Apesar da crescente importância do desperdício alimentar na agenda politica e social nos últimos anos, a verdadeira dimensão do problema é desconhecida. Diferentes estudos apresentam dados divergentes para cada um dos setores da cadeia de abastecimento alimentar. A existência de diferentes classificações e definições para “Desperdício Alimentar” (FoodWaste/ Wastage) e “Perdas Alimentares” (FoodLoss), bem como, a inexistência de uma metodologia comum para medir o nível de desperdício alimentar (componente comestível/ não-comestível), tem impedido progressos no sentido de se conhecerem as reais dimensões do problema,
Contudo e apesar da dificuldade na obtenção de dados fiáveis e harmonizados, as diferentes estimativas e avaliações disponibilizadas, têm dado um forte contributo para a discussão e sensibilização desta problemática.
Num mundo em crescente escassez de recursos naturais e preocupações ambientais, como são as alterações climáticas, deitar fora alimentos saudáveis e em condições comestíveis, além de ser imoral, tem impactos ao nível social, sanitário, económico (o custo relacionado com o valor dos produtos em si, mas também os custos incorridos com a produção, o transporte e o armazenamento dos produtos desperdiçados, bem com o respetivo tratamento), e ambiental (ao nível dos recursos ao longo de todo o
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ciclo de vida dos produtos (terra, água, energia, mão de obra), além do consequente aumento das emissões de gases com efeito de estufa.
Uma ação eficaz para reduzir o desperdício alimentar exige uma reconsideração abrangente da forma como produzimos, comercializamos e consumimos os alimentos em cada etapa da cadeia de abastecimento e consumo de alimentos.
Ao nível dos produtores as acções de sensibilização são deveras importantes para elucidar e dar a conhecer as melhores formas para a orientação e manutenção das culturas, melhores métodos de colheita e manuseamento.
Ao nível das empresas de processamento/ distribuição será necessário uma consolidação e partilha de conhecimentos bem como uma boa comunicação, sobre técnicas de gestão eficiente.
Ao nível das grandes superfícies e das empresas deve haver um rigoroso controlo e boa monitorização dos alimentos desperdiçados, bem como o aumento e divulgação das doações a instituições, procedimentos que contribuiria para uma maior consciencialização e visibilidade para a problemática do desperdício alimentar.
Além da necessidade de uma maior e melhor consciência ambiental, há que melhorar a compreensão dos cidadãos, no que se refere aos alimentos, à segurança alimentar e ao desperdício alimentar e respetivas causas. A industrialização alimentar deu lugar a uma ideia cada vez mais sentida que cada vez sabemos menos sobre os alimentos que consumimos.
A falta de conhecimento sobre os alimentos, (armazenamento, conservação e confeção), a incorreta interpretação dos prazos de validade (“consumir de preferência antes de” e “data-limite de consumo”) e as práticas alimentares enraizadas (o hábito de cozinhar a mais, o não reaproveitamento das sobras, na residência ou nos restaurantes) são causas apontadas para o crescimento do desperdício alimentar ao nível dos consumidores.
Por ser prioritária para a Comissão Europeia, a prevenção do desperdício alimentar é parte integrante do novo pacote da economia circular da Comissão. Ao reintegrar os resíduos (alimentares) na economia, enquanto recursos, (reutilização, recuperação e reciclagem) e ao maximizar a eficiência destes ao longo de toda a cadeia de valor, fecha-se
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o ciclo: nada se perde, tudo se transforma, num contínuo reaproveitamento amigo da natureza.
No decorrer do presente trabalho, para além da dificuldade sentida na já mencionada inexistência de uma definição uniforme para o conceito de desperdício alimentar (os itens alimentares são produzidos, transformados e consumidos de formas muito diferentes nas diversas partes do mundo) e que se torna bem visível na disparidade de resultados dos diversos estudos sobre a quantificação dos desperdícios nas várias fases da cadeia alimentar, pudemos constatar a má interpretação que , no geral, é dada ao significado do termo desperdício, nada condizente com o verdadeiro espírito da palavra.
Efetivamente os termos/expressões institucionalizados no debate publico e político sobre o combate ao desperdício alimentar, como “DESPERDÍCIO” e “SOBRAS” (alimentos que por alguma razão não foram usados por quem os comprou ou não foram vendidos por quem os produziu) estão carregados de sentido negativo e pejorativo na sociedade, pelo que, seria aconselhável, a sua substituição, por outros, quiçá por “REAPROVEITAMENTO”, embora estejamos cientes que nem todo o desperdício é passível de ser reutilizado, pelo que a ênfase no combate ao desperdício alimentar deverá ser sempre colocada no início da cadeia de abastecimento.
Por outro lado, a experiência adquirida no decorrer do estágio, as interpretações efetuadas e as reflexões feitas permitem-nos levantar algumas recomendações e sugestões para trabalhos futuros sobre o tema do desperdício alimentar.
