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3.3 Rettspraksis

3.3.1 HR-2016-1440-A – «Håheller»

Diferentemente dos adaptadores anteriores, Fábio Bortolazzo Pinto (1974) é um autor com uma biografia desconhecida e com uma escassa produção literária, e não apenas por ser de longe o mais jovem, mas por ter assinado somente uma obra além de sua adaptação do Quixote.

No catálogo da L&PM encontramos seu nome como autor de sete paratextos119, e fomos

alertados por ele sobre uma tradução intralinguística do livro de Aluísio de Azevedo, O cortiço (1998), informação omitida no site da editora, denotando uma perversa estratégia editorial.

Bortolazzo Pinto é a exceção da regra que estávamos encontrando até agora relativa à fama, à grife do adaptador, e por seu próprio relato, recolhido em nossa entrevista, podemos dizer que essa sua produção foi algo praticamente acidental. Aqui não há dúvida quanto à autoridade da agência, completamente concentrada na editora e os responsáveis por suas decisões editoriais, sendo este autor, mais ainda que Rios, exclusivamente relegado ao papel de um profissional contratado para transformar um clássico em um produto com um público definido. Nesse caso, o autor nem poderia ser chamado de profissional, pois além de não ter

117 “Combinamos um bom texto com uma boa ilustração e boa seriedade gráfica. Criou-se um lastro. Foram nove

reimpressões de 3.000 exemplares e duas edições de 10.000 cada uma. E acabou de ser vendido para um programa [do governo] de Pernambuco.”

118 “Eu acredito que todos os protagonistas deveriam ganhar direito autoral, mesmo que não adaptem uma obra,

quando traduzem também. É importantíssimo que se pague copyright, até mesmo para os ilustradores.”

119 De Eça de Queiroz: A correspondência de Fradique Mendes (1997); A cidade e as serras (1998); O primo

Basílio (1998); O mandarim (1999); A ilustre casa de Ramires (1999), e de Joaquim Manuel de Macedo: A moreninha (1997), A carteira de meu tio (2001).

títulos de sua autoria, nunca havia feito, nem voltou a fazer, uma adaptação ou tradução de um livro estrangeiro.

Para melhor entender como uma das obras mais famosas de nossa cultura foi parar nas mãos de um inexperiente jovem das Letras, dispomos agora de uma longa entrevista com o autor, feita primeiro por e-mail, completada por telefone e transcrita aqui em trechos (ver Anexo A para texto integral).

Fábio Bortolazzo Pinto nasceu em Santa Maria, local onde viveu até transferir sua matrícula para a faculdade de Letras da UFRGS em 1997. Graduou-se em Letras (Português e Literatura) em 2003 e logo ingressou no mestrado, coincidentemente estudando um tradutor do

Quixote, Carlos Sussekind120. Segundo ele mesmo, nesse período também se casou, teve um

filho em 2007 e alternou seu endereço entre sua cidade natal e a capital do estado: “Foi durante a escrita da dissertação, e em meio ao fim do meu casamento e à falta de emprego, que fiz a adaptação do Quixote. Era um momento de turbulência, como você pode imaginar”. Hoje vive como educador e nos declarou amor por seu trabalho121.

Assim como muitos dos responsáveis por nossas traduções integrais do Quixote, e alguns dos adaptadores vistos aqui neste capítulo, Pinto nunca apreendeu formalmente idiomas estrangeiros, seu conhecimento de espanhol foi através da própria literatura e pela proximidade geográfica com nossos vizinhos122. Apenas esse detalhe já nos fornece um rico campo de

estudos, sugerindo pesquisas procedentes, como a competência tradutória de indivíduos autodidatas que traduzem de línguas que aprenderam lendo e comparando através de análise descritiva de suas reescrituras, dentro do conceito dos estudos descritos da tradução – DTS.

Com sua adaptação do Quixote, Bortolazzo Pinto foi remunerado como em geral é feito – injustamente, diga-se de passagem – com os tradutores: assinando um contrato no qual abriu mão de seus direitos como autor, não se beneficiando com as constantes reimpressões das obras

120 Carlos Sussekind traduziu a adaptação de Will Eisner para HQ (Cobelo, 2011). Pinto conheceu o escritor, e o

descreve: “‘um quixotesco’ (idealista, sonhador, um espírito de outro tempo – ou atemporal)” (aspas e parênteses do entrevistado).

