Não obstante ter conhecimento da complexidade que é a migração, conhecimento com relação aos obstáculos enfrentados e a realidade de Portugal, o país não possui muito apoio específico para o perfil migrante qualificado, deixando a desejar quando o assunto é atração e retenção de mão de obra qualificada.
“Não, uma resposta direta, não. O que nós tentamos fazer aqui é permitir que as pessoas possam ter algumas estratégias para poderem candidatar-se a postos de trabalho mais ajustados a sua qualificação, nomeadamente informando as pessoas de como se devem organizar e as diligências que devem tomar para conseguir uma equivalência ou um reconhecimento das suas habilitações escolares, estabelecendo pontes também com algumas instituições.” (entrevista – instituição 2)
No grupo de discussão, os migrantes foram questionados se conheciam algum programa ou apoio para a inserção laboral qualificada. Dois participantes foram diretos ao dizer que desconhecem: “- Participante 2: Eu desconheço, nunca procurei. - Participante 5: Eu também não.”. Outra apenas menciona “Participante 1: Eu já ouvi da IEFP”.
Os demais tinham conhecimento do IEFP e inclusive estão inscritos para ter apoio na procura de emprego ou até de mais qualificação profissional, mas com o tempo, constataram que esta instituição não dispõe de capacidade para ajudá-los.
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“Participante 4: Eu cheguei em 2017, me inscrevi no IEFP (...) Participante 3: Eu também sou inscrita lá.
Participante 4: Estou a exatamente hoje há dois e pouquinho, lá, desempregado. Estou inscrito como desempregado.
Participante 3: Também.
Participante 4: E o que que acontece, o IEFP é um órgão do estado, o próprio estado não tem essa capacidade de, ou seja, IEFP e segurança social né, “deixa eu ver quem é nome da pessoa, poxa nome da pessoa pode entrar num projeto da universidade, nome da pessoa pode estar nome da instituição, por exemplo (...)”. Mas, na verdade, o IEFP hoje na minha opinião e aí vale o que vale, é um grande caixote de currículos, ponto.
Participante 3: Pra mim o IEFP, porque assim, Portugal diz que saiu da crise do desemprego, coloca isso dizendo que melhorou. Só que eles inventaram o IEFP e quem tá desempregado hoje assiste aula. Eles dão formação, eles dão curso chamado bolsa-desemprego que pagam um subsídio, então essas pessoas que tão assistindo aula saiu do número de desempregado, mas continuam desempregado e o governo tá pagando esse povo pra assistir aula. Então, o IEFP pra mim ele se tornou uma bolsa dos desempregados, (...)”
Infelizmente, essa realidade é desanimadora para os migrantes que não podem contar com o apoio dos serviços. Outro serviço mencionado foi o GIP onde uma participante buscou apoio, porém não obteve êxito.
“eu fui na GIP na freguesia do (...) e me mudaram para universidade porque eu tenho ensino superior. Fiz todo cadastro lá e não muda muita coisa. E assim, são pessoas que tão lá de vez em quando, não são engajadas com o processo, sabe. Tão lá por caíram ou foi algum apadrinhamento ou faz quando aparece alguma vaga. A impressão que eu tenho é essa, posso ta errada né, mas o orgão existe, mas não é ativo como eu acho que deveria ser, como muita coisa no Brasil.” (grupo de discussão – participante 3)
Olhando mais a fundo, Portugal não tem uma deficiência meramente de apoio aos migrantes qualificados que já estão em território português, possui conjuntamente, uma omissão relativa a captação e retenção de talentos qualificados para o país. Portugal detém um resultado ainda insatisfatório quanto ao mapeamento das áreas qualificadas necessitadas de mão de obra e uma atração mais estratégica para supri-la, seja atraindo migrantes, seja atraindo emigrantes portugueses com desejo de retornar ao seu país.
