Kapittel 4: Resultater
5.3 Utkrystallisering av filmer med Al-F-glutarsyre
Foto: Carina Bernini
Essa situação foi agravada ainda mais quando da criação do PEJ, em 1968, cuja área se sobrepôs a praticamente todo território tradicionalmente ocupado pelas comunidades quilombolas. No quilombo Ribeirão Grande conversei com o Sr. Jaldir de Pontes Maciel, neto de Miguel de Pontes Maciel, e casado com Nadir Ursolino de Moura, neta do Leôncio Pedro de Moura e bisneta de Pacífico Morato de Lima. Seu Jaldir nos forneceu detalhes a cerca da diminuição de terras disponíveis para a realização do sistema de capovas. Na sua avaliação a criação do Parque Jacupiranga interferiu diretamente na forma de apropriação da terra já que as famílias foram diminuindo o rodizio e o pousio das roças e se fixando em determinados lugares. Para ele, além do aumento da quantidade de pessoas nas comunidades, a interferência do parque impediu que as famílias pudessem voltar às áreas manejadas anteriormente (e que estavam em pousio) e isso levou a divisão das terras mais utilizadas (com capoeira fina, ou média) entre cada família. Segundo ele, nos tempos de seu pai e de seu avô, as terras não eram rigidamente divididas sendo que um trabalhava na área do outro.
192 A criação de porcos também dependia dessa disponibilidade de terras, e o fim gradual dessa criação está associado à diminuição da disponibilidade de terras para a prática das capovas. Seu Jaldir nos relata que na época mais antiga os porcos tinham mais espaço para pastarem, já que eram criados soltos, e não havia perigo de danificarem a roça de vizinhos. O adensamento das famílias acabou inviabilizando essa prática. Celina Carvalho, no RTC da Pedra Preta chamou a atenção para o fato de que a criação de porcos retrata o uso comum dos territórios quilombolas, uma vez que determinadas áreas apropriadas privadamente, eram usadas de forma coletiva quando a criação estava na tiguera.
Quando há criação de gado, seja de grande ou de pequeno porte, sempre há o risco de que os animais de determinada família invadam e destruam as roças de seus vizinhos, em detrimento das boas relações dentro do grupo. Para que isso não ocorresse, havia um acordo, entre as famílias, sobre a escolha dos lugares para a criação. Em geral, as áreas eram contíguas, e, quando havia necessidade de mudança de lugar, todos deveriam mudar-se ao mesmo tempo (...). A criação de porcos exigia um comum acordo sobre o ritmo de alternância das áreas de criação e de roçado para que “um não estorvasse o outro”. Assim sendo, áreas apropriadas por determinadas famílias, às vezes eram cedidas para o uso coletivo, e voltavam à apropriação privada quando entravam em pousio. (CARVALHO, 2008)
Jaldir (informação pessoal)115 também expressou um descontentamento em relação à criação do parque uma vez que, na sua percepção, ele foi criado à revelia da população que morava nessas terras, prejudicando as comunidades que sempre viveram a partir do manejo dessas matas.
Carina: O que aconteceu pra diminuir o tamanho da área?
Jaldir: é que na verdade minha irmã casou, meu irmão casou, outra irmã casou, devagarinho, devagarinho... então o terreno era grande,
115
193 mas cada um foi pegando um pedaço e isso diminuiu o que tem, quer dizer ajustou mais né, a minha família do meu pai foi dividido, a família do meu tio foi dividido, do outro tio foi dividido, então essa área era grande quando era 5 pessoas, 10, dai tinha espaço, mas ai juntou bastante família, foi dividindo, ficou pequeno. Outra coisa, esse parque criou em cima de nós, que é a área onde meu pai trabalhava, meu tio trabalhava, meu avô trabalhava, meus tios tudo trabalhava, o parque criou em cima de nós aqui.
Carina: e isso... quando criou o parque...
Jaldir: era o lugar que eles trabalhavam, né, um fazia pra lá, outro pra cá, ai o parque criou lá e passou a não poder fazer e nós viemos aqui nesse local.
Carina: e quando criou o parque o senhor lembra?
Jaldir: eu lembro, o parque criou em 1968, final de 1968-69.
Carina: como que foi essa notícia, o que foi falado, o senhor lembra? Jaldir: eu lembro muito pouco, mas uma parte eu lembro. Foi assim: quando meus pais quiseram recordar o parque já estava em cima, ai não tinha como afastar porque as leis hoje, chega os governante chega e faz as leis lá, quando eles chega já chega com tudo preparado a coisa e pegam as pessoas no pulo, isso que aconteceu. Porque a gente não sabe o que os governantes estão fazendo lá fora. Eles aprontam o pacote certinho, quando chega pau pra cima do povo, o povo cai naquela, quer sair fora, mas não tem como sair fora porque já está assinado o documento. Quem acabou se ferrando, perdendo, foi nós, a população, os pequenos.
Carina: e quando criou esse parque ainda não estava dividida a área de vocês?
Jaldir: não. Trabalhava assim: meu pai trabalhava na área do irmão dele, trabalhava na área do outro, não tinha esse negócio. Naquele lugar lá que eu estava trabalhando, fazer roça esse ano, pode entrar lá, não tinha esse negócio democracia, sabe. Não tinha divisão, tudo conjunto assim, sabe.
Carina: ai quando criou o parque...
Jaldir: diminuiu, né. Ai cada um foi achando o seu lugar pra ficar definido. Teve que diminuir o rodízio por modo da criação do parque.
194 Sobre o modo de vida das comunidades quilombolas Jaldir descreveu o sistema de trabalho baseado na troca de dias e no mutirão (ou puxirão). O primeiro consiste em solicitar a ajuda de um ou mais camaradas para o trabalho na roça (plantio, colheita etc.) e, em outro dia, este que solicitou fará o mesmo na área daquele(s) que o ajudaram. O mutirão acontece quando se reúne uma turma grande de pessoas para o trabalho na roça de alguém e este, o anfitrião (que recebeu a ajuda) oferece café, almoço e um baile no final do trabalho. Essas práticas de ajuda mútua, mesmo com as transformações que ocorreram no território quilombola, ainda são muito presentes no cotidiano das famílias de Ribeirão Grande, Terra Seca, Cedro e Pedra Preta (fotos 2, 3 e 4). A troca de dias é mais utilizada para semear, colher, carpir uma área, e o mutirão, como agrega bastante gente, é usado para a limpeza de pasto e mesmo de roça.