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para terem visibilidade, através da publicação nas páginas dos jornais, as cartas dos leitores passam por um processo de filtragem, tendo como base alguns critérios e regras explícitos e, por vezes, implícitos, que dão forma e constroem a secção tal como ela aparece aos olhos dos leitores. dependendo do volume de cartas que recebe, o jornal apenas publica uma parte dos textos enviados pelos leitores (cfr. Hill, 1981: 384; Melo, 1994: 177), o que significa que as cartas dos leitores são sujeitas a um processo de escolha antes das opiniões serem validadas pelo acto de publicação (cfr. lambiase, 2005: 2).

as regras que presidem à selecção e edição das cartas dos leitores nos jornais são muito semelhantes, pelo menos no que diz respeito à realidade norte- americana (cfr. Wahl-Jorgensen, 2007: 68) e, também, à realidade portuguesa, como verificámos no estudo de caso levado a cabo no jornal Público (cfr. silva, 2007). estas regras de escolha das cartas estão, aliás, claramente expressas em artigos da autoria de editores norte-americanos, na publicação The Masthead.

segundo os editores, as cartas dos leitores devem ser breves e concisas (cfr. delong, 1976: 9; Joslin, 1976: 14; Clemon, 1976: 17; Hurley, 2005: 1), ter menos de seis parágrafos (cfr. Wragg, 1976: 5) ou ter entre 250 e 350 palavras (cfr. andrews, 1968: 12; Moler, 1976: 6; fradley, 1976: 12; Cox, 1976: 13; Cole, 1992: 7; White, 1968: 29; Kapoor et al., 1992: 6). as cartas devem também ser assinadas pelos leitores, com a indicação da morada (cfr. andrews, 1968:

12; Wragg, 1976: 5, Moler, 1976: 6; stuart, 1976: 7; Towne, 1976: 8; delong, 1976: 10; Winslow, 1976: 10; fradley, 1976: 12; Cox, 1976: 13; Joslin, 1976: 15; Carter, 1992: 10; Cole, 1992: 7; dix, 1968: 22; finnegan, 1968: 9; White, 1968: 29), mas há quem defenda que as cartas não têm de vir identificadas para ser contemplada a sua publicação (cfr. Clemon, 1976: 16). desenvolveremos este aspecto da necessidade de identificação mais à frente neste capítulo.

além disso, os editores privilegiam textos que versem sobre temas da actualidade (cfr. Cherniss, 1968: 14) e que provoquem polémica, que encorajem debates e até critiquem o jornal (cfr. andrews, 1968: 13; Cherniss, 1968: 14; Carter, 1992: 10; Moler, 1976: 7; stuart, 1976: 8; delong, 1976: 9; Winslow, 1976: 11; Cox, 1976: 14; Korando, 1990: 10 e 11; White, 1968: 29; finnegan, 1968: 9). segundo brian Thornton, “a controvérsia aumenta a excitação e o interesse dos leitores” (Thornton, 1998a: 7). De facto, num inquérito telefónico a 520 indivíduos adultos do estado norte-americano de ohio, a maioria dos inquiridos, sobretudo os que evidenciaram posições mais extremadas, apoia a publicação de cartas controversas (cfr. reader et al., 2006: 6).

da parte dos editores, além disso, segundo o estudo de Wahl-Jorgensen, verifica-se uma certa relutância em rejeitar cartas, mesmo que expressem pontos de vista intolerantes e utilizem uma linguagem mais inflamada. A autora argumenta, porém, que esta atitude dos editores pode estar relacionada com uma preocupação de carácter mais pragmático: publicar cartas controversas, ou que critiquem as posições do jornal, pode servir os seus próprios interesses, criando uma imagem de equilíbrio, objectividade e abertura (cfr. Wahl-Jorgensen, 2004: 18).

Habermas identifica um conjunto de procedimentos formais que ele considera necessários para criar uma situação ideal de discurso, adoptados implicitamente pelos interlocutores (cfr. Habermas, 1984: 331). o acesso universal é um dos critérios fundamentais, bem a validade do discurso, conferida pela racionalidade da argumentação, e não por qualquer outra coerção externa. nessa medida, podemos colocar a hipótese de os jornais negligenciarem, ao privilegiarem a polémica, os pressupostos da discussão racional que estão na base do discurso democrático, uma vez que deixam de oferecer meios para a resolução de conflitos entre normas e opiniões contrárias – a selecção que está fora das mãos dos

interlocutores (e devido aos critérios a que obedece) pode não cumprir, assim, as condições do “discurso”, em termos de liberdade de discussão (quer quanto a participantes, quer a assuntos) e de igualdade de estatuto dos interlocutores (paridade argumentativa).

ao explicar a sua renitência pessoal em participar em polémicas, Michel foucault sublinha, com efeito, que o polemista não interpreta o seu interlocutor como parceiro na busca da verdade, mas como um adversário, um inimigo ou uma ameaça. segundo o autor, a polémica, ao contrário do diálogo, que visa a elucidação recíproca, constitui uma figura parasitária do debate e um obstáculo à procura da verdade, com graves efeitos de esterilização, uma vez que não permite a entrada de ideias novas na discussão (cfr. foucault, 1984: 591 e 592). no nosso estudo de caso sobre o jornal Público, porém, verificámos que, apesar de a polémica ser um critério bastante valorizado na selecção de um texto do leitor, não constituía, à partida, uma garantia de publicação da carta, pelo simples facto de poder, eventualmente, gerar alguma controvérsia (cfr. silva, 2007: 95).

