6. Ulike faser i en strukturprosess
6.2 Utredningsfase – aktuelle temaer og problemstillinger
Nossa pesquisa se caracteriza como qualitativa-interpretativa e etnometodológica. A decisão se funda, no primeiro caso, na constatação de que as "variáveis" de que trataremos são mensuráveis de forma aproximativa e gradativa, porém jamais poderão ser expressas em grandezas como índices numéricos. Já no segundo caso, a justificativa reside no fato de que optamos por analisar práticas incorporadas em atividades cotidianas. Caso lancemos o olhar para nosso objetivo geral, percebemos como essas escolhas nos permitirão atingi-lo de maneira mais consequente: investigar a constituição da interface do site YouTube do ponto de vista do que lhe torna uma prática discursiva.
Conforme recapitula Aires (2011) ao comentar os condicionantes históricos da pesquisa em ciências sociais humanas, novos cenários se apresentaram aos investigadores ao longo do século 20, possibilitando a emergência de modelos mais adequados a problemas como a mudança social, a cultura e as questões de gênero. Entre esses, acrescentamos, também figuram as motivações das mudanças e permanências de ordem linguística. As pesquisas passam a se orientar pela tentativa de dar conta da complexidade inerente a fenômenos informados forjados na dinâmica das interações humanas – o que define, em linhas gerais um paradigma qualitativo, em oposição à maior ênfase na quantificação percebida no fazer científico de outrora.
Nos dias atuais, a pesquisa qualitativa faz coexistir diferentes perspectivas teóricas e admite uma variedade considerável de técnicas de obtenção de dados, o que nos autoriza a considerá-la uma empreitada vocacionada à interdisciplinaridade (LEIS, 2005; FAZENDA, 1994). Dessa maneira, a pesquisa qualitativa em ciências humanas revela-se na sua capacidade de agrupar ou congregar diferentes olhares sobre os fenômenos que enquadra.
Mais especificamente no campo linguístico, deve-se ter em conta as discussões de alguns autores (CELANI, 1992, 1998; MOITA-LOPES, 1998, 2006) que
reivindicam o status de transdisciplinar12 para pesquisas do campo da Linguística Aplicada (LA) – com o qual a presente proposta de pesquisa apresenta certa afinidade, na medida em que pretende deixar alguma contribuição para as abordagens aplicadas na área das práticas discursivas em ambientes da web. Assim, declaramos nossa opção pelo paradigma qualitativo por considerarmos que, nesse tipo de pesquisa, será possível agregar métodos e procedimentos que possam contribuir para a descrição e o entendimento de fenômenos como a produção de discursos em ambientes digitais, caso deste trabalho. A escolha também se assenta na compreensão de que as pesquisas qualitativas admitem, como dito, uma multiplicidade de métodos e abordagens de diferentes origens convivendo no espaço de um mesmo trabalho, como é o caso desta pesquisa, que dialoga com matrizes oriundas da filosofia da linguagem, dos estudos do discurso e da sociologia.
Nesse sentido, Baym (2005) elenca entre as diretrizes para pesquisas feitas na internet “manter o diálogo e a troca de ideias mútuas com outras disciplinas e tradições de pesquisa” (p. 232 apud FRAGOSO et al, 2011), além de buscar contextualizar as pesquisas nas tradições de pesquisa de mídia e tecnologia antecedentes, bem como ancorar os esforços de pesquisa em questões relativas ao poder e à condição humana.
Para a consecução de tal meta, os procedimentos devem dar conta de uma complexidade suscitada pela natureza dos dados. Nesse sentido, entendemos que tal paradigma se constitui o mais adequado, por permitir explorar dados que não se mostram exatos, fechados ou esgotáveis por instrumentos quantitativos. Nossa análise, uma vez caracterizada como qualitativa, busca interpretar os indícios que as interfaces nos ofertam, na perspectiva consignada por Bogdan; Biklen (1994). Os autores defendem que o valor dos objetos pode ser considerado um dado de pesquisa.