121 Lecionou no Colégio Província de São Pedro e Concórdia, no Curso Pré-Vestibular Matéria Prima (Caxias do

Sul), e manteve uma Oficina de Produção de Textos por dois anos. Atualmente ensina Literatura no Colégio Metodista Americano, além de lecionar Linguagem e Comunicação na ESPM – Sul.

122 “Quanto ao espanhol [eu busquei o contato com o idioma espanhol por conta própria, principalmente textos e

livros de autores argentinos e uruguaios], aprendi um pouco quando cursava a faculdade em Santa Maria. Só conheci, porém, realmente, as dinâmicas da língua (tanto escrita quanto falada) lendo Cortázar, Borges, Arlt, Garcia Márquez, Quiroga e Benedetti. Eu lia muito os livros do Quiroga, até me lembro de um que se chama

Anaconda, que foi um livro muito útil para aprender o espanhol básico, além de ter tido uma namorada uruguaia,

o que ajudou bastante. […] A relação do Rio Grande do Sul com os países fronteiriços é muito forte, nós compartimos a mesma vegetação, os mesmos costumes…” e completa a informação sobre seu conhecimento de idiomas: “meu conhecimento da língua inglesa é bastante rudimentar. Não o utilizei, em nenhum momento, para adaptar o Quixote”.

que adaptou. Mesmo tendo visto o mesmo procedimento mais vezes, como no caso de Gullar, que poderíamos explicar pelo fato de o editor e dono da empresa ser seu velho amigo, ou Lessa, Angeli e Rios, pelo contexto – tipo de editora e prática da época –, chama a atenção que uma editora que desde sua fundação parece seguir alguns princípios esquerdistas, tenha esse tipo de política abusiva com seus colaboradores, negando-lhes até a menção de seus nomes como adaptadores nos créditos eletrônicos, os quais, é importante frisar, são replicados tais quais nos sites dos pontos de venda.

Segundo conta Bortolazzo Pinto, entrou na L&PM em 1997, indicado por seu orientador na UFRGS, o professor Luís Augusto Fischer. O adaptador explica um pouco sobre a coleção, criada por “solicitação do Ministério da Educação da época, que adotou a política de tornar clássicos da literatura mais acessíveis, especialmente para adultos recém-alfabetizados (os chamados neoleitores)”. Esse termo aparece acintosamente em vários paratextos da adaptação escrita por Bortolazzo Pinto, inclusive como subtítulo na capa da obra, Dom Quixote – Versão

adaptada para neoleitores123, norteando o tipo de tradução a ser feita, como podemos ver por

suas respostas na entrevista:

Com relação aos tais “neoleitores”, quando fiquei sabendo o que os caracterizava, fiquei à vontade para manter as cenas e alusões que poderiam ser consideradas “inadequadas”. Não sei se para um público mais jovem, como aquele que acabou efetivamente lendo o livro, eu teria feito diferente (marcas do autor).

Mas o que viriam a ser esses tais neoleitores? Segundo explica o próprio professor Fisher (2010: 13)124 no Manual do Professor da coleção, são os leitores que se encaixariam

basicamente em dois perfis: um deles é “jovem ou adulto, recém-alfabetizado, alfabetizado há tempos e/ou com pouca escolarização posterior à alfabetização, que não tem prática regular de leitura”, claramente incluindo nesse grupo o aluno do EJA; o outro é um aluno “entrando na adolescência (entre os dez e os catorze anos, digamos), mas que não é leitor regular, por não ter

123 No texto da contracapa, explica-se: “Os livros da coleção É só o Começo foram pensados e criados para homens

e mulheres, jovens ou não, que estão começando a vida de leitor. Foram escolhidas histórias importantes e a linguagem foi adaptada para facilitar a leitura. Nosso maior desejo é que você leia e goste de ler” (Pinto, contracapa, 2010). No Blog da L&PM, temos o depoimento de Pinheiro Machado (13 set. 2011) dando mais informações sobre a criação desta coleção: “Em 2003, depois de uma conversa com o Ministro da Educação recém- empossado do governo Lula, senador Cristovam Buarque, um homem apaixonado pela questão da educação no Brasil, nós desenvolvemos um grande projeto no sentido de adaptar livros clássicos brasileiros e internacionais para que pudessem ser lidos por adultos recém-alfabetizados. Este projeto foi elaborado e apresentado para a UNESCO, que não só o endossou, como financiou parte dele. A coleção foi batizada de É só o Começo e o projeto e produção envolveram mais de trinta pessoas, entre professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, escritores-adaptadores, ilustradores, designers e revisores. […] Mais de 200 mil livros foram distribuídos para programas de neoleitores, seja pela iniciativa privada, seja por instituições como SESI e secretarias de educação de vários estados brasileiros”. Encontramos referências do MEC em 2008 com esse termo. MEC. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Avalmat/livro_mec_final_baixa. pdf>. Acesso em: 2 out. 2014.

