acerca do Mundo, na sua preocupação com a Verdade e a complexidade dos pontos de vista.
A seguir à entrevista, em três crónicas, concedida ao médico Alceu Amoroso Lima, já referenciada neste trabalho, em “Intervenção social e política”, é a vez de falar o grande poeta chileno Pablo Neruda, nas crónicas de 12 e 19 de Abril de 1969, o qual, não deixando de ser “extremamente simpático” (Ib.: 184), se recusou a responder a mais de três perguntas na noite em que foi visitado pela cronista em casa de Rubem Braga, prometendo, porém, maior colaboração se as perguntas lhe fossem dirigidas por escrito, o que acabou por acontecer, com respostas extremamente curtas.
Após o esboço da sua obra literária, desde Crepusculário a Estravagário, Navegações e Regressos, Cem Sonetos de Amor, Cantos Cerimoniais e Memo- rial de Isla Negra, a cronista apresenta essas respostas literais, sem qualquer comentário, limitando-se a uma breve conclusão, justificando não ter prolongado a entrevista, mesmo com respostas curtas, revelando ter recebido a oferta do livro Cem Sonetos de Amor, com amável dedicatória, e definindo o poeta chileno, que
se considerava “provinciano da América Latina” (Ib.: 185), com a contracapa do livro como um “retrato de corpo inteiro”: “Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor como uma vocação do homem e a poesia como sua tarefa” (Ib.: 187).
Com um sentido de humor característico e desconcertante, Neruda vai respon- dendo a perguntas variadas, sobre a angústia, o “estado de graça” na criação, a literatura brasileira, os seus poemas e os seus leitores, a crítica, o amor. Dessas respostas a mais construtiva terá sido a que se refere à “coisa mais importante no mundo”: “Tratar de que o mundo seja digno para todas a vidas humanas, não só para algumas” (Ib.: 186).
O músico Tom Jobim, que havia apadrinhado a escritora no lançamento do seu romance A Maçã no Escuro, tem a palavra em três crónicas de entrevista (3, 10 e 17 de Julho de 1971). Após a questão sobre a maturidade, é abordado o problema da falta de leitura, aproveitando a cronista para reafirmar a sua dedicação aos livros que escreveu “com amor, atenção, dor e pesquisa” (Ib.: 359), optando por uma escrita menos sobrecarregada de acção e mais centrada na sua repercussão no indivíduo. A propósito do fim a prazo da música e da literatura, segundo Henry Miller, a previsão é contestada por ambos, já que “o som da música é imprescindível para o ser humano e [. . . ] o uso da palavra falada e escrita é como a música” (Ib.). Sobre a morte, Tom fala de uma experiência que lhe revelou que ela não existe, assim como “não existe o eu nem o euzinho nem o euzão” (Ib.), acabando por confessar que teme “a morte 24 horas por dia” (Ib.). A propósito da reencarnação, apenas a entende como despojamento. A crítica à “arte de consumo”, fabricada por uma industrialização “que domina a espécie humana”, é verberada pelo entrevistado, ressalvando a necessidade de os artistas preservarem “a alegria do mundo”, mas sem alienação, lançando vivas a Niemeyer, Vila-Lobos e a ambos. O dilema da liberdade criadora do artista, em confronto com o público destinatário (“a linguagem das elites”, “que não existem no Brasil” versus a “vontade irreprimível de estar com o povo”) dilacera os interlocutores, os quais reconhecem “uma nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita” (Ib.: 361), sendo eles seus “legítimos representantes”, mas também “a liberdade total” (Ib.). A criação artística, o amor e a integridade da alma são, para Tom Jobim, o “mais importante do mundo” (Ib.: 63). A entrevista termina com o contraste entre “Velho Mundo, Europa e Estados Unidos”, os quais “estão completamente exauridos de temas, de força, de virilidade”, e o Brasil, que “apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados de alma” (Ib.).
O escritor, dramaturgo, humorista, desenhador, tradutor, jornalista e actor Millôr Fernandes (Milton Viola Fernandes, 1923-2012), lutador contra as arbi- trariedades do poder e amigo de Clarice, é entrevistado na crónica “Lucidez do
Absurdo”, de 28 de Abril de 1973. A conversa, começando sobre o espectáculo O Homem do Princípio ao Fim, encenado há anos, deriva da experiência do actor para a de escritor, à volta da “visão instantânea das coisas do mundo como na realidade são” (Ib.: 459), reconhecendo ele ter, “no meio da maior paixão”, “essa espécie de lucidez, [. . . ] a lucidez do absurdo” (Ib.: 460). Depois de se referir à dura infância que teve, fala da morte e da vida, do amor, o progresso na escrita e na vida, na bondade, na admiração por Vinicius de Morais.
