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A aproximação entre ambos os domínios se daria inicialmente pelo interesse de psiquiatras pela vivência mediúnica, que foi encarada por algumas vertentes dentro da Psiquiatria como uma realidade religiosa que deveria ser levada em consideração. Para ilustrar esta questão podem ser citados alguns autores pioneiros da área da Psicologia, da Psiquiatria e da Psicanálise, como Pierre Janet (1859-1947), William James (1842- 1910), Frederic W. H. Myers (1843-1901), Sigmund Freud (1856-1939) ou Carl Gustav Jung (1875-1961), que seriam grandes precursores neste campo e que chegaram a pesquisar sobre a questão da mediunidade (Almeida & Lotufo Neto, 2004). Os autores atentam, no entanto, que apesar do fato de a mediunidade ter sido um tema de interesse por estes importantes precursores da área mental, não havia um consenso entre suas perspectivas. Dessa forma, separam as diferentes posições teóricas da seguinte maneira:

Janet e Freud associaram mediunidade com psicopatologia e a uma origem exclusiva no inconsciente pessoal. Jung e James aceitavam a possibilidade de um caráter não-patológico e uma origem no inconsciente pessoal, mas sem excluírem em definitivo a real atuação de um espírito desencarnado. Por fim, Myers associou a mediunidade a um desenvolvimento superior da personalidade e tendo como causa um misto entre o inconsciente, a telepatia e ação de espíritos desencarnados. (Almeida & Lotufo Neto, 2004, p. 132).

Conforme os autores apontam no trecho, as diferentes perspectivas e teorias em torno da mediunidade resultam em posicionamentos variados frente ao fenômeno espírita, por vezes se mantendo em uma posição mais próxima da visão biomédica, ou considerando outros elementos possíveis, como o inconsciente e até a ação de espíritos. No cenário brasileiro, a tese de Brasílio Marcondes Machado é apenas uma das obras identificadas dentro do ambiente acadêmico que buscavam dialogar com o Espiritismo. As primeiras posturas que se diferenciavam dentro da Psiquiatria denotam a incorporação de saberes das ciências humanas, notadamente da Antropologia. A cura

70 como objeto de estudos, segundo Rabelo (1994), ganha importância na literatura antropológica na medida em que vem sendo conferido o devido reconhecimento para o papel dos cultos religiosos na interpretação do tratamento da doença. Os aspectos positivos apontados pela autora, genericamente, são a atribuição de um significado em um todo coerente configurado pela crença, além da consideração pelo contexto em que a pessoa está inserida. Conforme foi mencionado anteriormente, na terceira escola, podemos ver esse movimento dentro da Medicina. Neste aspecto é possível delinear uma aproximação, ao menos em uma tentativa de compreender o fenômeno religioso a partir de um modelo que não o trata como uma problemática, mas buscar entender as causas multideterminantes de sua manifestação.

No que tange o Espiritismo, podemos encontrar em Almeida (2007, p. 97), que: “Muitas teorias desenvolvidas pelos espíritas tinham pontos de contato com a Psiquiatria: as relações mente-corpo, a causas da loucura, bem como seus modos de tratamento e prevenção.”. O fato de o Espiritismo possuir em sua doutrina a característica de valorizar a ciência permitiu com que esses elementos pudessem ser incorporados facilmente. Neste sentido, também vale considerar o papel de muitos médicos espíritas, que buscam conciliar as duas áreas, ainda que sejam vozes isoladas dentro da Medicina. Por fim, os espíritas viriam a desenvolver sua própria etiologia da loucura que seria definida dentro de uma “Psiquiatria Espírita”, conforme será mais bem descrita no tópico seguinte.

A análise das fontes permitiu observar o interesse espírita pelas diferentes teorias defendidas pelas Ciências da Psique. Um texto que demonstra o interessa da abordagem psicológica utilizada pela Medicina aponta uma notícia internacional, em que a Associação Médica Britânica confere respeitabilidade ao Hipnotismo (Reformador, julho, 1955, p. 155). Além disso, a utilização de termos que remetem à Psicopatologia demonstra o interesse na busca de compreender ou explicar as doenças mentais. Os termos que surgiram mais comumente foram: psicologia patológica, doenças psíquicas, psicopatologia, neurose, neurótico, psicossomático, patologia mental, psicoses, perturbações mentais, psicopatias, distúrbios psíquicos, psico-neuroses, doença mental, perturbação psíquica, sofrimento nervoso, histeria, histérica, psicoses, neurose-histérica, neuropsicose.

71 Desta forma, é possível associar a relação de médicos espíritas, ou interessados pelo conhecimento de doenças psíquicas. Neste ponto, também é interessante notar a busca de uma explicação espírita para doenças mentais, como o caso do texto que aborda a esquizofrenia e a licantropia. Apesar de estarem dentro de um domínio da Psicopatologia, vemos a forte correlação com a ciência psicológica devido ao fato de buscarem uma etiologia da doença. Um texto do Jornal Unificação, de autoria de Sérgio Vale, aborda sobre a esquizofrenia. O autor fala sobre o interesse da Psiquiatria pela fase aguda da doença, as formas de tratamento aplicadas e critica a utilização de modelos organicistas de Kraepelin e Kretschmer, e aos psiquiatras que não consideram a correlação entre o físico e o psíquico. Salienta a necessidade de serem estudados os fenômenos anímicos e espíritas e cita o caso do médico Dr. Carl Wickland, nos Estados Unidos, e Dr. Inácio Ferreira, no Brasil. Destaca ainda a necessidade dos psiquiatras compreenderem a Psicologia, e menciona as hipóteses de Bergson e Alexis Carrel (Jornal Unificação, 13º edição, abril, 1954, p. 2). A licantropia é abordada no Reformador, iniciando a discussão através da obra “Libertação” do espírito André Luiz (Reformador, janeiro, 1950, p. 7).

Um texto aponta para a importância dos caminhos abertos pelo Espiritismo e Metapsíquica para a Medicina. Referindo-se ao comentário do professor Dr. Vicente Lapiccirella no periódico La Razon, o texto sintetiza e compreende tal conteúdo da seguinte forma: “[...] que a maior parte das alterações físicas, os males duodenais, a angina do peito e as neuroses são originadas de perturbações e inquietudes e de perturbações funcionais do psíquico.”, e prossegue, afirmando que [...] a etiologia das anomalias patológicas se radica no espírito” e sobre a necessidade da visão integral do doente (Reformador, março, 1956, p. 60). Cita ainda o exemplo do médico Gustave Geley, que sustenta a mesma ideia em sua obra “Do Inconsciente ao Consciente”, no qual faz uma crítica à fisiologia clássica, e dá importância ao psicossomático. E, por fim, faz uma crítica às outras escolas psicanalistas (Freud, Adler e Steckel) baseados no materialismo e não admitindo a concepção de Geley.