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Utslipp fra det planlagte fabrikkanlegget 11

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3 UTSLIPPSDATA

3.2 Utslipp fra det planlagte fabrikkanlegget 11

Se característica há que nos certifica da presença de um quase-objeto, ela é a margem de sub-determinação de que goza, um sempre presente grau de incerteza que pauta a sua atuação. Noutras palavras, se característica há que lhe assegure a sua presença é justamente a secundarização, numa primeira etapa, das propriedades que o pudessem identificar, ou o mesmo será dizer, a sua não-caracterização a priori. É evidente que não defendemos a inexistência dessas propriedades, ou correríamos o risco de fazer do termo ‘incertezas’ aquilo a que nos temos vindo a opor: torná-lo um termo geral, transferível e constante, transcendente, termo que (não) explicaria a atuação dos objetos. Não é isso que argumentamos. As incertezas têm que ser mantidas no plano imanente, elas próprias participantes no fluxo relacional, e não a sua fonte oculta. As incertezas não podem funcionar por si só, sui-referencialmente; ao invés, elas precisam sempre, não de se referir a, mas de multiplicidades em movimento, penetrando-se mutuamente. As qualidades, efetivamente, existem num quase-objeto, eles não são neutros, são compostos por singularidades que os povoam: é a partir delas, por exemplo, que o escritor agencia linguagem e outros elementos, na esperança de parir um texto literário.

O que argumentamos é, então, algo diferente: os quase-objetos são, entre eles, distintos, dotados a cada momento de qualidades atuantes diferentes, sim, somente estamos convictos que a incerteza não é uma qualidade como as outras, que ela é a própria natureza da relação, a sua verdade, o cerne do relativismo. Ela é uma espécie de anel no interior do qual qualquer qualidade, elemento, característica, ou o que lhe queiramos chamar, se situa e que lhes possibilita a abertura ao que lhes é diferente e, sobretudo, a ocorrência da já citada perpendicular que os arrasta para fora de si mesmos, resultando daqui o nascimento de algo, não só diferente deles, mas especialmente incausado por eles. Também não constitui a incerteza, bem entendido, a causa do que resulta da relação. Ela é, aliás, o garante da exclusão do pensamento causal – onde há incertezas, não há nexos estritamente causais. Não causando, sendo imanente à própria relação, este anel de sub- determinação é, como vimos, indispensável à existência dos quase-objetos, isto é, à sua atuação, à sua (auto-)diferenciação.

Se as incertezas são o garante da possibilidade de atuação dos quase-objetos, os agenciamentos são quem, realmente, os põe a atuar. Com efeito, os quase-objetos só atuam quando agenciados. Da mesma forma, só porque sub-determinados são agenciados.

Fossem eles absolutamente definidos e determinados, algo como um ideal-tipo de objeto (logo, estratificado), e não surgiria qualquer discussão acerca da atuação, nesse caso constante e previsível, dos mesmos. Ora, como sabemos, o texto literário é alvo de inúmeras disputas. Precisamente porque, como já advertimos, o quase-objeto, a condição- multiplicidade, está sempre presente, mesmo no objeto mais bem estratificado. É por isso que ele pode ser, como efetivamente é, controvertido: porque agenciado e investido de formas dispares, porque lhe conferidas, pelos diferentes agenciamentos em que entra, diversas maneiras de atuar, o nascimento de uma controvérsia, em seu torno ou que apenas o convoque, está sempre à espreita. Com que elementos se deve o texto literário relacionar? Que tipo de relação deve ele estabelecer? Como deve ser lido? Como deve essa leitura ser ensinada? Todas estas questões, veremos, estarão no centro do aqui estudada diferendo protagonizado entre o MEC e a APP. Mais não se trata do que duas formas conflituantes de agenciar o texto, de lhe dar forma e função, de o (des)estratificar.

