Esta seção apresenta a estatística descritiva dos respondentes, ou seja, dos pescadores entrevistados em Barrinha e Redonda. Ao todo, foram realizadas 16 entrevistas com os pescadores das comunidades investigadas, assim distribuídas: sete em Barrinha; e nove em Redonda.
A idade dos respondentes variou entre 19 a 73 anos, ficando a média de idade em 47 anos. Distribuindo os respondentes em seis classes etárias, 6,25% (1 pescador) encontra-se entre 0 e 19 anos; nenhum pescador na faixa entre 20 e 29 anos foi entrevistado; 25% dos entrevistados situam-se entre 30 e 39 anos; 18,75% foram encontrados igualmente nas faixas de 40 e 49 anos e 50 e 59 anos; e 31,25% dos pescadores ficaram na classe de 60 anos de idade ou mais (GRÁFICO 1). Esses resultados estão em consonância com a estatística nacional para o setor (MPA, 2010) que revela que mais da metade dos pescadores do Brasil têm 40 anos de idade ou mais.
Gráfico 1- Distribuição das classes etárias dos pescadores entrevistados em Icapuí
Com base nas respostas dos pescadores, o tempo de atuação na pesca variou de 3 a 52 anos, equivalente a um tempo médio de atuação de 30 anos por pescador. Distribuindo os pescadores em seis classes quanto aos anos de atuação, verificou-se um percentual igual de pescadores (25%) com atuação por até 19 anos e também na classe de 20 a 29 anos de atuação (25%). Um percentual de 18,75% foi constatado entre 30 a 39 anos de atuação bem como na classe entre 40 e 49 anos. Apenas dois pescadores atuavam a mais de 50 anos na pesca, o que corresponde a 12,5% (GRÁFICO 2).
Gráfico 2- Tempo de atuação na pesca dos pescadores entrevistados em Icapuí
Fonte: Elaborado pela autora, 2013
O gráfico acima teve as duas primeiras faixas (0-19 e 20-29 anos de atuação) predominantemente ocupadas pelos mergulhadores de Barrinha que geralmente são adultos, mas não tão idosos quanto os experientes pescadores encontrados em Redonda (que são mais numerosos nas faixas de atuação entre 40-49 e 50 anos ou mais).
Em geral, o pescador tem um longo tempo de atuação na pesca pelo fato do mesmo depender fortemente dos recursos pesqueiros para garantir a subsistência de sua
família e, particularmente, como a única forma de geração de renda no município. Como ficou evidente durante a pesquisa, essa dependência é intensificada em função do número elevado de dependentes residindo no mesmo domicílio, que em alguns casos abrangem esposa, filhos, noras, genros e até mesmo netos. Porém, na atualidade, observa-se desinteresse dos jovens pela atividade (essa característica é mais fortemente observada em Redonda), que pode ser motivado pelo surgimento de novos postos de trabalho em outros setores que oferecem maior retorno financeiro como também pelo próprio declínio da atividade pesqueira em termos financeiros. (SALLES, 2011).
Em Redonda, a forma de aprendizagem do ofício pelos jovens se dá, tradicionalmente, através da transmissão de conhecimentos de pai para filho, como se pode constatar pelos dados levantados: dos nove entrevistados, 100% aprenderam o ofício com o próprio pai. Este resultado está em conformidade com o apresentado por Borgonha (2008) que detectou nas comunidades marítimas da Caponga (também no litoral leste) uma tendência dos precedentes familiares influenciarem as crianças na escolha da atividade.
Enquanto, em Barrinha, percebeu-se que o jovem pescador ingressa na profissão não necessariamente através da influência do pai, como os dados mostram: dos sete entrevistados, quatro (57,14%) aprenderam com amigos e/ou por vislumbrarem a possibilidade de maiores ganhos financeiros e os três restante, seguiram a tendência de influência dos precedentes familiares encontrados em Redonda. Para ratificar o primeiro resultado apontado em Barrinha, trouxemos o caso de um funcionário público da Prefeitura de Icapuí, que a partir de conversas com pescadores de lagosta, decidiu ingressar na atividade para obter uma renda extra, levando-o a ingressar na pesca como “mangueireiro” (operador de mangueira na lancha de pesca de lagosta) já aos 30 anos de idade além de ter aprendido o ofício com os mesmos colegas pescadores que lhe informaram sobre a lucratividade da atividade, “quando realizada com mergulho e compressor” – ênfase dada por ele mesmo. Dados similares foram encontrados por Burda (2007), ao estudar os pescadores da costa do Itacaré (BA), onde pôde observar que dentre os pescadores estudados, 40% aprenderam a pescar com os pais, 30% sozinhos e os demais aprenderam com amigos e /ou familiares.
De forma geral foi possível perceber diferenças com relação ao perfil dos pescadores das comunidades estudadas. Essas diferenças estão relacionadas com a estrutura da moradia, com o nível de vida e com aspectos culturais. Em Barrinha observou-se que as casas são mais estruturadas, com melhor acabamento, embora ambas as comunidades pesquisadas possuam praticamente os mesmos bens duráveis como televisão, geladeira, fogão e móveis.
Em Redonda, principalmente entre os meses de agosto a dezembro, que correspondem aos cinco últimos meses permitidos para a pesca da lagosta, constatou-se uma queda brusca nos níveis de vida da população em geral, pois não há seguro defeso e nem lagosta suficiente nesse período, ficando então os pescadores sem renda para suprir as necessidades básicas da família. Os ventos fortes também impossibilitam a pesca nesse período para embarcações à vela. Durante as viagens de campo, verificou-se que nesse período a comunidade de Redonda fica com uma atmosfera “sombria”, sem movimentação de turistas e com diversos moradores fazendo uso de álcool e outras drogas. Já entre os meses de janeiro a julho, as férias, o recebimento do seguro defeso, as pescarias de peixes incrementam a renda da comunidade e movimentam o comércio. Enquanto em Barrinha essa diferença no nível de vida entre os meses de defeso e pesca não são tão percebidas porque, de acordo com os entrevistados, mesmo durante o defeso alguns pescadores vão para o mar. Além disso, outras atividades produtivas são exercidas como a coleta de algas e serviços gerais.
No âmbito cultural as duas comunidades revelam-se também diferentes: Barrinha mostra-se mais aberta as novas tecnologias, isso pode ser verificado nos instrumentos utilizados nas pescarias, nos grupos de jovens que fazem uso do celular e internet, nos restaurantes e lanchonetes mais movimentados. Já em Redonda observa-se uma comunidade mais tradicional, com comércio marcado por pequenas mercearias e barracas de praia.