os processos de alteração e permanência nas práticas alimentares e nos seus modos de fazer, no contexto de uma sociedade que se modifica. Os significados atribuídos à alimentação e ao cozinhar, e de como essas práticas (cozinhar/comer) expressam

modos de convivências e relações sociais. Além disso, seguimos as pistas encontradas nos

jornais que falam sobre a cozinha e o cozinhar.

33 ABDALA, Mônica Chaves. Receita de mineiridade: a cozinha e a construção do Mineiro. Uberlândia:

Edufu: 1997; ABDALA, Mônica Chaves. Mesas de Minas: as famílias vão ao self-service. São Paulo: Programa de Pós Graduação em Sociologia da USP, 2002 (Tese de Doutorado).

Ao analisar as transformações e permanências no trabalho doméstico, especialmente o cozinhar, levamos em conta: a relação passado e presente, as diferenças culturais, econômicas, regionais, étnicos, etc. Além disso, é necessário considerar como o uso de determinados equipamentos como, por exemplo, a geladeira, insere-se e se relaciona com formas anteriores de conservação dos alimentos; bem como a diferença entre as práticas alimentares e os modos de cozinhar na roça, nas pequenas cidades e em cidades maiores e a influência dos meios de comunicação, da ampliação do acesso aos meios de transporte e dos processos migratórios nas práticas alimentares.

É importante ressaltar que desigualdades econômicas, regionais, etc., associadas a valores e crenças, contribuem para que práticas consideradas antigas sejam mantidas. O estudo nos mostrou nitidamente a existência de múltiplas temporalidades, marcadas por diferenças, desigualdades e escolhas e que, se existe um modo dominante de cozinhar, comer, existem outras práticas que remetem à cultura, à história e à tradição. Com isso buscamos fugir das generalizações, simplificadoras da realidade social, que apontam modos uniformes de viver e no caso, cozinhar e comer.34

Trabalhamos aqui alguns aspectos das experiências das entrevistadas presentes nas lembranças do passado das mulheres de origem rural que influenciam no modo como cozinham e concebem o cozinhar e a alimentação hoje. Algumas práticas se perderam no tempo, outras foram atualizadas, mantidas, reinventadas. Interessa-nos, portanto, mostrar esse processo de construção de novas práticas alimentares e modos de cozinhar, e de como se dão essas mudanças nas experiências estudadas.

Ao analisar as referências à cozinha e à alimentação nas falas das entrevistadas observamos que a questão de maior ou menor experiência com a vida rural criou diferenciações importantes em seus relatos. No que se refere aos modos de cozinhar e alimentar suas famílias, notamos semelhanças entre as experiências contadas por D. Francisca (Sacramento), Claudiana (Monte Alegre), Terezinha (Estrela do Sul), Ordália (Canápolis), Oneida (Monte Carmelo) e Dona Nice (Salinas), oriundas da zona rural de municípios do Estado de Minas Gerais (as primeiras do Triângulo Mineiro e Dona Nice do Norte de Minas). É preciso ressaltar que a experiência de Dona Conceição, nascida no sertão do Ceará, traz uma peculiaridade, pois mesmo tendo nascido na roça e lá ficado parte da infância, o que ressaltou em seu depoimento a distancia das experiências das outras mulheres acima citadas, que viveram infância, juventude e até mesmo parte da vida adulta na roça. Outra observação é

34 A compreensão da existência de múltiplas temporalidades é importante para fugirmos da linearidade e não

que, nesse item, estamos tratando de experiências de mulheres que viveram na roça a infância (algumas, parte da juventude e vida adulta) e cozinhavam para suas famílias. A exceção é Terezinha que cozinhou na roça como doméstica.

Sabemos que cozinhar não consiste apenas na preparação dos alimentos, e sim em conjunto de atividades que se combinam para que o alimento possa estar pronto para ser consumido. A preparação dos alimentos e as outras tarefas que a ela se associam são variáveis no tempo, no espaço, nas culturas. Nas experiências das mulheres de origem rural cozinhar era uma atividade complexa e exigente, articulada com a produção dos alimentos, não se limitando à transformação dos alimentos crus em refeições, mas em geral, trabalhar na produção desse alimento e depois prepará-lo. Sobre a experiência de viver na roça e suas atividades, são muitas as lembranças dessas mulheres, expressivas das transformações e permanências na vida doméstica nas últimas décadas. É que Dona Francisca evidencia em sua fala:

