“Nem acção sem investigação nem investigação sem acção” (Kurn Lewin, citado por Sanches, 2005:127). Delimitado o objetivo do presente relatório, importa neste momento referir os dispositivos e procedimentos de intervenção usados ao longo estágio em Creche e em Jardim de Infância. Tal como foi referido anteriormente, o presente relatório apresenta uma componente interventiva nos contextos onde realizei o estágio. Neste âmbito, não poderia deixar de mencionar a complexidade desta tarefa, tendo presente que ao longo desta investigação tomei uma posição de estagiária-investigadora.
Ao efetuar um olhar retrospetivo sobre todo o meu percurso nos contextos de estágio e perante as leituras realizadas sobre o tipo de investigação presente neste estudo, a investigação-ação, compreendo que é um processo de longa duração, que requer muito tempo de investigação. Contudo, a minha ação esteve condicionada pelo tempo de estágio exigido. Deste modo, apenas realizei uma pequena intervenção nos contextos, interrogando-me se consegui realmente criar alguma modificação, sendo esse o eventual objetivo. Mesmo considerando esta metodologia deveras complexa, sendo complicado de aplicar no contexto em que fui inserida, apresentando dificuldades em “avaliar” a minha intervenção em prol de uma modificação positiva, procurei em cada contexto intervir, embora que num curto espaço de tempo, de modo a colmatar algumas dificuldades sentidas ao me encontrar em contacto com alguns acontecimentos.
Num primeiro contexto observei inúmeros conflitos, pondo posteriormente em causa a minha correta intervenção. Uma dificuldade sentida foi “a desobediência de algumas crianças perante a minha presença, foram momentos desafiantes em que foi necessário uma maior atenção e reflexão sobre o meu modo de atuar no terreno”5.
Num segundo contexto, ao estagiar numa sala de 5/6 anos, sendo um contexto muito diferente do anterior, recordo-me de me encontrar apreensiva, sentindo “o medo de não conseguir estar a altura destas crianças, de não conseguir responder diariamente à sua vontade fugaz de exploração, de curiosidade de constante atividade”6.
Durante todo o período de estágio em ambos os contextos, jamais consegui abandonar todos os sentimentos e pensamentos que me envolviam diariamente, todas as dúvidas, incertezas, receios fizeram parte do meu percurso. Considero que é fundamental “(…) reconhecer a dúvida e a incerteza, reconhecer seus limites como um recurso, como um lugar de encontro, como uma qualidade, o que significa aceitar que se é incompleto, que se está em um estado permanente de mudança e que a identidade está no diálogo” (Rinaldi (1995) citado por Paige-Smith e Craft, 2010:15). Assim sendo, acredito que ao longo da minha intervenção estive diariamente em constante mudança, em constante reflexão sobre a ação, de forma a diariamente melhorar, tornando a minha prática cada vez mais coerente e consistente. A este nível percebo que a ajuda, a cooperação e dedicação das equipas pedagógicas foi fundamental para colmatar as minhas dificuldades. Saliento a importância de momentos de partilha, que a meu ver foi um dos procedimentos de intervenção. Os momentos de reflexão com as educadoras tornam-se em momentos de partilha e de reconstrução de esperança para uma melhor prática pedagógica. Através destas partilhas, manifestei a dificuldade que por vezes sentia em manter o grupo interessado nas inúmeras explorações que propunha, criando por vezes alguns conflitos. Deste modo, senti que me aliei a estas profissionais, e juntas, pensámos em conjunto estratégias para superar todas as minhas dificuldades, de forma a modificar a minha prática e ganhar mais confiança ao longo da minha intervenção.
Sinto que foi nestes contextos que aprendi realmente a verdadeira importância da reflexão antes, durante e após a ação. Segundo Paige-Smith e Craft (2010:47) “[s]ustentar uma prática eficaz nos primeiros anos de aprendizagem envolve refletir, desenvolver e, em geral, modificar nossa própria prática”. Encontrar-me-ei à altura deste desafio? Pois bem, ao refletir sobre dados assuntos e futuramente partilhá-los, julgo também provocar esse efeito nas educadoras, fazendo-as refletir sobre algo que poderia ser melhorado no contexto.
Deste modo, posso compreender que esta investigação “(…) procura resultados que possam ser utilizados pelas pessoas para tomarem decisões práticas relativas a determinados aspetos da sua vida (…) um tipo de investigação aplicada no qual o investigador se envolve activamente na causa da investigação” (Bogan e Biklen, 1994:293). Eu própria fui objeto deste estudo, não conseguindo por vezes fazer o distanciamento correto entre a posição de estagiária, e de investigadora, se é que em algum momento esse distanciamento existiu.
“A vontade de aprender e vencer, a determinação e perseverança ajudaram-me ao longo de todos os momentos”7. A postura que assumi nestes contextos, dirigiu-me a uma melhor prática, o modo como questionava estas profissionais ajudou-me a colmatar muitas dificuldades. A empatia criada desde o início, foi fundamental para agir com naturalidade, o respeito e interajuda entre os adultos, mas também a empatia criada com as crianças, levou- me à partilha e ao diálogo tão essencial para este estudo. Posso referir que foram muitos os momentos em que me senti fazer realmente parte destes grupos.
Por esta razão, afirmo que a minha intervenção se refletiu no meu modo de agir, ser e estar em ambos os contextos. Tendo a oportunidade de observar e detetar uma problemática no contexto, sendo neste caso uma dificuldade sentida inicialmente. Deste modo, foi minha intenção não criticar as equipas e a sua maneira de agir, mas sim tentar compreender os seus modos de agir, e também da minha própria intervenção. Tendo sempre presente que é fundamental “ver e ouvir com abertura de espírito (…) sem fazer juízos de valor ou tirar conclusões precipitadas” (Post e Hohmann, 2007:317).
Em suma, o meu modo de agir ajudou-me a aprender, a aumentar os meus conhecimentos e colmatar as dificuldades. Esta intervenção foi realizada também através da recolha de informação para este estudo, podendo atingir os objetivos a que me propus. A partilha de certos momentos, duvidas, inseguranças mas também conquistas fizeram parte desta intervenção, o meu modo de dialogar com as crianças, o apelo à reciprocidade, ao respeito e ao diálogo entre elas, foram valores que julgo ter conseguido passar. Destaco, por fim, a entrevista realizada às educadoras, podendo compreender as suas conceções, o seu modo de intervenção e os princípios que defendem no âmbito deste estudo.