124 O professor Fisher foi coordenador do setor Livro e Literatura na Secretaria de Cultura de Porto Alegre (1993

acesso aos livros e/ou por não haver criado o hábito”. Define a característica em comum desses leitores: a falta de hábito de leitura, seja pela “precária escolarização” ou ausência de “cultura literária” no ambiente em que vive, portanto sugerindo um público com menor poder aquisitivo, e neste ponto recordamos que essa é a adaptação mais econômica entre as edições de nosso corpus disponíveis no mercado (R$ 10,00)125.

Ao estudarmos a história dessa editora, imediatamente percebemos uma grande diferença em relação às outras estudadas até agora. Pela primeira vez nos deparamos com uma empresa que não foi criada, nem está completamente dedicada ao mercado de livros para o sistema educacional. Durante os últimos quarenta anos se especializaram em alguns temas, obtendo o respeito do público leitor e um bom nome no mercado editorial126. Antes de terminar

a década de 1990, a editora estava prestes a falir. Inovaram introduzindo um produto praticamente desconhecido no país: livros de bolso, vendidos a preços baixos e distribuídos em lugares díspares e alternativos, como farmácias, bancas e supermercados, retomando a ideia de Lobato de colocar o livro como um produto, exposto e vendido como outra mercadoria. Como não há direitos autorais a pagar, apenas a remuneração dos tradutores, revisores e ilustradores da primeira edição, o negócio resultou ser bem lucrativo. Em uma entrevista feita pelo jornal

Zero Hora (9 ago. 2014), Pinheiro Machado justifica, de maneira nada convincente e

desnecessária, o uso de obras em domínio público, e pelo volume de vendas de uma única peça de Shakespeare temos uma ideia do tamanho do negócio:

Por conta do preconceito de alguns autores, e também porque a gente estava sem dinheiro para pagar direitos autorais, começamos a editar livros de domínio público. Reeditamos mais de seiscentos clássicos da literatura universal com boas traduções. Lançamos 22 peças de Shakespeare no mercado, só Hamlet já vendeu mais de 150 mil exemplares127.

125 Essa desconfiança é confirmada pelo relato (25 jan. 2013) do prof. Daniel Weller, disponibilizado no site da

editora, que acha que “talvez para o pessoal da escola particular [o conteúdo da adaptação] seja pouco”, e descreve o leitor típico da coleção: 85% não ganhou na vida um livro de presente, vêm de residências com menos de 25 livros e se assustam com livros de duzentas páginas”.

126 Fundada por em 1974 por Paulo de Almeida Lima, filho de um livreiro, e Ivan Pinheiro Machado, filho de um

deputado do Partido Comunista, os dois jovens publicitários começaram editando livros de autores brasileiros, escolhendo nomes como Millôr e Luís Fernando Veríssimo, dando atenção especial à literatura da América hispânica, como Borges, Bioy Casares, Carlos Fuentes. Site Editora L&PM. Disponível em:

<http://www.lpm.com.br/site/default.asp?TroncoID=805133&SecaoID=845253&SubsecaoID=384748>. Acesso em: 2 out. 2014.

127 Em outro momento dessa mesma entrevista, Pinheiro Machado culpa o pagamento de direitos autorais pelo alto

preço dos livros: “Dias atrás, estava em Ouro Preto e um autor reclamou que os livros eram caros. Respondi: ‘Caro é o direito autoral, se baixar o direito autoral para 5% vai baratear’. É 10% do preço de capa. Quando vendo um livro de R$ 60 para uma grande rede de livrarias a R$ 30, R$ 6 ficam com o autor. Então o autor é dono de 20% da editora, ninguém ganha 20% nesse ciclo, nem a gráfica, nem os editores”. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/08/ivan-pinheiro-machado-pessoas-que-criam-ideias- para-livros-digitais-nao-entendem-de-cultura-4571719.html>. Acesso em: 12 nov. 2014.