A água era bica. Lavava na bica. Outra coisa, limpava o arroz pra semana, às vezes nós partia, semana era minha irmã, partia a semana, outra semana era minha, outra semana era dela e aí nóis ia limpá o arroz pra semana, o café, a minha mãe torrava não deixava nóis torra não. Torrá, moía aquela latada de café. Meus meninos também, tadinho, pus eles limpá, chegava da escola, estudá às vezes três léguas de a pé, duas léguas, né? Légua e meia, três de cá pra, chegava, tadinho, ainda punha eles mexê com algodão (Dona Francisca). Nessa fala, a entrevistada faz referência aos vários tempos de sua vida e às exigências do trabalho doméstico para a alimentação de sua família. No primeiro momento ela, já casada, alternava com a irmã a tarefa de limpar o arroz para a semana. Numa semana ela ia para o pilão limpar o arroz, ou seja, retirar a casca do mesmo, na semana seguinte era sua irmã. Essa tarefa era pesada e não muito rápida, advindo daí, certamente, a alternância das duas na realização da mesma. Essa divisão reflete ainda o caráter comunitário da vida que vivia que, no dizer de Dona Francisca, era um tempo bom porque estavam todos juntos: “... eu acho melhor naquele tempo sabe, por quê? A gente tava junto com os pais da gente, irmão a irmandade tudo junto”.35 Depois, ela volta ao tempo de criança, quando a mãe distribuía as

tarefas domésticas: torrar o café era tarefa da mãe, pois a atividade era mais perigosa. Ela e as irmãs moíam. Ao final, ela articula essa experiência na infância com a experiência como mãe, como nos referimos no capítulo anterior.

35 Nessa fala Dona Francisca nos remete à sua experiência como velha, uma vez que não é mais possível estar

Os relatos nos falam dos modos de viver no meio rural na década de 1950: agricultura de subsistência, alimentação dependente da produção familiar. A vida na roça é lembrada como sendo dura, a sobrevivência dependia do trabalho de sol-a-sol, sem descanso. Apesar do trabalho ser duro, o tempo do trabalho não aparece separado da vida e é determinado pela família. Quando necessário se gasta, por exemplo, um dia todo para a compra de bens essenciais que não são produzidos na fazenda. 36

Ah, a gente plantava tudo né? Feijão, arroz. Criava gado, criava porco. Meu pai vendia porco gordo, depois que engordava ele vendia. Vendia gado, era muito bom naquela

época. A gente criava galinha, não precisava comprar nada assim, também não tinha cidade

perto que tinha essas coisas, verdura. Não tinha, por exemplo um açougue pra gente ir comprar, não tinha uma mercearia, não tinha nada. Então tinha que vim de longe. Comprar os sacos, né? Às vezes meu pai comprava os sacos de açúcar, sacos de sal, que era os que mais precisava porque o arroz, o feijão a gente tirava da lavoura. E o, as outras coisas tinha que comprar, tinha que ir longe pra pegar e não tinha mercearia por perto. Era bem distante. A cidade mais próxima era Janaúba. Era 70 kms, hoje é bem mais fácil porque é o asfalto. Mas naquela época era chão, estrada de terra. Então era um dia todinho pra ir lá buscar um, ia de carro de boi. Era o dia todinho pra ir buscar uma coisa lá e voltar, né? Ia cedo e voltava de noite. Às vezes nem voltava no mesmo dia, tinha que ficar lá e voltar (Dona Nice). Ao recordar o tempo na infância e juventude, quando morava na roça com os pais e os irmãos, Dona Nice começa falando de como esse tempo foi difícil: o trabalho duro na roça, as plantações, a distância do centro comercial. Depois fala que plantavam tudo, e começa a pensar que esse era um tempo bom. A mudança de visão em relação ao tempo passado se modifica no momento em que se lembra que não era preciso comprar nada. O passado na roça é lembrado como tempo de dificuldades, de grandes labutas, mas também de fartura, de vida comunitária.

Os depoimentos nos apontam a complexidade da atividade de manter as pessoas que moram em uma mesma residência alimentadas. Na experiência das mulheres que viveram nos anos 1950, 1960 e 1970 na zona rural, a atividade envolvia um conjunto complexo de atividades como o transporte da água da bica, ou do córrego, para lavar louças e cozinhar; a busca da madeira (combustível do fogão à lenha), o manuseio de utensílios como o pilão para tirar a casca do arroz e do café, etc.:

Naquela época tinha que fazer comida pra até 30 pião sozinha lá. E tinha que socar arroz na mão. A época mais difícil de criança que eu lembro, foi que eu dei malária e tinha que socar

arroz na mão pra cozinhar pros pião, então essa época foi penosa. Tinha que socar arroz

todinho na mão, buscar água lá longe, era buscar água na mina ou fazer com a água do rego.

36 Essa noção do tempo do trabalho não separado da vida é inspirada nos estudos de E. P. Thompson, em sua

Mas lá dava lesma demais. Aí com quatorze anos minha mãe morreu, aí depois minhas irmãs saiu, aí eu fiquei cozinhando pros pião até 16 anos (Claudiana).