Ecos de uma entrevista ao jornalista e escritor Marques Rebelo (Eddy Dias da Cruz, 1907-1973) são apresentados na crónica de 30 de Junho (“Um Roman- cista”), dois meses antes da sua morte. Depois da apresentação da sua obra e do seu pseudónimo literário, Clarice define-o como um persistente por disciplina, “sem esperar por inspiração” (Ib.: 467): “Para ele, reescrever é mais importante que escrever” (Ib.). Opina, em relação aos novos escritores, que “são ainda os mais velhos que estão conduzindo o barco” (Ib.). Responde, com humor, que na Academia Brasileira de Letras “marca passo para o mausoléu” (Ib.). Viver e escrever são os seus maiores prazeres: escrever “é o seu reduto de liberdade” (Ib.: 468), mas escrever “nunca traz amigos, no máximo traz alguns simpáticos desafetos” (Ib.). Acha, acima de tudo, que vale a pena “o preço alto que se paga na vida” (Ib.).
A entrevista com o teatrólogo e médico Pedro Bloch, na crónica de 17 de Novembro, encerra este bloco da cedência da palavra aos outros. A consciência de cidadania universal e a comunhão com o outro impressionam no testemunho deste entrevistado:
O que as pessoas chamam de minha bondade talvez seja a minha sintonia com o mundo. Sou coletivo. Tenho o mundo dentro de mim. Acho que todo ser humano tem uma dimensão universal, única, insubstituível. Por respeito a cada ser humano, em todos os cantos da Terra, e por gostar de gente, gostar de gostar, é que encontro em cada indivíduo o reflexo do universo. Desculpe, mas eu gosto até dos que não gostam de mim. Mas gosto dos que gostam (Ib.: 472).
A interacção entre a responsabilidade individual e a reconstrução do mundo, a aprendizagem com as crianças nas suas peças infanto-juvenis, o entendimento do amor como independente “da posse, do egocentrismo, da planificação, do medo de perder, da necessidade de ser correspondido” (Ib.: 473), o respeito à vida, a fé nos homens e na verdade, mais do que na bondade (“a verdade é a quintessência da bondade, a bondade a longo prazo” – Ib.), o acreditar em milagres são temas interessantes que o entrevistado sublinha:
Viver é expandir, é iluminar. Viver é derrubar barreiras entre os homens e o mundo. Compreender. Saber que, muitas vezes, nossa jaula somos nós
mesmos, que vivemos polindo as grades em vez de libertar-nos. Procuro descobrir nos outros sua dimensão universal e única (Ib.)
A Crónica Feminina, de Inês
Pedrosa – um outro olhar
Com Sophia aprendi a ler e a morrer. Com Agustina aprendi a viver e a escrever (Crónica Feminina, 2005: 395).
O amor dissolve em fumo qualquer escândalo, por mais estranho que ele surja aos nossos aparentes valores. O escândalo a que não se sobrevive é o da ausência de amor (Nas Tuas Mãos, 2005: 41).
Integrando-se no círculo dos novos escritores da década de 90, a escritora e jornalista Inês Pedrosa vem acrescentar à Literatura Portuguesa a voz femi- nina da contemporaneidade. A experiência do jornalismo e a trajectória literária acabaram por modelar uma sensibilidade estruturada na vivência da escrita e da realidade social, conferindo-lhe a narrativa empenhada, atravessada por um espírito indagador, comprometida com seu tempo: seja na consciência de uma memória cultural, nas discussões sobre género, na militância política, seja em qualquer assunto que diga respeito às relações humanas.
As suas obras reflectem o percurso e o amadurecimento dessa escritora que começou como jornalista em 1983, com um estágio em O Jornal, antes mesmo de se licenciar em Ciências da Comunicação, na Universidade Nova de Lisboa, em 1984.
Foi no Jornal de Letras, em 1984, que fez um “curso de jornalismo, de lite- ratura, de cultura, de vida” (Jornal de Letras, Agosto de 2002), onde se reunia
semanalmente com os colaboradores Augusto Abelaira, Eduardo Prado Coelho, Jorge Listopad e Fernando Assis Pacheco. Passaria, depois, pelo Independente, pelo Expresso, pela revista Ler e, finalmente, pela revista Marie Claire (entre 1993 e 1996), além de algumas experiências em rádio e televisão.
