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Sartre critica no teatro contemporâneo este descentramento do sujeito e três recusas essenciais: a recusa da psicologia, do enredo e de todo o realismo. Por isso o seu teatro é um teatro de situações e, como nos diz Miguel Batista Pereira, quando fala do ser-com e do conflito do binómio olhar e ser olhado: «Para Sartre, a melhor exemplificação do nós é fornecida pelo espectador teatral totalmente absorvido pelo espetáculo imaginário mas co- lateralmente consciente dos outros espectadores na sala.» (Pereira: 1990; p. 290). Esta consciência de co-espectador pressupõe então a passagem de ser-com-o-outro a um ser-para- o-outro. Por tudo isto as peças de teatro de Sartre foram sempre colocadas em cena pouco tempo após as suas publicações.
Importa, no entanto, referir que, para Sartre, o teatro não pode ser um veículo filosófico, ao contrário do que aqui defendemos. Numa entrevista ao crítico brechtiano Bernard Dort para a revista Théâtre Populaire (nº 36, 4º trimestre de 1959) acerca dos Séquestrés d'Altona, Sartre refere isto de uma forma bastante explícita. Esta entrevista faz parte da obra Un Théâtre de Situations:
Eu não julgo, devo especificar, que o teatro é um "veículo filosófico", para usar a sua expressão. Eu não acho que — mais do que na novela ou filme — uma filosofia, na íntegra e, ao mesmo tempo em seus detalhes, pode ser expressa de uma forma teatral. Isto porque, basicamente, pode ser expressa por obras filosóficas. Mas, é claro, toda a forma literária pode dar, digamos, uma sensibilidade ou ser carregado com uma sensibilidade filosófica. (Sartre. 1992, p. 375).201
200 «L'art théâtral doit être le lieu primordial et privilégié de cette destruction de l'imitation: plus qu'un
autre il a été marqué par ce travail de représentation totale dans lequel l'affirmation de la vie se laisse dédoubler et creuser par la négation.». (Derrida. 1967, p. 344).
201 «Je ne pense pas, ou alors il faut préciser, que le théâtre soit un "véhicule philosophique" pour
reprendre votre expression. Je ne pense pas — pas plus d'ailleurs que dans le roman ou au cinéma — qu'une philosophie, dans sa totalité et en même temps dans ses détails, puisse s'exprimer sous une forme théâtrale. Car, au fond, elle ne peut s'exprimer que par des ouvrages philosophiques. Mais, bien sûr, chaque forme littéraire peut donner, mettons, une sensibilité ou être chargée d'une sensibilité philosophique.» (Sartre. 1992, p. 375).
Voltamos à questão da relação entre filosofia e literatura, especificamente aqui na dramaturgia. Sartre atribui o mesmo valor filosófico à novela, ao filme e ao teatro, considerando que, se por um lado estas formas artísticas podem conter em si sensibilidade filosófica, a filosofia nunca será aí expressa na sua totalidade nem nos seus detalhes. Deixa- nos, no entanto, uma consideração que nos parece de extrema importância:
No meu ponto de vista, o que escapa à filosofia é sempre o singular enquanto tal, isto é, o que acontece a um indivíduo. Mesmo que ela vá tão longe quanto é possível, a filosofia vê-se obrigada, em dado momento, a ser acompanhada se a tomarmos no sentido preciso de ir o mais longe possível na investigação do indivíduo singular, a investigação sobre romance. (Sartre. 1992, p. 376).202
Esta incapacidade filosófica de ir ao individual, que faz parte da sua natureza, pois deixaria certamente de tratar-se de uma filosofia para se mesclar de psicologia ou mesmo de literatura, transporta consigo esta humildade e esta transversalidade que faz com que a filosofia se harmonize com outras áreas disciplinares, sejam elas a sociologia, a psicologia, o cinema ou a própria literatura. O estudo de uma personagem implica que se vá ao fundo das questões humanas, que se compreendam inicialmente nas suas manifestações fenoménicas mas que se adense um pouco mais a pesquisa até chegar o mais próximo da psykhé. É por este trabalho transdisciplinar que encontramos — como já referimos — detalhes tão marcados pela filosofia, quer nas personagens quer na sua forma de agir ou contextual, nas mais perfeitas obras de literatura. Mas Sartre diz-nos aqui, justamente, que a filosofia precisa, em certo momento, de se acompanhar. E se, na citação anterior, assume que toda a forma literária pode estar carregada de sensibilidade filosófica, percebemos que, embora tenha primeiramente afirmado categoricamente que o teatro não é um veículo filosófico, reconhece que a forma mais plausível de a filosofia chegar ao individual é aproximando-se do literário. Compreendemos o carácter ambíguo da literatura: por um lado cabe dentro da filosofia, por outro fica aquém. Encontra-se, portanto, numa fronteira ténue, que muitas vezes pisa e ultrapassa. Podemos mesmo afirmar, em última instância, que o literário se apresenta aqui como uma espécie de alteridade, o outro que observa, que está de fora mas sempre presente, pronto a interferir ou a mesclar-se de uma identidade filosófica.
