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Utredningsarbeider frem mot forvaltningsreformen (2003-2010)

2 Kartlegging og sammenstilling av tidligere utredninger

2.2 Sentrale utredningsarbeider om regionnivået

2.2.4 Utredningsarbeider frem mot forvaltningsreformen (2003-2010)

pensamento ao afirmar que “a recepção, como qualquer processo histórico, é complexa porque, além de implicar o tempo e o lugar, coloca em ação na Igreja local diversos atores”186.

No Brasil, em janeiro de 1966, logo após o término do Concílio Vaticano II em Roma, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou o Plano de Pastoral de Conjunto – PPC – cujo objetivo era o de “criar meios e condições para que a Igreja do Brasil se ajuste, o mais rápida e plenamente possível à imagem do Vaticano II”187. Procurava-se atingir esse objetivo partindo de uma tomada de consciência da realidade, levando em consideração o caráter processual e dinâmico da renovação da Igreja. O Plano de Pastoral de Conjunto apresentou uma programação que articulava os principais documentos conciliares com seis dimensões da ação pastoral: 1. Comunitário-Participativa (Lumen Gentium), 2. Missionária (Ad Gentes), 3. Bíblico-Catequética (Dei Verbum), 4. Litúrgica (Sacrosanctum Concilium), 5. Ecumênica e de Diálogo Inter-religioso (Unitatis Redintegratio / Nostra Aetate), 6. Sócio-transformadora (Gaudium et Spes). Isto mostra uma clara preocupação dos bispos do Brasil em tornar as linhas mestras do Concílio aplicáveis às realidades locais.

Para a América Latina como um todo, o marco referencial da recepção do Vaticano II foi a II Conferência Geral do Episcopado Latino Americano em Medellím, no ano de 1968. “Lá se optou pelos pobres, pelas comunidades eclesiais de base, pela vida consagrada inserida, por um exterior simples e pobre da Igreja, pela educação libertadora, pelo laicato engajado na vida eclesial interna e sociopolítica”188. Medellím significou a tentativa de uma recepção criativa da doutrina conciliar com enorme abertura, o que influenciou, sobremaneira, a forma de ação de setores da Igreja Católica neste continente.

A Diocese de Montes Claros não ficou alheia a este novo paradigma religioso depreendido do Concílio Vaticano II. A assembleia conciliar realizada em Roma, tão logo se encerrou, repercutiu em terras Norte Mineiras.

 

 

3.2 Prenúncios da doutrina conciliar em Montes Claros       

185

CATÃO, Francisco Augusto C. In: GONÇALVES, Paulo Sérgio Lopes, BOMBONATTO, Vera Ivanise. (Orgs.). Concílio Vaticano II, análise e prospectivas. São Paulo, Paulinas, 2005, p.104

186

 COUTINHO, Sergio R. O Episcopado e a Recepção do Concílio Vaticano II em Goiás. In: Revista Fragmentos de Cultura, v.16, n.7/8. Goiânia: 2006, p.559

187

 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970. Rio de Janeiro, Dom Bosco, 1966, p.25.

188

 LIBÂNIO, João Batista. 50 anos do Concílio Vaticano II. In: Revista Horizonte, v. 9, n. 24. Belo Horizonte: 2011, p.960.

Diante deste panorama de recepção do Concílio Vaticano II e de acolhida de seu impulso renovador, nos chama atenção o quão rápido as ideias conciliares chegaram ao Sertão das Minas Gerais. Em 1966, Montes Claros, no longínquo Norte de Minas, se movimentava para receber os ensinamentos emanados do concílio encerrado em Roma. E uma questão naturalmente se levanta: como um evento dominado por bispos europeus foi recebido numa realidade tão distinta e particular? Para Oscar Beozzo, “O tema é tanto mais interessante, quanto foram justamente essas áreas relativamente marginais durante a gesta conciliar, que tornaram das mais relevantes para sua recepção, durante o período pós-conciliar”189.

O recorte de nossa pesquisa, acreditamos se enquadrar nesta afirmação do pesquisador Pe. Beozzo, pois o Norte de Minas é fronteira entre Nordeste e o Sudeste de nosso país. Esta região do Estado foi incluída a partir de 1964 na área mineira da SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), no polígono das secas, devido ao seu clima semi-árido, passando, às vezes de oito a dez meses sem chuva. Mas, não foi incorporada à área da SUDENE só pelo seu clima; as atividades agrícolas, as condições de trabalho, a baixa renda per capita e o fraco poder aquisitivo da população completavam o quadro de subdesenvolvimento desta região, assemelhando-se muito ao Nordeste brasileiro.

Os indicadores sociais do Norte de Minas na década de 1970 eram alarmantes. 45% da população estava abaixo da linha da pobreza com renda mensal inferior a um salário mínimo. Em Montes Claros, a cidade mais desenvolvida da região, 68% dos habitantes não tinham acesso a água tratada e 83% da população não tinha rede de esgoto, além disso, apenas 29,3% da população economicamente ativa estava empregada, 79% a população era considerada de baixa renda. A fome estava presente em muitos lares que enfrentavam todo tipo de problema social. As condições de saúde, educação, higiene, alimentação e moradia eram muito precárias. Havia regiões inteiras com altos índices de esquistossomose, doença de chagas e outras verminoses190.

