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Utkommet i serien sosiale og økonomiske studier (SOS)

Mais uma vez entra em cena o confronto entre o homem branco da cidade e o caipira, agora de pele negra por meio do discurso direto. O primeiro é um grã- fino bem arrumado que ao seu olhar não encontra ninguém que tenha trocado. Pelo seu discurso sabemos que ele acredita que somente um político poderia dispor da quantia que ele almejava. Por isso o emprego do ditado popular desse mato não sai coelho para comprovar sua tese : como um trabalhador, à custa do

suor e da honestidade, conseguiria tanto dinheiro? O ditado popular, considerado como verdade incontestável pelo povo, é uma estratégia na elaboração da cena, de modo que conquiste a adesão do co-enunciador Conforme Maingueneau (2001:169)

a enunciação proverbial é fundamentalmente polifônica; o enunciador apresenta sua enunciação como uma retomada de inumeráveis enunciações anteriores, os de todos os locutores que já proferiram aquele provérbio.

Por outro lado, o enunciador utiliza-se de um recurso que desbanca o grã- fino: as pessoas não são o que parece, embora a cena, no início dos versos, nos induz a compartilhar do mesmo pensamento que o grã-fino, pois o caipira negro entra em cena de modo humilde, mal vestido, todo amarrotado.

Todavia, não nos chega a surpreender, pois o fato de sabermos que estamos diante do gênero música de raiz faz com que antecipemos a outra cena. O discurso da letra de raiz, nesse sentido, não apresenta muitas inovações na sua composição, muitas vezes tornando óbvio o seu desfecho. Outra característica é a maneira como esse discurso lida com o improvável, segundo Sant’Anna (2000), em que há uma relação com o místico que nos conduz ao sonho, pois seus argumentos não são consistentes.

O discurso do caipira coloca em questão também o elemento terra como fonte de trabalho, e como o chão natal. A metáfora da nota vermelha de terra é para mostrar que o campo mantém o sustento do país, assim como no discurso de

A caneta e a enxada. O seu convite ao grã-fino para assumir o serviço na enxada

e na lida com o gado, num tom de ironia, visa ressaltar o trabalho forte e braçal, em oposição àquele que ganha a vida sentado como o político.

A terra, nos versos finais, é louvada fazendo desaparecer seu valor de troca, pois ela é o berço do caipira que pretende retornar para lá. Sant’Anna (2000) afirma que não são poucas as louvações da terra como a geratriz primordial que é responsável pelo surgimento de todas as criaturas. E cita como exemplo a mitologia grega e a passagem da bíblia, na qual diz que nascemos da terra e voltaremos para ela. Esse desejo, conforme vimos, fica evidente no discurso Saudades da minha terra.

A interdiscursividade é muito presente no discurso das letras de música de raiz, pois, como se vale da oralidade, ela capta tudo isso mesmo sem saber a

autoria e incorpora à sua realidade. É por meio da interdiscursividade, que observamos os conflitos sociais e ideológicos que emergem dos espaços discursivos.

3.6.4. Ethos discursivo

O discurso do grã-fino tem um tom de arrogância, preconceito e ironia em relação ao caipira. O carro de luxo o faz ostentar o poder que tem desmerecendo todos que ali estão no restaurante. Tal fala é confirmada com o ditado popular.

O caipira é o negro humilde, mal vestido, porém virtuoso que tem educação, honestidade e é trabalhador. Ele tem dinheiro e grandes posses, embora não aparenta ter como o grã-fino. Ao retrucar o grã-fino, o caipira o ironiza no verso se na enxada tu for sacudido!

O co-enunciador, na realidade, pode considerar improvável a virada que o caipira dá porque não há uma explicação convincente para isso. O uso da hipérbole no discurso, que está nos números, como na quantidade do dinheiro, no número de pés de café, reforça a ideologia do enunciador, ou seja, de que as aparências enganam. Nesse sentido, percebemos que o discurso da letra da música de raiz não se preocupa com a veracidade dos fatos em si, mas com os valores que ele prega como verdade.

O ethos está vinculado à construção da cena, pois no discurso são

ressaltadas as qualidades do homem do campo que é trabalhador, forte, embora ele não seja reconhecido pelas demais camadas sociais. O enunciador repudia o

ethos do grã-fino, ao construir essa cena.

Por outro lado, o caipira, ao retrucar o homem citadino, deixa mostrar em seu discurso o ethos de um homem orgulhoso, que não aceita desaforo e que

também ostenta seu patrimônio. Instaura-se no discurso um tom de polêmica. Verificamos isso em outros discursos das letras analisadas, em que o caipira ao criticar o comportamento ou atitude do outro, comete a mesma atitude.

3.7. Análise do texto 6: Cruel destino

Helena era uma linda moça

Filho de um rico doutor, ai Adalto era um moço pobre Mas muito trabalhador Se amavam desde criança E cresceram naquele amor Pra Heleninha era só esse, ai Que aliviava sua dor,

Seu coração já estava entregue Pra’ quele botão de flor

No jardim que se encontravam Era o ponto acostumado Cada dia que passava Seu amor era dobrado

Sua mãe chamou e lhe disse Que seu pai tinha falado Que o casamento de Helena Breve ia ser realizado

Pra casar-se com um francês Um moço rico apreparado Coitadinha quando soube Que seu dia estava chegando Também se entristecendo Naquilo foi pensando Desprezaram meu amor, ai Querido de tantos anos

Com outro eu também não caso, ai Conseguiu naquele plano

Que casar com esse fulano Recolheu-se no seu quarto Com o revólver carregado Trazia uma carta escrita E muito bem explicado

Vou morrer porque não quero Ver outro moço do meu lado Me visto o vestido branco, ai Que eu aí tenho guardado Que era pro meu casamento Que papai tinha comprado A morte desta mocinha O mundo se balançou, ai O sofrimento de Adalto Só oito dias durou Ele foi no cemitério E na campa debruçou È meu derradeiro presente Ai, Heleninha

Que te dou

Cravou o punhal no peito Coração atravessou Dois coração que se une Deve ter amor igual, ai Senhores pai de família Note bem o tempo atrás Com o correr do mundo velho Quanto é que exemplo nos traz Obrigar um coração, ai

É coisa que não se faz O amor é como um vidro Se quebrar não sorda mais.