Apesar desta negação de Sartre de que o teatro não é um meio de chegar à filosofia — embora nos afirme que é com a literatura que chegamos ao individual —; encontramos num texto que escreveu para o décimo segundo número da revista anarquista La Rue, em novembro de 1947, uma citação que nos leva de imediato a uma relação estreita entre a filosofia e o teatro. Consideremos:
202 «À mon avis, ce qui échappe à la philosophie, c'est toujours le singulier en tant que tel, c'est-à-dire
ce qui arrive à un individu. Même si elle va aussi loin que possible, la philosophie est obligée, à un moment donné, de s'accompagner si on la prend dans le sens précisément d'aller le plus loin possible dans la recherche individuelle du singulier, de recherches vers le roman.». (Sartre, 1973/1992, p. 376).
O que o teatro pode mostrar de mais comovente é um carácter a fazer-se, o momento de escolha, da livre decisão que envolve uma moral e toda uma vida. A situação é um
apelo; envolve-nos, propõe-nos soluções, cabe-nos a nós decidir. E para que a decisão
seja profundamente humana, para que ponha em jogo o homem na sua totalidade, é preciso levar à cena, a cada vez, situações-limites, isto é, situações que apresentam alternativas, em que a morte é um dos termos. Assim, a liberdade descobre-se no seu mais alto nível, uma vez que ela aceita perder-se, a fim de se afirmar. (Sartre. 1992,
p. 20).203
O núcleo central de toda a filosofia sartriana é, sem dúvida alguma, a liberdade humana. Encontramos neste excerto a certeza de que o teatro é um grande veículo para a expressão desta mesma liberdade, que lhe é filosoficamente tão próxima. É este, enfim, o teatro de situações: aquele que explora situações limite, que implica uma escolha dolorosa, estando normalmente a morte num dos pratos da balança, e a dignidade, a reposição da moral, no outro. Pouco depois, revela-nos o que faz com que uma peça seja boa ou não:
Mergulhem os homens nessas situações universais e extremas que só lhes deixam muito poucas saídas, façam com que, ao escolherem a saída, se escolham a si mesmos: está ganho, a peça é boa. (Sartre, 1992, p. 20).204
O objetivo do teatro de situações é então este: revelar a capacidade de liberdade em cada homem e possibilitar que seja essa a escolha que o espectador toma para si, integrando-se por isso no corpo teatral, tal como o leitor se integra e conclui a obra escrita. Assim, é no espectador que termina a peça, e é a sua atitude que determina a qualidade da mesma. Antes de prosseguirmos, importa sublinhar que encaramos a dramaturgia como a literatura em ação. A escolha colocada em cena. A liberdade que se surpreende na escolha feita, que lança os dados. Cada encenação comporta a alternativa entre duas grandes escolhas: é preciso escolher uma delas e aguentá-la até ao final, com todas as suas consequências implicadas. Na dramaturgia ressaltam dois aspectos de grande importância na filosofia sartriana: em primeiro lugar, a liberdade como ação; em segundo lugar a ontologia da escolha: é na escolha que desenhamos o nosso ser e desenvolvemos a responsabilidade para com essa escolha ontológica.
De seguida iremos apresentar algumas peças de Sartre, para dar conta de que todas elas possuem o confronto da escolha, para além de todas as restantes temáticas tão próprias do autor e que a seu tempo analisaremos detalhadamente.
203 « Ce que le théâtre peut montrer de plus émouvant est un caractère en train de se faire, le moment
du choix, de la libre décision qui engage une morale et toute une vie. La situation est un appel; elle nous cerne; elle nous propose des solutions, à nous de décider. Et pour que la décision soit profondément humaine, pour qu'elle mette en jeu la totalité de l'homme, à chaque fois il faut porter sur la scène des situations-limites, c'est-à-dire qui présentent des alternatives dont la mort est l'un des termes. Ainsi, la liberté se découvre à son plus haut degré puisqu'elle accepte de se perdre pour pouvoir s'affirmer.» (Sartre, 1992, p. 20)
204 Plongez des hommes dans ces situations universelles et extrêmes qui ne leur laissent qu'un couple
d'issues, faites qu'en choisissant l'issue ils se choisissent eux-mêmes: vous avez gagné, la pièce est bonne. (Sartre, 1992, p. 20)