Inês Margarida Pereira Pedrosa nasceu em Coimbra, “mas só porque não havia maternidade em Tomar, que é realmente a minha terra” (Jornal de Letras, Junho de 2004: 44), em 15 de Agosto de 1962. Da professora primária, Virgínia Rodrigues, veio o amor pelos livros e do avô materno, Domingos Pereira, o grande incentivo literário: “contava-me a História de Portugal e declamava Camões enquanto me passeava de barco a remos no rio Nabão. Ele é o avô Matias no meu primeiro romance A Instrução dos Amantes (Jornal de Letras, Junho de 2004: 44). Após a sua morte, quando ela tinha 11 anos, acompanharam-na dois importantes legados: a máquina de escrever, que utilizou até à chegada do computador para escrever todos os textos, inclusive os jornalísticos, e a fotografia que é a testemunha de todos os momentos da sua escrita.
Contrariando a vontade do pai, que queria vê-la numa profissão mais se- gura que não fosse aquela “que lidava com as palavras”, escolhe o jornalismo, justamente por acreditar que o seu destino era a escrita e por necessitar dela para aplacar a sua ansiedade e a sua inquietude: “Escreve qualquer coisa que já ninguém te atura” (Jornal de Letras, Agosto de 2002: 9), recomendavam os amigos.
A sedução pelas palavras havia motivado, desde cedo, a escrita de histórias infantis e aventuras à “maneira de Enid Blyton, depois uma novela sobre as agruras da adolescência light avant la lettre e os inevitáveis poemas juvenis” (Ib.). No liceu, em Oeiras, escrevia cartas de amor encomendadas por aqueles colegas, tanto os rapazes quanto as moças, que não tinham a habilidade de fazer das palavras flechas para atingirem o coração de alguém.
Foi na biblioteca de seu pai, entre alguns livros escondidos na gaveta, antes de 25 de Abril, que descobre as Novas Cartas Portuguesas, de Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno – “Li de fio a pavio e aprendi imenso, porque era de uma total inocência. . . ” (Ib.) –, assim como a edição francesa da revista Marie Claire, que a mãe comprava, com suas reportagens sobre “reivindicações das mulheres ou sobre a situação das mulheres árabes, matérias que não mereciam uma linha nas publicações portuguesas” (Ib.).
Essas leituras, no âmbito familiar e, mais tarde, a sua experiência como directora da revista Marie Claire acabaram por apontar os diversos caminhos que a escritora trilharia em direcção ao universo da alma feminina: recortando em seus romances o papel da mulher portuguesa, emergente na década de 90, trazendo à memória as mulheres do passado, defendendo os direitos da mulher
no presente, como cronista do Expresso, onde escreveu semanalmente em sua Crónica Feminina, até o dia 23 de Fevereiro de 2011.
Intercalando a atitude jornalística com a escrita de ficção, Inês escreve o seu primeiro romance A instrução dos Amantes (1992). Antes, havia escrito Mais Ninguém Tem (1991), uma incursão no mundo da literatura infantil.
N’ A instrução dos Amantes, aborda a aprendizagem do amor na adolescência, num título sugestivo, revelando, através de Cláudia e suas amigas, os conflitos gerados pela paixão, em contraposição ao universo masculino, protagonizado pelo namorado Ricardo e o amante Diniz. A amizade, as disputas dentro do grupo, as relações familiares e os ecos do 25 de Abril também fazem parte do cenário ficcional.
O segundo romance, Nas Tuas Mãos (1997), recebe o Prémio Máxima da Literatura, em 1998. As indagações da autora sobre o feminino parecem ser me- didas na história de três mulheres: Jenny, a avó; Camila, a mãe; Natália, a neta, que narram, através de diferentes espaços de interlocução: um diário, um álbum de fotografias e um maço de cartas. Estes diferentes registos narrativos modulam as vozes das três gerações que, delineadas por um perfil e uma memória própria do seu tempo, também sintetizam a recente história de Portugal e a evolução da sociedade portuguesa da metade do século XX até hoje, sob as impressões das personagens femininas, reveladas em suas trajectórias e reflexões. Assim, Jenny tem um casamento de aparências e o seu amor justifica a filha do amante do marido que acolhe como sua: “O amor dissolve em fumo qualquer escândalo, por mais estranho que ele surja aos nossos aparentes valores. O escândalo a que não se sobrevive é o da ausência de amor. . . ” (Nas Tuas Mãos, 2005: 41). Camila, a fotógrafa, perde o amado de forma trágica, vai para Moçambique e lá conhece Xavier, um guerrilheiro da FRELIMO, e desse relacionamento nasce Natália: “Pensei que as imagens me poderiam curar, que poderia colar os ins- tantâneos do mundo sobre o sangue do meu coração e fazê-lo parar. Pensei que o amor podia ser domesticado e o lado negro do instinto maternal racionalizado” (Ib.: 140-141). As cartas de Natália para a avó revelam o vínculo e a sensibili- dade herdadas da avó Jenny: “Descobri cedo nas fotografias da minha mãe que a felicidade é uma colecção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam” (Ib.: 150).