Retornando ao nosso jovem adaptador, ele começou a prestar alguns serviços para a L&PM exatamente nesse período de reestruturação. Os editores, ao notar a demanda crescente provocada não só pelos leitores recém-alfabetizados adultos (EJA), mas também, infelizmente, pela pouca qualidade e nível de nossas escolas, especialmente as públicas, produtoras dos “tais neoleitores”, como diz o próprio adaptador em sua entrevista, criaram um selo só para esse segmento. Recorde-se que nesse momento a editora está finalmente se rendendo à tradição das edições voltadas para o sistema educacional – há inclusive programas de compra de livros e bibliotecas EJA, além de todas as escolas particulares com alunos de menor poder aquisitivo, fundadas em grande número especialmente desde o final do século passado. Não é a toa que seu Dom Quixote é publicado todos os anos desde que foi lançado, apesar de seu adaptador acreditar que o livro está esgotado, fora do mercado, não atingiu neoleitores128, e nem ter ideia

de quantos exemplares já foram vendidos…

Fábio Bortolazzo Pinto confessa sem pudores ter lido a obra integral apenas ao receber a encomenda da L&PM, diferenciando-se dos outros adaptadores deste corpus por ter conhecido o livro de Cervantes e sua personagem através da TV, mostrando uma significativa mudança de mediação. Chama a atenção sua descrição romântica do velho manchego (assinaladas abaixo em itálico), algo tão forte que não será desfeito nem com as leituras posteriores da obra em forma impressa, e se mostra outro filho de Lobato, aproximando-se de seus pares:

A primeira vez que ouvi falar do Quixote foi na primeira versão televisiva do Sítio do

Picapau Amarelo. Devia ter entre cinco e seis anos. Lá pelas tantas, Pedrinho,

Narizinho, Emília e Visconde encontravam, em meio às matas do sítio, o Cavaleiro da Triste Figura. E põe triste nisso! Minha lembrança mais clara é justamente o rosto

melancólico. Não faço ideia de quem tenha sido o ator, mas foi uma impressão que ficou. Mesmo depois de ler o Quixote em português, em espanhol, e de tê-lo adaptado, nunca deixei de “sentir” a tragicidade do personagem. Nunca consegui rir, por exemplo, de alguma “trapalhada” dele. Não é exatamente pena o que sinto por Dom Quixote, é uma espécie de carinho, de instinto de proteção. Mesmo sabendo no que os episódios vão dar, jamais deixei de tentar, intimamente, salvá-lo das enrascadas em que se mete. Bom, depois de conhecê-lo através do Sítio, pela TV, fui atrás da

adaptação de Monteiro Lobato. Algum tempo depois, descobri uma edição em português, que havia na minha escola. Creio que estava na sexta ou sétima série. Não lembro a editora. Talvez a Ediouro. Sei que não era uma adaptação. Tinha umas quinhentas ou seiscentas páginas, ao todo. Não cheguei a terminar a leitura dessa edição. Dom Quixote é aquele tipo de obra tão comentada que parece que a gente já conhece a história mesmo sem ter lido. É como Romeu e Julieta, por exemplo, ou algumas Fábulas de Esopo. Acho que fazem parte do inconsciente coletivo ocidental. Então, só fui ler integralmente o Quixote quando recebi a encomenda da L&PM. Não tenho vergonha nenhuma de dizer isso.

128 “Nunca ouvi falar de um neoleitor que tenha lido minha adaptação do Quixote ou do Cortiço. Por outro lado,

volta e meia fico sabendo de professores de séries finais do Ensino Fundamental que adotam, especialmente, a do

O adaptador conta como foi seu processo de adaptação, para o qual se armou de várias fontes, entre edições em espanhol, a tradução de Viscondes & Chagas reeditada pela mesma L&PM e os Quixotes de Carrasco, Angeli e Lobato.