Falar em Desenvolvimento Sustentável é falar no paradigma do mundo atual. A palavra desenvolvimento, que antes era sinónimo de progresso e crescimento, hoje passa a ter outro enfoque, o da sustentabilidade. Daí haver a necessidade de mudança de paradigma e de comportamentos e atitudes mais responsáveis e mais conscientes, que poderão começar em nós (o recurso a mercados de proximidade, a valorização da produção local e nacional, o consumo de fruta da época, etc.)
O sucesso da resposta ao desperdício alimentar dependerá de uma abordagem holística, multi e interdisciplinar (economia, ecologia, geografia, antropologia e sociologia) e intersectorial (produção primária e agroindústria, distribuição, restauração, consumidores finais), com participação da sociedade civil e que integre preocupações de
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âmbito educacional, ambiental e de combate à pobreza, pelo que só uma abordagem integrada nos levará a compreender o fenómeno do desperdício alimentar, sem dúvida, um dos mais prementes desafios da sociedade atual, ao qual urge dar resposta.
Para uma sociedade economicamente sustentável, precisamos de novas formas de pensar, de comunidades locais mais solidárias e inclusivas, de uma cultura humana mais saudável e de soluções sociais colaborativas e empreendoristas.
Num tempo em que crescem as preocupações com os efeitos das alterações climáticas é de todo aconselhável transformar as comunidades em modelos sustentáveis, menos dependentes de recursos externos, (como o petróleo), e mais ligadas à natureza e mais resilientes a crises externas, tanto económicas como ambientais.
Uma ideia amplamente defendida pelos Movimentos de Transição, um movimento fundado sobre os princípios da permacultura e popularizado nos anos de 2005 e 2006 pelo ambientalista Rob Hopkins, com a criação da Cidade de Tansição em Totnes (Inglaterra).
Iniciativas de transição comunitárias que estão a tomar medidas para abordar os grandes desafios da sustentabilidade, no sentido da mudança social. Ações locais que conseguem colaborativamente encontrar soluções para criarem comunidades locais mais resilientes, focadas na solidariedade, no planeamento integrado, no trabalho em grupo, com uma comunicação aberta, inclusiva e com respeito pelas ideias de todos, o que faz aumentar a consciência social coletiva e o sentido de pertença á comunidade.
Em prol do Desenvolvimento Sustentável pequenos gestos diários no nosso quotidiano podem fazer toda a diferença. Daí a necessidade de adotarmos estilos de vida socialmente mais justos, ambientalmente mais sustentáveis e economicamente viáveis.
È o caso das hortas comunitárias, onde um grupo de pessoas ao cultivarem um pedaço de terra alcançam a sua soberania alimentar encontrando ali novas formas de organização e gestão da vida social ou da permacultura.
Cuidar da terra, cuidar das pessoas e partilhar os excedentes, são os pilares da permacultura, uma cultura que coloca a ênfase na aplicação criativa dos princípios básicos da natureza, integrando plantas, animais, construções e pessoas, num ambiente produtivo e harmonioso.
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Em suma, só com um cidadão mais informado (e inconformado), com mais consciência de si e do contexto que o rodeia (as desigualdades e as injustiças, os atropelos aos direitos humanos, o desperdício alimentar) e disponível para intervir na vida pública, (seja a solidarizar-se com pessoas ou causas, seja a pressionar política e economicamente governos e empresas, na melhor gestão dos recursos), poderemos ambicionar a uma sociedade mais democrática, mais justa e menos desigual. Daí a extrema importância que a educação, (educação para a cidadania e educação ambiental) pode desempenhar na construção de uma consciência coletiva crítica e reflexiva, no sentido de uma cidadania efetiva, participativa, que tenha capacidade para dar resposta aos problemas sociais e onde consigamos inverter a típica atitude portuguesa do “esperar para ver” (não agir porque os outros também não o fazem).
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97 Anexo II
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Anexo IV
O Processo de Desenvolvimento de um Novo Núcleo Re-food
O objetivo de desenvolver um novo núcleo Re-food é trazer os benefícios comprovados do Movimento para a comunidade local, reduzindo, deste modo, o desperdício de alimentos e a fome ao mínimo enquanto se aumenta a solidariedade comunitária.
O Processo de Desenvolvimento desenrola-se em 5 FASES:
I. FORMAÇÃO: O processo começa com o interesse de algumas pessoas da comunidade
com vontade de formar uma equipa de Pioneiros. Estes serão os catalisadores do Movimento na nova comunidade.
Pioneiros: Os Pioneiros informam-se sobre o Movimento Re-food, formarão uma equipa
coesa e candidatam-se com Re-food 4 Good a lançar o processo na sua comunidade.
Divulgação: Uma vez oficializada, a equipa de Pioneiros começa a divulgação:
a) A página Facebook é dada pela Re-food 4 Good, contas de e-mail são criadas, contactos iniciais com a comunidade são feitos;
b) Com data, hora e sitio, a divulgação, em três fases, avança para promover a Reunião Sementeira.