Depois do segundo romance, Inês publica a Fotobiografia de José Cardoso Pires (1999): “um modelo de texto-crónica-notícia-relato cuja informação central, transfigurada esteticamente, a autora tem o dom de transformar em conto” (Jornal de Letras, Agosto de 2005: 20).
Vinte Mulheres Para o Século XX (2000) nasce de um projecto jornalístico para o semanário Expresso, com a publicação da biografia de Eva Perón e de outras mulheres que marcaram o mundo neste primeiro século de emancipação.
O livro é o resultado destas publicações e de uma segunda parte inédita, des- tacando perfis como: Simone de Beauvoir; Agustina Bessa-Luís; Coco Chanel e Madre Teresa, entre outras. Estas escolhas, justificadas no prefácio, denotam o profundo interesse da autora pelo papel feminino:
Cada uma destas vinte mulheres foi tocada por um qualquer dom, mas o que as tornou diferentes de todas as outras, foi a história única que cada uma delas elaborou contra o medo e o seu guardião – a tradição. Acompanhou- -as sempre essa filha da imaginação chamada coragem. Por isso, não se limitaram a mudar o mundo – mudaram para além do seu tempo, a imaginação do Mundo” (PEDROSA, 2000: 16).
No ano seguinte, organiza uma antologia da poesia portuguesa, subordinada ao tema de amor, Poemas de Amor (2001), e confessaria em entrevista este seu interesse pelo tema: “Interessa-me em particular a poesia e o tema do amor. Se existe nos meus livros alguma interrogação permanente é sobre o amor – como se faz que perdure?” (<http://mulher.sapo.pt/print/xtAI/432657.htm>).
Fazes-me Falta (2002), segundo a escritora, foi escrito a partir da experiên- cia de perda: “escrevi-o ao som da música dos meus mortos, ensaiando uma aproximação mais radical à ciência da poesia, a poesia da política e a dança da filosofia”. Sob o eco de fazes-me falta. . . fazes-me falta, duas vozes alternam seus relatos, ora uma mulher que acabara de morrer, ora um homem na constatação de seu desespero. Com fontes tipográficas diferentes, os cinquenta capítulos do romance, duplicados, simulam o espelho onde o “diálogo” ocorre. O que se poderia supor como uma relação passional, descortina-se surpreendentemente como “um processo mais complexo e desconcertante em que estamos para além da amizade e do amor, num espaço de infinita sexualização, pela pura e também impura ausência de corpos, numa espécie de invenção impossível. . . ” (COELHO, 27 de Abril de 2002). Essa encenação passa então a ser o pretexto para tematizar a “diferença”, não apenas nas discussões do lugar do feminino ou masculino, mas também das oposições entre o velho e o novo, da crença e da descrença e, principalmente, sobre os valores de uma sociedade, representados pelas duas personagens: “Ele vem de uma guerra em África e de alguma corrosão de ideais. Ela parte de uma ânsia desmedida de mudar o mundo e reequilibrar a relação entre homens e mulheres” (COELHO, 27 de Abril de 2012).
Ainda em 2002, escreve A Menina que Roubava Gargalhadas, homenageando a filha Laura, e depois o livro de contos Fica Comigo esta Noite (2003). Reúne e publica a colectânea de entrevistas Anos Luz – Trinta conversas para celebrar o 25 de Abril (2004), reunidas ao longo de sua atividade jornalística, numa grande diversificação de personalidades como Lobo Antunes, Eduardo Lourenço, Fernando Dacosta, Rui Veloso, Vergílio Ferreira, entre outros:
Tive a felicidade de encontrar, maioritariamente, entrevistados empolgantes – porém, confesso que até aos mais baços fui extraindo novos dados sobre a natureza humana. Porque é isso que, acima de tudo, me faz acordar para cada novo dia com entusiasmo: a infinita variedade da natureza humana. As minhas paisagens são as pessoas (PEDROSA, 2004: 13-14).
