• No results found

O coeficiente da variável estado_civil é positivo, indicando que estar casado impacta positivamente a renda. Porém, este impacto, que no Modelo 1 é de 14,3%, é significativamente diferente para mulheres e homens, quando abordados separadamente. Os homens têm um prêmio na renda de aproximadamente 18% quando casados, ao passo que para as mulheres este valor é de 8,3%.

Destacando inicialmente o caso masculino, que é o mais “beneficiado” na renda devido ao casamento, Hewitt et al. (2002, p. 3) afirmam que o consenso geral na literatura é que, controlando para variáveis observáveis, homens casados são mais produtivos que os não casados. Ainda segundo os autores, duas explicações principais para esta diferença de produtividade emergiram na literatura: um efeito de seleção, no qual características não observáveis, que são valorizadas no casamento, também são valorizadas no mercado de trabalho; e o chamado argumento da especialização, o qual afirma que as mulheres acabam se especializando nos afazeres domésticos, já os homens, por sua vez, se especializam no mercado de trabalho.

Para as mulheres, ainda segundo Hewitt et al. (2002, p. 4), o relacionamento entre casamento e renda é mais complexo. Há evidências que o casamento pode elevar a renda das mulheres, porém, esse padrão é impactado de negativamente pela maternidade.

34 Desta forma, pode-se perceber que a desigualdade de gênero nas relações domésticas, evidenciado pela mulher ser encarregada de grande parte dos afazeres domésticos, acaba por servir de insumo para a desigualdade de renda entre os gêneros.

4.3.4 Variável parda_preta

O coeficiente da variável parda_preta possui sinal negativo, fato que ratifica a existência de desigualdade racial no mercado de trabalho. O Modelo 1 mostra que ser pardo ou preto, no Brasil, implica em ganhar, em média, 18,2% a menos que uma pessoa branca.

Assim como na análise descritiva, a presença de desigualdade racial não parece agravar ou suavizar a desigualdade de gênero. Os Modelos 2 e 3 mostram um impacto negativo na renda de 17,9% para as mulheres e de 17,6% para os homens, respectivamente.

A desigualdade racial no Brasil é um tema muito relevante e bastante explorado através de diversos estudos, com objetivo de determinar seus fatores e buscar políticas e ações para reduzir este preocupante quadro. Porém, a cor ou raça parece não ter impacto relevante na desigualdade de gênero.

4.3.5 Variável emprego_protegido

O coeficiente da variável emprego_protegido possui sinal positivo, fato que condiz com o senso comum de que empregos formais, com melhores direitos e maior estabilidade, possuem salários mais elevados quando comparados aos demais trabalhos.

O Modelo 1 mostra que trabalhadores enquadrados na categoria “emprego protegido” ganham, em média, 24,2% a mais que os demais. Ao interpretar os coeficientes dos Modelos 2 e 3, é possível observar que as mulheres possuem contribuição relevante para a renda quando estão empregadas em trabalhos categorizados como “protegido”. Neste caso, ganham 38,3% a mais, enquanto para os homens o valor é de 12,9%.

Observando de outra forma, as mulheres que estão em empregos fora dessa categoria, ou seja, com menos direitos trabalhistas e baixa estabilidade, recebem salários bastante inferiores aos dos homens nas mesmas condições. Assim, pode-se inferir que a desigualdade de gênero no mercado de trabalho é acentuada nos casos em que há menos direitos, ou seja, justamente quando há maior fragilidade do trabalhador.

4.3.6 Variável anos_estudo

O coeficiente da variável anos_estudo possui valor positivo, o que é esperado. Pois, quanto maior o nível de educação, maiores são as chances de conseguir empregos com melhor remuneração.

Pelo Modelo 1, cada ano a mais de estudo eleva, em média, em 9,3% a renda. Para o caso de mulheres e homens, separadamente, os valores são de 9,5% (Modelo 2) e 8,9% (Modelo 3), respectivamente. Desta forma, o aumento recente do nível de escolaridade das mulheres contribuiu de forma decisiva para a redução do gap de gênero.

Como visto no capítulo anterior, e também verificado em diversos trabalhos com dados da PNAD, a escolaridade das mulheres é, em média, maior que a dos homens. Este fator foi um dos que contribui para o crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho.

4.3.7 Variável afazer_dom

Esta variável, que retrata se o indivíduo realiza ou não afazeres domésticos, tem impacto relevante na desigualdade de gênero. No Modelo 1, as pessoas que afirmam realizar afazeres domésticos têm uma renda, em média, 7,8% menor do que aquelas que afirmam o contrário. Porém, os resultados mais interessantes desta variável estão nos Modelos 2 e 3; uma mulher que realiza afazeres domésticos tem uma renda 19,7% inferior àquela que afirma não fazer, já no caso dos homens, esta diferença é de apenas 3,4%.