os responsáveis pela selecção das cartas dão também prioridade a textos que possuam um certo estilo de escrita: bem redigidos e coerentes (cfr. Carter, 1992: 10; Cox: 1976: 14; finnegan, 1968: 10; Kapoor et al., 1992: 6), claros, com “bom gosto” (Joslin, 1976: 14) e sem “poesia” (Andrews, 1968: 12). Os editores tendem também a estabelecer como regra o limite de uma carta publicada por mês para os leitores que escrevem habitualmente para o jornal, por uma questão de “fair-play” em relação a outros leitores que enviam cartas mais esporadicamente e para tentar dar voz a todos eles (cfr. andrews, 1968: 13; Winslow, 1976: 11). devido ao facto de a maior parte dos textos do The Masthead serem escritos por editores de jornais de âmbito regional, os responsáveis pela selecção preferem cartas escritas por leitores locais, ou seja, que estejam dentro da área de circulação do jornal (cfr. stuart, 1976: 8; fradley, 1976: 13; Cherniss, 1968: 14). nessa medida, as cartas dos leitores devem ser vistas como uma “instituição regional” (Clemon, 1976: 17) ou como o “pulsar de uma comunidade” (Carter, 1992: 10).

determinadas associações norte-americanas, conscientes do processo de filtragem que está na base das cartas dos leitores na imprensa, dando inclusive algumas sugestões a potenciais leitores-escritores, que tenham em vista a publicação de uma carta, evidenciam ter em mente, precisamente, estes mesmos

critérios referenciados pelos editores norte-americanos. a organização “accuracy in Media”10, no documento “How to write letters to the editor”, fornece algumas regras que se coadunam com os critérios mencionados pelos editores (accuracy in Media, s.d.: 4 e 5): a carta deve ser legível e revista em termos de ortografia e gramática; o leitor deve reagir de imediato em relação a um tema ou a um problema em concreto, para que o texto não perca actualidade; deve ser breve e respeitar os limites de palavras impostos pelos jornais, se os houver; deve usar frases e parágrafos curtos, com palavras apelativas; deve fazer críticas construtivas e eventualmente ter humor; deve fornecer dados de identificação completos.

Também a associação “Communications Consortium Media Center” (CCMC)11 dá sugestões sobre a melhor forma de escrever uma carta passível de publicação no jornal, entre outras: ser breve, usando argumentos curtos e específicos; ser factual e usar algum humor; prestar atenção ao “timing” do envio da carta, para que a mesma não perca a actualidade. o website desta organização contém, ainda, um documento que lista os critérios de publicação de cartas dos leitores nos 100 maiores jornais norte-americanos12, no que diz respeito à sua circulação. uma leitura mais atenta deste documento permite-nos dizer que há uma relativa coincidência de critérios de publicação entre os vários jornais incluídos na listagem e uma correspondência parcial relativamente às regras explicitadas pelos editores norte-americanos, atrás referidas. os dois critérios mais mencionados consistem no tamanho da carta e na identificação do leitor.

outros estudos, baseados em análise de conteúdo de cartas dos leitores e em entrevistas com editores, oferecem dados relevantes na discussão sobre os critérios de selecção que presidem à secção das cartas. baseando-se num questionário realizado junto de 75 editores norte-americanos, david b. Hill concluiu que estes profissionais indicaram, como factores de escolha das cartas, a actualidade dos textos, o seu valor-notícia, originalidade, pertinência,

10) Organização de cidadãos norte-americana, sem fins lucrativos, fundada em 1969 por Reed irvine, tendo como propósito monitorizar os media.

11) Organização norte-americana sem fins lucrativos, que dá apoio a outras organizações sem fins lucrativos, em termos de uso dos media e das novas tecnologias. Website: www.ccmc.org. 12) http://www.ccmc.org/node/16179 [acedido em 14.04.2014]

racionalidade, controvérsia ou o seu valor intrínseco, procurando publicar cartas que fossem “apropriadas” (cfr. Hill, 1981: 389).

a referência da carta a acontecimentos actuais é, aliás, um dos critérios mais valorizados, quando olhamos de perto para os discursos dos editores e, também, para a natureza das cartas publicadas na imprensa. as cartas enviadas e, sobretudo, as que são seleccionadas para publicação, são habitualmente uma resposta a um tema que figura na agenda mediática, o chamado “hot topic” (cfr. ericson et al., 1989: 339 e 364; Wahl-Jorgensen, 1999b: 10; nord, 1995: 71; gregory et al., 2004: 192; richardson, 2001: 152).

segundo Wahl-Jorgensen,

há estudos que demonstram que a maioria das cartas reflectem os temas

que são objecto da primeira página ou dos editoriais dos jornais; aliás,

alguns editores chegam a instituir a prática de publicar apenas as cartas

que se refiram ao editorial ou a colunas de opinião – o norte-americano