Um aspecto que algumas depoentes ressaltaram é o trabalho que faziam cozinhando para “companheiros” ou “peões”, como vimos acima nas falas de Claudiana e Dona Francisca. Trata-se de importante atividade de manutenção das pessoas que trabalhavam na lavoura, especialmente em momentos como a colheita. No caso de Claudiana a assunção dessa responsabilidade veio com a morte de sua mãe, quando ela tinha quatorze anos.

Além de cozinhar para todos – almoço e jantar –, ela se refere a outras atividades: feitura das quitandas e doces e o transporte da comida até onde estavam os trabalhadores e trabalhadoras, como nos lembra Dona Nice, acerca da merenda:

Ah, nessa merenda tinha de tudo. Cada dia variava, tinha que levar porque as pessoas trabalhava assim, tinha que comer alguma coisa... Então, a minha mãe fazia, ela fazia queijo do leite, ela fazia biscoito, fazia pão de queijo, né? Tudo tirado, o polvilho era tirado da mandioca que a gente plantava. A farinha. Aí ela fazia o biscoito do polvilho que tirava da mandioca e fazia a merenda. Outra hora, não tinha o polvilho, era bolo, bolo de fubá de milho. A gente pegava o milho, botava pra, pisava o milho, tirava aquele farelo e depois pegava o milho, botava dentro da água, deixava amulecer de um dia pra outro. Aí pisava no pilão, tudo era a gente que pisava. Pisava no pilão, aquela mão de pilão você conhece, né? (Dona Nice).

A merenda precisava ser mais forte, para que os (as) trabalhadores(as) pudessem agüentar a lida na roça. Assim, Dona Nice se lembra dos biscoitos, bolos, pão de queijo, entre outras quitandas que eram preparadas para a merenda.

A vida rural, baseada na produção de subsistência, caracterizava-se pelo aproveitamento de todos os recursos disponíveis, comprando somente o que não era produzido pelo grupo (família e agregados). Tudo articulado: a criação dos porcos com o tipo de comida e o porco que dava carne, banha, sabão, as sobras das comidas que viravam comida de animais domésticos:

Era fazê, farinha, fazê polvilho, era às vezes fazê um queijinho. Era... costura, fazê sabão, matava porco lá, tinha aqueles torresmo que dava pra fazê sabão (Dona Francisca).

Além das tarefas domésticas, na experiência de Dona Francisca é preciso também acumular tarefas, que na visão dela era de homens:

toda vida morei na fazenda (incompleto) a luta era pesada, era...o pai não tinha filho homem, a gente trabalhava era fazendo farinha, polvilho, era ajudando ele nas roças . De tudo, mexer com engenho carreagem, tudo menina! Era serviço que agente fazia. Nas horas

vagas, vinha pra dentro e aí cardá, ia fiar, né? Lá cardar, ia fiá, né, aí casei com 18 anos, na mesma semana fui cozinhar panelada de carne pra companheiro (Dona Francisca, grifos nossos).

Observamos que nas fazendas eram produzidos quase todos os alimentos utilizados pelas depoentes. Esses precisavam ser transformados, como o leite do qual era fabricado queijo, requeijão e manteiga, e também utilizado em larga escala nas quitandas. Da plantação de mandioca vinha a base para vários alimentos: a própria mandioca cozida ou frita, a farinha de mandioca e o polvilho, que constituía o principal cereal nas quitandas como pão de queijo, biscoito, sequilhos, entre outros. O café in natura era seco, torrado e moído. O arroz após colhido era pilado. Pelo modo como era colhido o arroz e feijão demandava grande trabalho para separá-los das pedras e da própria casca.

Todas essas tarefas impunham às donas de casa entrevistadas longas jornadas de trabalho:

Levantava, a primeira coisa era levantá e ia já fazê um café, despachá eles pra, pro serviço, às vezes nem o café eles num bebia ia pra fazenda lá, ali... Nóis morava na fazenda do José Malaquias, ele arrendou umas terra lá dele, nóis morava lá, já ia pra lá , tirá o leite, aí já deixava às vezes, fazia um pouco lá no, era duas vaca só. Eu deixava lá no pro fazendeiro também um pouco, levava pra casa. E a gente ferver o leite, já ia ajeitá já, arrumá um almoço, o almoço tinha que saí nove horas, quando muito nove horas (incomp) janta, duas, três horas da tarde. Agora, à noite tinha que fazê outra janta. A vida da gente era luta em cada dia, sofreu também, esse aí(Dona Francisca).

Ao comparar o trabalho doméstico, especialmente o cozinhar, no presente e passado, Dona Francisca diz o seguinte:

o arroz já vem limpo, o café, o feijão quase que num, você compra ele mas quase que, num precisa catá, tem muita pouquinha pedra, não é? Mas primeiro na... podia, porque tinha meu pai podia lá a gente batia, então vinha pedra, a gente que catava aquele feijão pra semana inteirinha.