Como demonstrado no capítulo anterior, quase a totalidade das mulheres afirma realizar afazeres domésticos, ao passo que apenas metade dos homens o fazem. Mais grave que esta constatação, é que o tempo médio gasto por elas, neste tipo de atividade, é quase o dobro do gasto por eles. Estes fatos ajudam a explicar a diferença no coeficiente dos modelos.

Os afazeres domésticos têm um impacto elevado na rotina das mulheres e, consequentemente, no seu trabalho remunerado. No caso dos homens, quando realizam este tipo de atividade, dedicam apenas uma pequena parte do seu tempo.

O grande dispêndio de tempo das mulheres em afazeres domésticos implica em menor tempo para dedicação à sua carreira profissional, muitas das vezes escolhendo empregos que possuam carga horária reduzida e maior flexibilidade, para comportar a pesada carga de trabalho doméstico. Este fator contribui diretamente para uma menor renda das mulheres quando comparada aos homens.

36

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo contribuir para a importante discussão da desigualdade de gênero no mercado de trabalho brasileiro, na qual a realidade ainda é muito desfavorável às mulheres. Segundo o relatório do Fórum Econômico Mundial (2018) sobre a desigualdade de gênero em 2018, no ritmo atual, seriam necessários 202 anos para o fim do gap de gênero no mundo. A literatura sobre este tema, que tem aumentando de maneira relevante, procura auxiliar na obtenção, de forma mais rápida, a desejada igualdade entre homens e mulheres.

Com base nos dados da PNAD de 2015, foi possível obter um panorama da desigualdade de gênero no mercado de trabalho brasileiro, verificada a partir da diferença entre as rendas de homens e mulheres.

O estudo baseou-se em estatísticas descritivas e, principalmente, nos modelos de regressão. Através destes modelos, foi possível comparar os fatores que determinam a renda de homens e mulheres, de forma entender seus impactos para a perpetuação do gap de gênero.

A variável dummy para mulher mostrou que elas ganham, em média, 37% menos que um homem, controlando para as demais variáveis. O fato delas ganharem menos que eles é amplamente conhecido na literatura e não exclusivo ao caso brasileiro.

Pelos modelos, a região e raça não são fatores substancialmente relevantes para a desigualdade de gênero no mercado de trabalho nacional. Quando é analisado um fator de qualidade do trabalho, determinado pela categoria “emprego protegido”, foi observado que as mulheres, quando comparadas aos homens, encontram-se em situação ainda pior quando estão em empregos mais vulneráveis.

Com relação à escolaridade, as mulheres possuem, em média, níveis mais elevados que os homens, o que é uma boa sinalização de que fatores que contribuem para a desigualdade de gênero no mercado de trabalho podem ser superados.

O gap de gênero parece aumentar quanto maior é a idade dos indivíduos. Dois fatores podem ser apresentados como parte da explicação, o primeiro relacionado à ocupação de cargos de chefia e o segundo referente ao nível de escolaridade entre as gerações de mulheres. Com relação ao primeiro fator, é observado que as mulheres, por razões alheias à meritocracia, ocupam menos cargos de chefia ou gerência e, desta forma, a partir de certo

estágio da carreira, descolam do salário dos homens por não atingirem postos mais altos. Já com relação ao segundo fator, com o maior acesso das mulheres à educação nas últimas décadas, as novas gerações femininas passaram a ter maior nível de instrução, em média, quando comparadas às antigas gerações. Desta forma, as gerações mais novas, com maior grau de estudo, estão no mercado de trabalho em empregos de melhor remuneração, quando comparadas as gerações femininas mais antigas, que ainda têm relevante concentração em trabalhos que necessitam de menor grau de instrução e consequentemente possuem menores salários.

No que tange o estado civil, os homens parecem se beneficiar mais do fato de estarem casados do que as mulheres. Para eles, estar casado implica, quando comparados aos solteiros, a 18% a mais de renda (em média), enquanto para elas este valor é de 8,3%. A diferença estaria na maior produtividade dos homens casados quando comparados aos solteiros, com duas explicações podendo justificar esta diferença: a primeira está relacionada a um efeito de seleção, em que características não observáveis, que são valorizadas no casamento, também os são no mercado de trabalho; já a segunda seria relativa à um efeito de especialização no casamento, no qual as mulheres estariam mais envolvidas nos afazeres domésticos e no cuidado dos filhos, enquanto os homens se especializariam no mercado de trabalho.