O testemunho das vozes de diferentes “lugares”, cineastas, ensaístas, escri- tores, compositores, músicos, são retalhos importantes dos últimos 30 anos da História de Portugal, ressignificados através das palavras de cada entrevistado e de sua história, compondo o imenso tecido da identidade do povo português.
Em 2005, publica Crónica Feminina, compilação de crónicas que há vários anos vinha publicando no semanário Expresso, espaço de luta e reflexão:
Ao fim de uns anos, as crónicas ganham a cor sépia e reveladora dos diários, mostram muito mais do que uma perspectiva individual acerca do mundo: são um estendal de sonhos e inquietações, prazeres, ódios e amores de estimação. Temas como aborto, a discriminação, o abuso sobre crianças, a violência sobre as mulheres, a educação e a justiça atravessam os meus dias com uma constância recorrente (Crónica Feminina, 2005: 13-14).
Ao exercício das crónicas, Inês credita “a consciência que hoje tenho da capacidade de mobilização efectiva da palavra” (PEDROSA, 2005: 15). Esta palavra afiada busca os factos e a essência destes acontecimentos, propiciando um terreno que aproxima a jornalista da escritora:
Inês Pedrosa tem feito, nalguns dos seus textos, a ponte entre o labor da jornalista (que é, profissionalmente, a sua origem) e o trabalho de ficcionista. A crónica é aqui e de novo o elo de ligação entre dois campos que moderna- mente (e sobretudo pós-modernamente) se intersectam, às vezes sem visível linha de demarcação: o campo da representação ficcional e o campo da referência ao real circundante, tangível e empiricamente conhecido (REIS, Outubro de 2005: 19).
Para Carlos Reis, em “O tempo de Crónica”, a dimensão temporal da crónica é um aspecto relevante a ser considerado, principalmente pela sua relação com o seu tempo, diferente no conto ou romance, por dialogar com as circunstâncias directas dos acontecimentos e
com o movimento da história ainda em decurso, às vezes até com as inci- dências, com as figuras, com os conflitos e com as motivações da pequena história, quase sempre esquecida pela historiografia como ciência e reposi- tório da memória colectiva (Ib.: 18).
Em seu livro Crónica Feminina, Inês Pedrosa demonstra a escrita compro- metida da cronista consciente da importância do “espaço” que o género sugere “como exercício de intervenção social, como forma de poder cívico” (Crónica Fe- minina, 2005: 16) e instrumento de mudança:
Ainda acredito que o mundo pode melhorar à vista desarmada durante o breve espaço da minha vida; se não acreditasse, não teria a perseverança de escrever todas as semanas, esteja onde e como estiver, feliz ou infeliz, varrida pela febre ou numa ebulição de festa. Dentro de todo cronista há um optimista furioso – a própria zanga serve de testemunha a esse contrato de encantamento com o mundo (PEDROSA, 2005: 14)
Em parceria com a fotografia, foram escritos os livros Carta a uma Amiga (2005) e Do Grande e do Pequeno Amor (2006). O primeiro, uma novela epistolar, é inspirada na obra de Maria Irene Crespo, uma fotógrafa amadora que empresta suas fotos ao texto. É a partir da descoberta de uma caixa de fotografias que se desenrola a narrativa e “Carta a uma amiga é uma declaração política porque expõe, exemplarmente, como tudo o que é pessoal é político. Porque quase tudo acontece condicionado pela ordem criada para o mundo” (Jornal de Letras, Agosto de 2006: 22). O segundo livro, Do Grande e do Pequeno Amor, é um romance fotográfico que realiza com seu amigo e ilustrador de seus livros, o designer Jorge Colombo. “Os encontros e desencontros amorosos de uma historiadora e um arquitecto que não conseguem viver separados” (<http://www.instituto- camoes.pt/CVC/livros/1090.html>), a história, enfim, de um casal contemporâneo. A Eternidade e o Desejo (2007) e No Coração do Brasil – Seis Cartas de viagem ao Padre António Vieira (2008), são obras que se relacionam com um projecto do Centro Nacional de Cultura, “Os Portugueses ao Encontro da sua História”, que incluiu a visita às cidades em que missionou o Padre António Vieira (Salvador, Olinda, S. Luís do Maranhão, Belém do Pará), no qual Inês Pedrosa participou.
O romance A Eternidade e o Desejo move-se em torno da personagem Clara,