Anete Marília ao pesquisar sobre a Montes Claros deste período, confirma este quadro social ao descrever o Norte de Minas como “uma região com graves problemas de natureza socioeconômica, que, mesmo sendo foco de políticas de incentivo ao desenvolvimento, não conseguiu superar sua condição de periferia no contexto estadual”191. Nesta situação social tão adversa, as ideias conciliares despontaram como uma luz para orientar a ação desta Igreja

      

189

 BEOZZO, Oscar. A recepção do Vaticano II na Igreja do Brasil. In: INP (Org.) Presença pública da Igreja no Brasil: Jubileu de ouro da CNBB (1952-2002). São Paulo: Paulinas, 2003, p.426. 

190

 Dados da Secretaria Municipal de Planejamento citados em Organização Pastoral, Diocese de Montes Claros 

191

 PEREIRA, Anete Marília. Cidade Média e Região: O Significado de Montes Claros no Norte de Minas Gerais. Tese (doutorado), UFU, 2007, p.129.

diocesana e influenciou sobremaneira o assentamento de uma linha de atuação eclesial que leva em conta os problemas sociais do lugar.

Se a renovação eclesial desencadeada pelo Concílio a partir da noção de Igreja povo Deus, coloca em evidência a missão dos leigos, é significativo destacar o testemunho de Zuleika Antunes de Araujo, um desses personagens bastante representativos, cujo testemunho e a história de vida revelam a repercussão imediata do Vaticano II na vida da Igreja diocesana de Montes Claros. Um caso típico de uma fonte oral que traduz uma visão particular de processos coletivos, e com ela recuperamos informações sobre acontecimentos, fatos e detalhes não registrados em outros documentos. Seus relatos “trazem a história para dentro da comunidade e extrai a historia de dentro da comunidade”192. Trata-se de uma representação individual, de um sujeito histórico que entrou em consonância com o Concílio Vaticano II. O nosso encontro com ela se deu quando procurávamos pessoas do grupo que dinamizou a criação do Secretariado Diocesano de Pastoral e que coordenou a Primeira Assembleia Diocesana de Montes Claros, em 1966. Dos nomes que constavam no livro das diretrizes desta assembleia, Zuleika Antunes Araujo foi a única que encontramos, visto que todos os outros já eram falecidos. Além disso, nos chamou a atenção o fato de ela ser a única leiga da equipe de coordenação, o que era bastante inusitado para a época. E isto se torna importante, principalmente porque a doutrina contida nos decretos conciliares habilita os leigos a exercerem suas atividades como protagonistas, como verdadeiros atores sócio-eclesiais, e Zuleika Antunes de Araujo, de fato, o foi. Daí a importância do seu depoimento para reconstruirmos um pouco da atmosfera deste momento histórico da Diocese de Montes Claros.

Em maio de 2011, Zuleika Antunes de Araujo, hoje aposentada como inspetora escolar da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, nos concedeu uma entrevista, na qual tivemos a preocupação de fazer com que as questões apresentadas expressassem seu pensamento sobre o momento histórico por nós pesquisado. Mas aos poucos, percebemos que sua própria trajetória de vida deixava evidências de como alguns setores da Igreja Católica no Norte de Minas sofreu o influxo renovador das ideias conciliares e de todo movimento de mudança que se colocava em curso no Brasil e na América Latina.

A história da relação de Zuleika Antunes com a Igreja Católica é de longa data. Criada num ambiente de muita fé, a jovem professora dos anos de 1960 afirma que, naquela época, “o leigo era o fazedor de atividades que não tinha ninguém que fizesse. Não tinha palavra, não

      

192

THOMPSON, Paul. A voz do passado – História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p.44.  

tinha expressão nenhuma. Às vezes, participava de algum movimento, mas era um subordinado. O aspecto da inferioridade entre leigos e padres era muito acentuado”193.

Sobre a realidade social deste período, Zuleika Antunes pontua: “Montes Claros sempre foi uma cidade coronelista, perigosa, uma injustiça muito flagrante. Uma roubalheira terrível dos políticos, o povo não era conscientizado, uma massa muito submissa”194. Nesta mesma época ela foi convidada pelo então bispo Dom José Alves Trindade para coordenar o Movimento de Educação de Base no Norte de Minas, sendo cedida pelo governo do estado para este trabalho na Diocese. Momento muito importante para sua conscientização, pois recebeu treinamento de técnicos da USP sobre o método de Paulo Freire. Para Zuleika Antunes, esta sua experiência fez com o Padre Paulo Pimenta, primeiro coordenador de pastoral da Diocese de Montes Claros, a convidasse no início de 1966 para compor a equipe do Secretariado Diocesano de Pastoral, órgão recém criado e que viria a coordenar a primeira assembleia pastoral desta diocese Norte Mineira. Ela fala desta época com entusiasmo:

Eu dava trabalho diário nesse secretariado, sem remuneração, eu o Padre Paulo Pimenta e a Irmã Angelina. Ficávamos tão empolgados que íamos noite a dentro estudando. O Padre Paulo tinha uma abertura para coisas novas, refletíamos o evangelho, estudávamos documentos da CNBB. Este foi o primeiro grupo a disseminar as ideias do concílio por aqui. A primeira assembleia foi uma consequência do trabalho do secretariado, uma consequência natural, achávamos que era o momento de fazer a assembleia. Na preparação, nos colhíamos depoimentos das pessoas, os desejos, o que elas pensavam, para a partir daí traçarmos as diretrizes. Paulo Pimenta foi o eixo deste trabalho, foi o primeiro coordenador de pastoral, dedicava mesmo. Trabalhávamos muito com o método da ação católica, ver, julgar e agir. Também o Plano de Pastoral de Conjunto [da CNBB] era nossa referência195.

Demos um especial destaque ao depoimento de Zuleika Antunes por percebemos que este primeiro trabalho de apresentação dos documentos conciliares aos leigos ficou circunscrito a um pequeno grupo liderado pelo Pe. Paulo Pimenta. Os padres deste período com quem conversamos pouco sabiam dizer desta tentativa inicial de renovação que teve como ponto alto a realização da Primeira Assembleia Diocesana de Pastoral. Claro que esta não foi a única frente de ação em Montes Claros. Os padres eram mantidos informados das renovações através de materiais do Regional Leste II e da própria CNBB. Dom Geraldo

      

193

 Historia oral ARAUJO, Zuleika Antunes. A Recepção do Concilio Vaticano II na Arquidiocese de Montes Claros. Montes Claros, 2011. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.

194

 Ibid. 

195

aponta as formações litúrgicas com Dom José Alves Trindade, os roteiros de celebrações196 que ele, à época, ainda padre e como coordenador de pastoral, preparava para os colegas de presbitério.

O Boletim Diocesano de dezembro de 1966 cita uma outra iniciativa local que reflete, mesmo que de forma incipiente, a presença renovadora do Concílio. Diz a matéria,

Desde o mês de agosto, os padres da Escola Apostólica, com a cooperação dos juniores e seminaristas, iniciaram um movimento de renovação pastoral. Enquanto não vem o Plano Diocesano, resolveram tomar como objetivo principal a primeira linha do PPC, isto é, a unidade visível da Igreja e para isto, procuraram ver a realidade do bairro Melo197

Interessante ressaltar os problemas encontrados à época, bairro pouco habitado, casas distantes umas das outras; e mais ainda, destaca-se a resistência às mudanças por parte de alguns clérigos ao enfatizar que “as forças com que poderíamos contar eram os padres, o Seminário Premonstratense que então precisaria ser mais aberto para o apostolado, a Legião de Maria, o Apostolado da Oração, a Ordem Terceira de São Norberto”198. Mesmo sem o total auxílio que esperavam contar, o trabalho deu prosseguimento com visitas, principalmente da Legião de Maria e “o encontro fraternal das famílias do bairro do Melo. Faz-se leilão, organizam-se pequenos jogos para unir as famílias. O dinheiro apurado fica sob a responsabilidade de um tesoureiro e uma tesoureira para melhoramentos no bairro”199.

Convém salientar o conteúdo do discurso religioso destes encontros, já impregnado de uma visão mais conciliar,

A pregação está sendo feita no sentido de extinguir a ideia de efeitos mágicos das coisas sagradas da religião e de alimentar a ideia de renovação consciente da vida de cada um e da família para viver mais de acordo com a lei evangélica de doar-se livre e espontaneamente, digo conscientemente200.

Elementos da teologia que emerge dos documentos conciliares também são observados na visão que se queria impingir sobre a celebração eucarística. A este respeito, o

      

196

 CASTRO,G. M. A Renovação Pastoral da Arquidiocese de Montes Claros no Período Pós-Conciliar. Montes Claros, 2011. Entrevista concedida à Fábio Vieira de Souza.

197

 Secretariado Diocesano de Pastoral. Boletim Diocesano de Pastora l - Dez-1966, nº2, p.01. 

198  Ibid.  199  Ibid.  200  Ibid. p.02. 

jornal diocesano comenta, “a missa foi valorizada no sentido reunião do povo de Deus para significar e realizar a unidade visível da Igreja”201, uma novidade para a época.

Diante do exposto, não é demais afirmar que no imediato pós-concílio gotas de ensinamento conciliar respingavam de forma espaçada sobre este solo do árido sertão mineiro, pressagiando a primeva mais densa nuvem de doutrina do Concílio que pairou sobre esta Igreja local, a Primeira Assembleia Diocesana de Pastoral.