Significa o anterior que as causas precedem os objetos (Serres, 2004). Falar de coisa, de objeto, é falar de um quase-objeto agenciado, logo, passível de entrar em mais do que um agenciamento e, como tal, discutível. O jurídico, em sentido lato, antecede o objeto, é a disputa entre causas que recorta uma certa objetividade: não há texto literário sem a formação de coletivos que correspondem às causas que o enformam. Na verdade, referimo-nos a formas diferentes de performar e investir, não um objeto preexistente, mas um quase-objeto que, assim, se converte em coisas diferentes. Em rigor, estudar a formação do literário é estudar as formações do literário. É que é o próprio texto literário que, enquanto objeto, é diferente. Não são formas diferentes de representar o mesmo texto, são, de facto, textos diferentes. De resto, essas diferentes causas em disputa, esses diferentes textos literários, não têm sequer que culminar num universo consensual. Nenhuma lei teleológica o garante, e aliás, não lhe conferimos mais direitos do que a uma hipótese abstrata. Se dele se aproxima é porque os diversos agenciamentos em combate, ligando o texto literário a elementos diferentes, fazendo-o chegar a lugares diferentes, acabam por deter graus de solidez e consistência também diferentes. O consenso deve ser vergado perante o dissentimento: é por via deste que o texto literário se (des)(re)forma, sendo aquele, não a finalidade, mas um estado da discussão que, mais ou menos frágil, sempre é transitório. Numa leitura de Unamuno que, pouco importa se leal ou desleal ao seu pensamento, mas que nos surge adequada ao que aqui vem sendo defendido, consideramos que já no seu tempo, soube ele reconhecer o caráter fundador da disjunção,

a positividade da diferença, quando proferiu o seguinte: “aquilo que mais nos une, a nós os homens, são as nossas discórdias” (Unamuno, 1991).

Ademais, as situações de controvérsia não se reduzem a uma inevitabilidade em que os (quase-)objetos caem. Estas contendas, não tão raras nem insignificantes quanto a tendência, dominante em alguma sociologia, para capturar regularidades dá a entender, configuram um momento privilegiado para a análise sociológica (Boltanski & Thevenot, 1999; Corrêa, 2016), talvez mesmo constituam o habitat natural do sociólogo-cartógrafo, do trapezista que se aventura sem rede de segurança. Como peixe na água, o sociólogo, na situação de controvérsia, depara-se com uma verdadeira brecha. É este, aliás, exatamente o valor das contendas. De facto, o sociólogo perde os agenciamentos — por natureza, como veremos, anónimos e coletivos — que verdadeiramente investem o texto literário, sempre que observa uma situação bem consolidada a ponto de inquestionada. Como nos lembra Law,“quando a rede [colocada em prática pelo agenciamento] age como bloco único, ela desaparece e é substituída pela própria ação e pelo aparentemente simples autor da ação. Ao mesmo tempo, é apagada a maneira pela qual o efeito é gerado” (Law, 1992), ou seja, é no momento da sua rachadura, no momento em que é estalado, que a formação do literário reverbera pungentemente.

É por isso que o parecer público redigido pela APP goza de um duplo-estatuto: por um lado, é um agenciamento literário como qualquer outro que integre o texto literário, por outro, racha o agenciamento-Programa, documento central da presente dissertação, revelando as formas como o mesmo põe o texto literário a atuar. Noutros termos, o alvo, o literário, revela-se quando questionado, quando entra em crise, mais do que nos seus períodos de acalmia, nos seus picos de instabilidade. Enquanto o literário não é criticado, os seus fazeres, desfazeres e refazeres mantêm-se invisíveis, podendo, no máximo, ser pressupostos e profetizados. É que as operações críticas que tomam por alvo o Programa de Português, e mais concretamente, as operações críticas dirigidas ao texto literário no Programa de Português, toda esta atividade crítica, supondo que não recorre à violência física, impõe o recurso a justificações (Boltanski & Thevenot, 1999, 2006). Vejamos: se se desenrola e/ou critica um certo agenciamento literário, então, o mesmo requer a mobilização de justificações que parcialmente o blindem e legitimem.Não é no já acordado, mas na suspensão do acordo que se observam as regras de aceitabilidade em confronto. Se ocasiões há em que os princípios conectivos e as técnicas, a partir dos quais é forjado o literário, se tornam visíveis, são precisamente os momentos de convulsão. Como dissemos, cada operação crítica é, não só um teste ao agenciamento (ou parte dele)

que tem por alvo, como também, e não em menor grau, um agenciamento em si mesmo. Criticando, justificando certas formas de relacionar e executando outras, o que está em causa, no fundo, é a deslocação de certos limiares e a criação de outros, produção de limites a partir dos quais algo se tornou intolerável, limites classificadores que qualificam e desqualificam, limites, ainda, que definem regiões de aceitabilidade e inaceitabilidade, do semelhante e do estranho, regiões de inclusão e exclusão. Os agenciamentos, convertendo quase-objetos em objetos, são, igualmente, fábricas dos seus limiares, regulando-lhes os movimentos, estabelecendo-lhes regiões familiares e regiões exóticas – inventor de mapas. O sul e o norte, este e oeste, não existem fora do agenciamento que engendra fronteiras e, como tal, direções. Num puro deserto, espaço sem referências, não há norte.

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