“na área de atração, quando falamos em atração de mão de obra qualificada ou no mesmo dos próprios emigrantes portugueses para que eles possam regressar a Portugal, depois os próprios canais que existem não acompanham esta (...) necessidade, na minha opinião.” (entrevista – instituição 3)
O estudo “Processos de admissão e de integração De imigrantes altamente qualificados em Portugal e a sua relação com a migração circular” enfatizou essa matéria em:
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“De igual forma não parece existir uma estratégia quanto aos estudantes estrangeiros pós-graduados que decidem migrar para Portugal, nem existe uma leitura concertada dos esforços, estratégias e planeamento do recrutamento realizado pelas instituições de investigação ou de ensino superior no país. Esta realidade está bem patente na pouca reflexão existente no caso português sobre este segmento da população imigrante e, até, pela fraca relevância das políticas migratórias destinadas aos imigrantes altamente qualificados.” (Góis e Marques, 2014:136)
Entretanto, acima dessa ausência, inegável é o fato que o mercado de trabalho português e o país de uma forma geral, tem muito a ganhar com a vinda dos migrantes para seu território. A interculturalidade, o dinamismo trazido, a apredizagem diante do novo, do diferente, podem proporcionar muitos benefícios. Por conseguinte, é importante destacarmos opiniões que fortificam essa visão.
“Ah, sem dúvida, trazem uma expertise, trazem um know-how que não só podem enriquecer o mercado
de trabalho como o próprio posicionamento das empresas que eles vão integrar naquilo que é o sistema de concorrência e tudo mais. Trazem uma mais valia muito grande pras empresas e isto a nível daquilo que é o trabalho em si, mas depois também, a nível daquilo que é a qualificação e aquilo que é também, eventualmente, beneficiarmos desse conhecimento para poder formar outras pessoas aqui em Portugal.” (entrevista – instituição 3)
“Sem dúvida, todos eles (...). Quando eles vêm, encontram um trabalho é porque a oferta era necessária, portanto todos eles enriquecem, não apenas o mercado de trabalho, como a economia e a sociedade portuguesa. Os muito qualificados trazem ainda esses outros recursos, que o nível do conhecimento e, portanto, enriquecem assim ainda mais. Mas genericamente eu vejo o contributo como sendo muito, muito positivo. Mesmo nos últimos anos eu creio tem sentindo enquanto investidor. Alguns destes migrantes muito qualificados acabam por dar início nas suas próprias empresas, seus próprios negócios, e há essa transferência de conhecimento e essa transferência de tecnologia que eu relevo como muito interessante” (entrevista – investigador)
Para concluirmos, apresentamos um depoimento alinhado com o assunto que estamos tratando, mas ainda, um questionamento sobre a ideia de ser um país fortaleza e que sim, as diferenças são ricas, consequência dos indivíduos serem resultados das suas histórias.
“São pontes para um pensamento diferente, para sairmos de uma Europa fortaleza, de um país fortaleza, onde achamos que tudo é hermético e nada é hermético, nós somos muitas coisas, nós somos provenientes de muitos sítios mesmo nunca tendo saído de Portugal, não é? mas esta questão das migrações e este cruzamento das pessoas (...). Eu não sei qual é a minha origem mais ancestral, mas pode não ser deste continente (...). O que que é a essência? O que que é a identidade? nós somos, temos um vértice, mas depois esta nossa identidade fruto das nossas experiências é plástica, é porosa, molda-se, é elástica e quantas mais experiências (...). E só podemos também, saber quem somos por comparação com o outro, portanto se não houve diferença o que que nos vai distinguir? A riqueza? Não sei, tenho as minhas dúvidas.” (entrevista – instituição 2)
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“Já a retórica de ameaça à identidade cultural europeia parte do princípio que existe uma cultura europeia única e congelada no tempo, quando a identidade europeia é, em si mesma, composta pela diversidade e assente numa troca constante com outros povos e culturas. Ao longo dos séculos, as sociedades influenciaram-se, dinamizaram- -se e enriqueceram-se mutuamente com a pluralidade de culturas e com a mobilidade humana.” (Ferreira, 2017:55)