Tendencialmente imaginamos que os profissionais de saúde se destinam somente a cuidar das doenças dos outros, sem concebermos que eles próprios podem ser afectados por problemas de saúde, sejam eles físicos ou psíquicos.
De acordo com Ferreira (2010), em função de todo o desgaste físico e psicológico, a Enfermagem foi classificada pela Health Education Authorithy como a quarta profissão mais stressante, devido à responsabilidade pela vida das pessoas, levando a uma maior probabilidade de ocorrência de desgaste físico e psicológico.
O enfermeiro perioperatório é o profissional com conhecimentos ao nível dos cuidados de enfermagem perioperatórios que presta cuidados de enfermagem ao utente durante as fases pré, intra e pós-operatória (EORNA, 2012).
No âmbito das competências dos enfermeiros perioperatórios, o “saber ser” no BO implica consciência cirúrgica, motivação, espírito de equipa, rigor profissional, autodomínio, destreza, facilidade de adaptação e de concentração, espírito crítico, resposta rápida a emergências e controlo do stress (Pinheiro, 2007).
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Enfermeiros que exercem funções em Blocos Operatórios.
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Fase Intra-Operatória – Período que corresponde à realização do acto cirúrgico, em que a equipa multidisciplinar desempenha as suas funções em interligação, com o objectivo de promover o bem-estar e segurança do utente durante a intervenção cirúrgica.
Os blocos operatórios caracterizam-se por áreas físicas com elevados recursos humanos para prestar cuidados a doentes em estados críticos, de uma forma rápida e eficaz. O trabalho aí desenvolvido é complexo e intenso, e como tal os enfermeiros precisam de estar preparados para receber doentes com alterações hemodinâmicas relevantes que requerem e exigem continuamente a aquisição de conhecimentos específicos e grande habilidade para tomar decisões, (Ferreira, 2010).
Como já foi referido, o trabalho no BO é desenvolvido por uma equipa multidisciplinar onde deverá existir uma grande cumplicidade, já que cada elemento desempenha funções específicas e devidamente definidas, contribuindo para um objectivo comum, que é cuidar/tratar do doente com qualidade e em segurança.
Segundo Marques et al. (2006) citado por Ferreira (2010) num BO executam-se cada vez mais funções técnicas e específicas, acontecem um maior número de situações de urgência/emergência e é exigida uma maior selecção de necessidades consoante as prioridades, acompanhado de um maior nível de exigência na aquisição das competências dos enfermeiros. No seu dia-a-dia, os profissionais de enfermagem deparam-se com situações que envolvem dor, sofrimento e ameaça de vida, podendo levar a um choque com os seus próprios valores, cultura, princípios e sentimentos.
Apesar da divisão do trabalho não ser rígida, as funções de cada enfermeiro devem ser perfeitamente definidas para que cada um saiba o que fazer num determinado momento, para não haver falhas. Porque o acto anestésico-cirúrgico não é compatível com falhas, um erro apenas pode significar a morte do doente ou mesmo para os elementos da equipa cirúrgica, no caso de acidente de trabalho (e.g. picada de agulha infectada com o vírus da Sida ou de Hepatite B e C). Quanto maior é a tensão emocional vivenciada pelo enfermeiro, maior é a probabilidade dele cometer erros, pois a enfermagem perioperatória é uma profissão de risco e de rápido desgaste, sendo difícil quantificar as “doses” máximas suportáveis pelos enfermeiros, (Pinheiro, 1993) citado por (Cruz, 2004).
Para Pinto (1990) referido por Cruz (2004) as situações indutoras de stress mais frequentes no bloco operatório são:
• Pressão do tempo: acontece sobretudo nas cirurgias de urgência, complicações intra-
operatórias, assim como na preparação do que é necessário para a próxima intervenção cirúrgica, o que exige das pessoas grande dinamismo e capacidade de resposta rápida; • Carência de pessoal: muitas vezes determinada pela dificuldade de integração de
pessoal e pelo facto de serem locais muito isolados/fechados, o que faz com que não sejam muito atractivos quer para enfermeiros recém-licenciados, quer para enfermeiros já com alguma experiência profissional;
• Situações imprevistas: bastante frequentes neste tipo de ambiente. Referem-se a
avarias dos equipamentos electrónicos, instrumentos cirúrgicos que se conspurcam e que são necessários, tendo que se aguardar a sua re-esterilização; o facto de o doente não ter reserva de sangue e este ser necessário durante a cirurgia; o aspirador não funcionar durante uma grande hemorragia, entre outros;
• Alterações do plano cirúrgico: obrigam a num curto espaço de tempo à preparação de
novos materiais e equipamentos, sendo exigida a estes profissionais uma grande capacidade de improviso e agilidade. Pode acontecer quando um doente está marcado para ser intervencionado, mas que acaba por ser recusado por razões diversas, como por exemplo: complicações súbitas no seu estado de saúde, falta de vaga na Unidade de Cuidados Intensivos, falta de material necessário ao procedimento, inexistência de hemoderivados, entre outras situações. Estas situações obrigam os enfermeiros, num curto espaço de tempo, a preparar novo material para a próxima intervenção, o que de alguma forma origina tensão;
• Deficiêcias no equipamento e seu funcionamento: avarias em equipamentos
indispensáveis à cirurgia, como o bisturi eléctrico, a mesa operatória, o ventilador, entre outros, que obrigam o enfermeiro a actuar de forma rápida e eficiente. A situação pode complicar-se quando acontece pela primeira vez e não se conhece minimamente o funcionamento dos aparelhos e materiais;
• Conflitos de personalidade: isto acontece pelo número elevado de elementos que
constituem a equipa multidisciplinar do bloco operatório, funcionando o enfermeiro como elo de ligação, sofrendo quase sempre as consequências;
• Factores ambientais: inclui o vestuário próprio que tem de ser utilizado (barrete e
máscara cirúrgica), pouca ou nenhuma luz natural, utilização de gases anestésicos, radiações (prejudiciais à saúde), exposição ao barulho, diferenças de temperatura, risco de contaminação, grandes períodos de permanência em pé, muitas horas em silêncio e falta de comunicação com os colegas de outros serviços (isolamento em relação ao exterior).
Outras investigações realizadas por Moss (1989) citado por Martins (2004), sugerem que os enfermeiros perioperatórios sofrem de stress moderado, apresentando como situações indutoras de stress: cirurgiões ofensivos, falta de formação específica na área de enfermagem perioperatória, materiais que não estão disponíveis quando são precisos, elementos preguiçosos na equipa, equipamento sujo, paragens cárdio-respiratórias durante o procedimento anestésico ou cirúrgico, várias emergências ao mesmo tempo, problemas relacionados com a profissão de enfermagem, turnos de trabalhos intensos, muitas horas de prevenção e stress relacionado com os constantes avanços da tecnologia e procedimentos.
Num estudo relacionado com o stress ocupacional a que os enfermeiros operatórios estão sujeitos, desenvolvido por Schmidt et al. (2009) mencionado por Ferreira (2010), constatou-se que se deveria atribuir maior atenção à saúde dos enfermeiros, pois 84% destes profissionais encontravam-se stressados face à alta exposição do trabalho.
Cada elemento da equipa multidisciplinar possui ideais, objectivos e uma personalidade própria, pelo que o stress inerente ao trabalho desenvolvido no BO pode influenciar negativamente o seu relacionamento e desempenho profissional com os outros elementos, levando ao aparecimento de Burnout (Fonseca, 2007).