Como o prazo era relativamente longo – era o que eu pensava dos seis meses que me deram –, aproveitei para ler primeiro em espanhol, numa edição que, por acaso (objetivo), tinha comprado um mês antes de receber a encomenda da adaptação. É uma edição de 1997, da Editorial Comunicación, de Barcelona. Sentir o sabor original do livro foi uma experiência deliciosa. Em seguida li também a edição da L&PM, em dois volumes, e três outras adaptações: a do Walcyr Carrasco, a do José Angeli e a do Monteiro Lobato, que reli. Como tinha a edição em português da L&PM, e a da Comunicación, acabei quase não usando dicionário. […] Noventa e nove por cento das referências fontes para a adaptação vem do cotejo constante entre as edições brasileira e espanhola já citadas.

O curioso é como ele usou essas outras adaptações, como um antigo negativo fotográfico, escolhendo aventuras que haviam sido omitidas pelos outros autores. Afirma que sua versão se diferencia por manter o “esqueleto da história intacto”. Essa imagem evoca as técnicas de reconstrução utilizadas para recriar figuras de vertebrados extintos e corpos de desaparecidos através de um simples esqueleto, sobre o qual vão sendo colocadas as partes moles. No caso de uma adaptação de um clássico como o Quixote, essa correspondência até soa bastante procedente, como poderá ser notado na análise descritiva das versões do corpus. O texto fonte parece provocar uma situação de engessamento, e, seguindo a metáfora iniciada pelo jovem autor gaúcho, a narrativa escrita em torno dessa matriz interna se mostra rígida como nosso esqueleto. E completando a imagem, temos também um exoesqueleto, limitando o

preenchimento da forma final: as normas tradutórias, as limitações e exigências feitas pelos

editores, incluindo nesse caso até as condições de trabalho, como prazos e remuneração129.

Bortolazzo Pinto descreve como foi encomendado o trabalho, desvelando sua função: escrever “uma versão de, no máximo, quarenta páginas, com uma linguagem facilitada”, número que foi duplicado pela existência do segundo livro. Mas nem o tempo nem o espaço que lhe deram foi suficiente, talvez por sua inexperiência como tradutor e adaptador – e também como escritor, pois relata que seu maior trabalho foi exatamente cortar o texto para chegar ao tamanho desejado pela editora. Ele descreve inclusive a frustração por ter de cortar a “história do manuscrito árabe”:

Quando cheguei a duzentas páginas, não sabia mais o que tirar sem mutilar o que me parecia essencial. Até brinquei com o Fischer: “Quem sabe eu tiro o Sancho da história?”. Enfim, acabei levando oito meses para reduzir o texto ao número de páginas que a editora queria. Dois meses foram só para adaptar a estrutura a fim de que todas as aventuras, todos aqueles que considero os “grandes acontecimentos” da

129 “O mais interessante, depois de ler o original e uma das traduções, foi fazer o levantamento do que os que

adaptaram o Quixote antes de mim resolveram tirar da narrativa. Minha escolha, a partir daí, foi de manter, na medida das minhas quarenta páginas, tudo que eles haviam tirado sem motivo aparente. Acho que é o que a minha adaptação tem de diferente: o empenho em manter o ‘esqueleto’ da história intacto.”

história, coubessem nas tais quarenta páginas. Uma trabalheira enorme. […] Também não achei como deixar de fora a intertextualidade, o cruzamento da versão contada por Cervantes e a de Avellaneda. É um dos trechos mais saborosos da narrativa! Fiquei chateado por não conseguir manter a história do manuscrito árabe…

Mais adiante esse adaptador assume, como havia ressaltado no início, um profundo desconhecimento do mercado editorial. Causa surpresa que um indivíduo que tenha prestado serviços dez anos para uma editora afirme algo assim, e isso talvez explique seu pouco sucesso nessa indústria, a qual, segundo suas palavras, continua sendo um mistério para ele130.

Também serve para entender por que uma adaptação de um dos livros imprescindíveis para formar uma coleção de clássicos, mas também longo, complexo, cheio de intertextualidade, metalinguagem e escrito quatro séculos atrás foi encomendada a um indivíduo praticamente sem experiência.

Deixando claro que não estamos entrando no mérito do resultado em si de seu trabalho, que, como veremos no capítulo seguinte, não deixou nada a desejar e apresenta um texto agradável, conservando parte dos elementos da comicidade, escatologia, e até mantendo o livro de Avellaneda; faz parte desta análise destrinchar o máximo possível o funcionamento desses bastidores editoriais e entender a área de ação e influência de cada um dos agentes envolvidos