Tinha um quintal e tinha muita laranja, mexerica, então, e a gente lutava, deitava na canseira e achava a vida boa, né? Agora, hoje, o pessoal tem tudo ainda reclama da vida dele (Dona Francisca).

Dona Francisca mostra com riqueza de detalhes os desafios que ela, como menina, e depois como dona de casa, enfrentava para cozinhar para sua família. Para ela o “pessoal de hoje” tem tudo mais fácil do que ela tinha. O pessoal de “antigamente” tinha mais coragem para o trabalho em sua visão. Entre as facilidades está o fato do arroz, feijão, café, já virem prontos para serem preparados.

Observamos que o processo de industrialização tornou mais fácil a preparação de certos alimentos. É preciso apontar também que essas alterações nesse modo de vida, que tem na casa e na cozinha o centro produtor dos alimentos, retirou da dona de casa e suas famílias a autonomia em relação ao mercado. Ao longo das décadas, vamos acompanhando a perda da importância do quintal que “tinha muita laranja, mexerica” e quase tudo que era consumido e que, mesmo nas cidades, ainda mantinham sua importância, e a crescente dependência das donas de casa e suas famílias do mercado, do dinheiro.

Como mostrou Dona Francisca, até o sabão era feito em casa. Além disso, compunha esse saber-fazer como donas de casa, o costurar. Como a preocupação maior era com a necessidade, a roupa poderia ser feita de saco de açúcar, como ela nos relata:

Aí, eu desmanchei dois sacos de açúcar e cortei e fiz uma camisa normal na mão pra ele, ficou uma gola torta pra quê outra pra lá. Mas ele vestiu disse que tava bão. Aí deu quando eu tive o pai dela aí oh. Eu cortei minhas roupas de casamento, meu, minha combinação, cortei a berada da minha combinação, fiz roupinha pra ele na mão, sabe. Mas ficou bonitinha mesmo, na mão e por aí eu fui, com fé em Deus eu fui. Eu já costurei muito pra ele aqui, já costurei pros outros, tudo. Mas sem ter orientação. Só a orientação de Deus. Eu tinha muita fé, né. Hoje eu sempre falo, a pessoa que tiver força de vontade ele vai, ele vence, não é (Dona Francisca).

Sem ter feito curso e material, Dona Francisca improvisava roupa para o marido e filhos. Diante das dificuldades, roupas são costuradas à mão, peças são desmanchadas e refeitas, atendendo às necessidades do momento.

O costurar não se diferenciava muito das outras atribuições das mulheres no passado, compondo um conjunto de saberes necessários ao trabalho doméstico, seja como dona de casa, seja como trabalhadora doméstica.

Lembrando sua vida na roça, Claudiana lembra das exigências do trabalho, mas enfatiza a liberdade como fator importante:

tinha liberdade, que morar na roça é uma liberdade total. Além da gente fazer a comida pros pião, fazia normal igual faz hoje, punha na vasilha ia levar na roça, aí brincava ainda, ia tomar banho no corgo, voltava, fazia a janta, ia brincar mais. Eu lembro como hoje como que até essa idade a gente era criança de tudo ainda. A gente matava frango, jogava aquelas parte magra tudo fora, fazia sá a parte do meio (riso). Era interessante, a gente era muito livre, não vejo assim aquele compromisso. A gente fazia comida a tempo e a hora, que meu pai era muito bravo, se atrasasse era cascudo na certa. Mas aí, ai credo... eu não gosto nem de lembrar, eu lembro uma vez eu fui pô o feijão cozinhar, fiquei com preguiça de buscar água na mina, que a gente tinha que buscar água na mina longe, e eu falei: ´Não vou buscar água na mina não, eu vou fazer é com essa água do rego mesmo. No outro dia quando eu levantei tinha tanta lesma (riso), joguei fora as lesma e fiz pros pião (ri bastante). Ai, meu

Deus do céu, era menina de tudo, não tinha idéia não. Tadinha, mas menina de tudo (Claudiana).

Ao analisar as entrevistas, notamos que a cozinha e o cozinhar são uma das atividades mais exigentes que as entrevistadas desempenharam nesse período, e a garantia da alimentação de todos ditava o ritmo de trabalho delas. O tempo da cozinha parece ser definidor dos ritmos de trabalho das mulheres no passado, baseado nas necessidades do grupo familiar e agregados a que tinham que atender.

Cozinhar em Uberlândia tem semelhanças e diferenças com as experiências rurais narradas por nossas entrevistadas, expostas anteriormente. Os desafios das donas de casa e trabalhadoras domésticas são muitos, como na zona rural, mas vão se alterando paulatinamente desde o início do século XX. O que estamos dizendo é que o processo de urbanização e o desenvolvimento dos serviços de infra-estrutura marcam os relatos das