1. Convites por e-mail são enviados a todas as instituições (3 semanas antes). 2. Cartazes A3 são colocados em diversos locais na área alvo (2 semanas antes). 3. Convites são oferecidos, pessoalmente, depois das missas ou outros eventos
101 Reunião Sementeira: Reunião pública, bem divulgada, com centenas de cidadãos
presentes onde o Movimento e a oportunidade são apresentados e futuros voluntários e voluntários-gestores serão convidados a juntar-se ao Movimento.
Voluntários-Gestores: No fim da Reunião Sementeira, serão identificados dezenas de
novos voluntários-gestores, que, juntamente com membros da equipa de pioneiros irão criar as bases do novo núcleo.
O Círculo de Serviço: As reuniões da equipa, sejam estas de Pioneiros (no início) ou de
voluntários-gestores (depois da Reunião Sementeira), serão sempre conduzidas no “Círculo de Serviço” - um círculo de cadeiras, sem mesas, sem presidência e com a participação igual de todos. Todos os voluntários-gestores no Círculo de Serviço devem ter a sua voz, ser ouvido e, quando não há consenso, o seu voto contado.
Cinco áreas de responsabilidade: Na primeira reunião da equipa dos voluntários-
gestores, serão formados 5 grupos consoante as 5 áreas de responsabilidade (pastas) dum núcleo Re-food (Voluntários, Beneficiários, Apoio da Comunidade, Fontes de Alimentos e Operações). Todo o trabalho desenvolvido nestas áreas de responsabilidade será partilhado e melhorado no Círculo de Serviço. Um Núcleo Re-food é Uma Só Equipa e as pastas são grupos de trabalho dentro desta equipa única.
A formação e organização da equipa de voluntários-gestores marca o fim da fase I e o início da fase II.
II. INFORMAÇÃO: Os objectivos da segunda fase são: desenvolver fortes laços de equipa
de voluntários-gestores dentro do espírito Re-food, adquirir e organizar um profundo conhecimento da comunidade (identificando recursos) e, no fim deste trabalho, escolher coordenadores e nomear equipas transversais.
Construção de Uma Só Equipa: A equipa plena irá reunir semanalmente durante 5
semanas para verificar o trabalho em curso (investigação) e partilhar/debater a natureza do Movimento Re-food. Depois deste período intensivo, a equipa de voluntários-gestores irá reunir, no mínimo, uma vez por mês no Círculo de Serviço.
102 Investigação Geral: A pesquisa, que começa com a “reunião de mapa”, será feita pelos5 grupos e destina-se à recolha de informação, de acordo com as 5 áreas de gestão dum núcleo Re-food. Cada grupo será responsável por 100% do trabalho de investigação numa quinta parte da área/mapa. Todos os dados serão registados num ficheiro global enquanto potenciais “Fontes de Alimentos” e potenciais “Centros de Operações” serão igualmente identificados no mapa.
Relatório da Investigação Geral: toda a informação recolhida será organizada e
partilhada com todos os voluntários- gestores e com Re-food 4 Good num relatório.
Eleição de Coordenadores: Depois da investigação e relatório e, na mínima, 5 reuniões
de toda a equipa - e na presença duma represente da Re-food 4 Good - o coordenador e vice-coordenador serão escolhidos numa eleição segredo - sem nominações, palestras, campanhas ou recusas prévias.
Nominação de Equipas Transversais: Os coordenadores, em consulta com a toda a
equipa de gestores no Círculo de Serviço, irá nomear as pessoas indicadas para as equipas transversais: a equipa financeira (2 pessoas); a equipa de comunicação e eventos
(2 ou mais pessoas) e a equipa de formação/compliance (2 pessoas). O núcleo deve
agora receber a sua conta bancária, com NIB próprio, e acesso do programa de faturação para assim emitir recibos-mecenas.
III. ACÇÃO: Os objectivos da terceira fase são dois: encontrar o Centro de Operações do núcleo e começar a servir a comunidade.
Investigação especifica: Toda a equipa de voluntários-gestores irá voltar ao terrenopara aprofundar as informações já recolhidos acerca de potenciais locais para o Centro de Operações, identificando aqueles que estão aptos a serem objecto de negociações efectivas para instalação do núcleo Re-food.
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Operação “Pão e Bolos”: Os voluntários-gestores irão identificar e convidar padarias e
pastelarias a doar os seus excedentes no fim do cada dia. Estes serão recolhidos pela equipa de voluntários-gestores e entregues directamente em instituições parceiras no
local – cumprindo assim a missão Re-food desde o início.
Estas duas ações serão desenvolvidas em paralelo.
IV. OFICIALIZAÇÃO: Quando o centro de operações está identificado e confirmado, o
plano de ação deve ser desenvolvido - em conjunto com a activação de parceiros - e apresentada a Re-food 4 Good. Com a sua aprovação, a equipa pode avançar para a oficialização do seu núcleo.
Plano de Acção: O plano de acção deve conter a previsão das atividades a realizar até ao