Ao analisar os afazeres domésticos, ficou constatado que as mulheres continuam sendo as maiores responsáveis por realizar tais tarefas. Nove em cada dez mulheres afirmam realizar afazeres domésticos, enquanto para os homens este número é de cinco a cada dez. Mais grave que este dado, é a diferença nas horas dedicadas a este tipo de atividade; as mulheres dedicam praticamente o dobro de horas que os homens. Este fato acaba impactando diretamente a renda, e os modelos retratam essa constatação: mulheres que afirmam realizar afazeres domésticos têm renda, em média, 20% inferior às que afirmam não realizar, já para os homens este valor é baixo, apenas de 3,4%.

Um fator recorrente identificado foi a divisão do tempo das atividades não remuneradas - representadas pelas tarefas de casa - entre homens e mulheres. A sobrecarregada nas mulheres acaba por pressioná-las a dedicar menos tempo ao mercado de trabalho e prejudicando-as na competição com os homens em certos tipos de empregos. Esta visão é ratificada pela Internacional Labour Organization (ILO) (2018, p. 12):

38 […] the overwhelmingly unequal demands that women face with regard to household and care responsibilities continue to manifest themselves as labour market inequalities in terms of the types of jobs which women can both access and in which they can enjoy sustained employment.

Uma mudança de mentalidade sobre as responsabilidades domésticas, equilibrando o tempo gasto nestas atividades, parece ser essencial para uma redução das desigualdades de gênero observadas no mercado de trabalho brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AYARZA, S. Mulheres e o mercado de trabalho: os desafios da igualdade. Disponível em: <https://www.thinkwithgoogle.com/intl/pt-br/tendencias-de-consumo/mulheres-e-o-mercado- de-trabalho-os-desafios-da-igualdade/>. Acesso em 1 jun. 2019.

FÓRUM ECONOMICO MUNDIAL. Insight Report: The Global Gender Gap Report 2018. Genebra, 2018. 367 p.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Os ganhos econômicos da inclusão de

gênero: bem maiores do que você imaginava. Washington, 2018. Disponível em:

<https://www.imf.org/pt/News/Articles/2018/11/28/blog-economic-gains-from-gender- inclusion-even-greater-than-you-thought>. Acesso em: 5 jun. 2019.

HEWITT, B.; WESTERN, M.; BAXTER, J. Marriage and Money: The Impact of Marriage on Men’s and Women’s Earnings. Negotiating the Life Course Discussion Paper Series, Discussion Paper DP-007. Brisbane, 2002. 33 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Conceitos e definições.

Rio de Janeiro, 2014. Disponível em:

<https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabal

hoerendimento/pnad_continua/primeiros_resultados/analise01.shtm>. Acesso em 4 jun. 2019. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas de Gênero: Indicadores sociais das mulheres no Brasil. Rio de Janeiro, 2018. 13 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa nacional por

amostra de domicílios: síntese de indicadores 2015. Rio de Janeiro, 2016. 108p.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Ipea Extrator de Dados. Brasília, 2014. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/extrator/bases.html>. Acesso em 4 jun. 2019.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Retrato das Desigualdades de

Gênero e Raça – 1995 a 2015. Brasília, 2017. 5 p.

INTERNATIONAL LABOUR OFFICE. World Employment and Social Outlook: Trends for Women 2018 – Global snapshot. Genebra, 2018. 14 p.

KLEVEN, H.; LANDAIS, C.; SØGAARD, J. E. Children and Gender Inequality: Evidence from Denmark. NBER Working Paper No. 24219, National Bureau of Economic Research. Cambridge, 2018. 57 p.

KLIFF, S. A stunning chart shows the true cause of the gender wage gap. Disponível em: <https://www.vox.com/2018/2/19/17018380/gender-wage-gap-childcare-penalty>. Acesso em 1 jun. 2019.

LAVINAS, L. Empregabilidade no Brasil: inflexões de gênero e diferenciais femininos. Ipea, texto para discussão nº 826. Rio de Janeiro, 2001. 29 p.

MCKINSEY GLOBAL INSTITUTE. The Power of Parity: How Advancing Women’s Equality Can Add $12 Trillion to Global Growth. Nova York, 2015. 168 p.

40 MEDEIROS, M.; PINHEIRO, L. S. Desigualdades de gênero em tempo de trabalho pago e

não pago no Brasil, 2013. Revista Sociedade e Estado, Volume 33, Número 1, Janeiro/Abril

2018. 28 p.

VANDENBROUCKE, G. Married Men Sit Atop the Wage Ladder. Economic Synopses, Federal Reserve Bank of St. Louis. Saint Louis, 2018. 2 p.

42