Os mesmos autores indicam características relevantes da pesquisa qualitativa, que incluem o caráter descritivo da investigação, a ênfase nos significados como categoria de vital importância, a concepção de produto como resultado de processos (sendo esses o grande foco de interesse) e o tratamento indutivo dos dados, que são interpretados à medida que são construídos e agrupados em categorias. Nessa perspectiva metodológica, o pesquisador se faz presente no locus da pesquisa e é o
12 Como lembram Molon, Vianna (2012), a discussão do carater fronteiriço da LA e mais ampla,
admitindo que se discuta, para alem de uma transdisciplinaridade, as noções de multidisciplinaridade, interdiciplinaridade e indisciplinaridade.
instrumento principal dessa atividade. Ele deve, portanto, levar em conta os contextos em que os atos ocorrem e sua historicidade.
O caráter descritivo da investigação qualitativa é justificado em autores como Pinto (1990) como forma de aproximação de domínios do saber pouco conhecidos ou explorados. Pensamos ser esse o caso da pesquisa aqui realizada, cujo universo, como se verá no próximo item, é uma espécie de “caldo cultural” e tecnológico de onde emergem práticas de linguagem ainda por serem sistematizadas. Best, Kahn (1993), por sua vez, defendem essa abordagem pela validade com que é capaz de flagrar tendências em desenvolvimento.
Nossa pesquisa também se declara tributária dos preceitos defendidos pela etnometodologia (COULON, 1995; GARFINKEL, 1967). Ao declarar a centralidade da noção de prática, a etnometodologia vai ao encontro de nossa preocupação fundamental, que é a caracterização da interface como uma prática discursiva de feições peculiares. Para os etnometodólogos, práticas são o substrato a partir do qual se devem realizar as pesquisas. Elas consistem em atividades corriqueiras da vida cotidiana, importando, sobretudo, o modo como elas são realizadas e o significado atribuído a elas pelos indivíduos. É a partir das práticas que a realidade social é criada e interpretada.
Ponderamos que o design de interfaces se presta a ser considerado uma prática na acepção da etnometodologia, uma vez que se constitui como atividade humana vulgarizada a partir da popularização das tecnologias da comunicação e informação. Atualmente, o acesso à produção e à manipulação de interfaces é facultado a indivíduos não-especialistas, a exemplo do que ocorre com certas plataformas de construção de páginas web13.
Ainda do ponto de vista de nossos interesses de pesquisa, a etnometodologia demonstra preocupação com o papel da linguagem na ação social, com a natureza da intersubjetividade na conduta humana e com as formas de interação social. Para tanto, concentra o foco em desvendar como os indivíduos atribuem sentido às próprias práticas, consgrando, dessa forma, uma espécie de epistemologia do senso comum. A etnometodologia encontra amparo em diferentes matrizes teórico-metodológicas,
13 Em serviços como Wix (www.wix.com), os usuários têm à disposição uma série de templates
(modelos pré-definidos) para páginas web de diversas naturezas, podendo manipulá-los num esquema de "arrasta-e-solta", sem acesso direto ao código-fonte no qual a página é concebida.
tais como o interacionismo simbólico, a fenomenologia e pragmática da linguagem de feição wittgenstaniana. Em suma, a
abordagem etnometodológica estuda os métodos que efetivamente são praticados (usados) pelos membros da sociedade a fim de alcançar (fazer) o que quer que seja que eles estão fazendo (incluindo as formas de falar do que quer que seja que eles estão fazendo). Um estudo sério e cuidadoso dos métodos usados pelos membros para alcançar ações práticas no mundo da vida cotidiana resulta em descrições e análises da metodologia de todo dia ou da etno (membro de um grupo ou do próprio grupo em si) metodologia, ou dos métodos dos membros. A parte referente à metodologia do termo etnometodologia deve ser entendida como se referindo ao "como" as efetivas práticas situadas, os métodos pelos quais as atividades de todo dia são alcançadas (PSATHAS, 2004, p. 3214).
A abordagem etnometodológica permite, dessa forma, enfatizar os processos que presidem as interações cotidianas, justamente a razão pela qual ela se torna conveniente para operacionalizar uma sociologia das associações - cerne das preocupações da TAR, à qual recorremos para caracterizar a interface como prática discursiva oportunizada por atores humanos e não-humanos.