CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta de analisar família em Goiás, nos séculos XVIII e XIX, num enfoque da história das mentalidades, mostrou-se fecunda neste trabalho de pesquisa.
A história da família em Goiás para os séculos XVIII e XIX, mostrou que existe realmente para história, um vasto campo de possibilidades e análises, além da história política e econômica, porém, estas não podem e não devem ser extraídas do contexto do cotidiano, da vida privada.
A análise feita considerou essa necessidade, não enfocando família de forma centrada na visão político e econômica, não a dissociando da mesma. Considerou ainda, que o conceito família é amplo e não pode ser visto como um padrão chave, onde um modelo pode explicar as diversidades econômicas, regionais e culturais.
A família patriarcal foi conceito que auxiliou a compreensão dessa instituição em Goiás. A explicação das formas de vida foram feitas, não por meio desse conceito, mas utilizando-se do mesmo, para alargar a visão da temática e suscitar subsídios para a pesquisa encaminhar-se.
Pode-se perceber que o conceito de família patriarcal, feita pela historiografia tradicional, foi utilizado como eixo norteador para os estudos que se seguiram até as décadas de 70, e isso evidencia-se pelo fato do assunto família ter sido abordado até então, como fenômeno eminentemente patriarcal.
A visão dos clássicos Gilberto Freyre, Oliveira Viana, Alcântara Machado e Antonio Candido, possibilitaram a análise da temática família em sua complexidade, enquanto modelo patriarcal. Nessas construções,
com exceção de Alcantâra Machado, os outros autores trabalharam família brasileira, como se houvesse um único modelo, ou seja o patriarcal, muito embora devemos considerar que Gilberto Freyre afirma em Sobrados e
Mucambos, que ele só estava analisando as famílias nordestinas da
produção açucareira. Seu modelo foi tido como sendo matriz histórica, para o estudo de famílias no Brasil, por seus sucessores até a década de 70.
Nos estudos sobre família, que se seguiram, aos autores já referidos, não aparecem as divergências regionais, econômicas e culturais das diversas sociedades que compunham o imenso território brasileiro, com exceção, é claro, de Alcântara Machado.
Nas construções historiográficas sobre família brasileira depois desse período, o tema passou a ser trabalhado dentro de uma maior preocupação metodológica, ou seja, família passou a ser tema da história e dos historiadores e não somente de antropólogos e sociólogos. Também passou a ser considerados os diversos aspectos do território nacional, as divergências também de tempo, e a possibilidade de haver vários modelos de família, nos séculos que compunham nossa história.
Os autores goianos, não abordam esse assunto, a não ser indiretamente, esta pesquisa encontrou mencionado em algumas partes de trabalhos historiográficos, a família, não sendo a mesma objeto central desses estudos. Nesses estudos, a família goiana dos séculos XVIII e XIX, aparecem sempre como sendo uma família patriarcal. Essa análise, demonstra esta pesquisa, é irreal para o século XVIII e somente para uma parte da sociedade, do século XIX, a elite, é que serve, se consideradas algumas ressalvas, destacadas ao longo do trabalho.
A análise portanto, ou o enfoque do presente estudo é original, inaugura um aspecto da história goiana, que certamente será percorrido por
muitos outros pesquisadores. Por ser o primeiro, não tem a pretensão de ser completo, principalmente porque, para que o fosse, seria necessário um árduo estudo de fontes, principalmente as demográficas que ainda precisam ser levantadas, organizadas e catalogadas.
A família em Goiás do século XVIII foi vista genericamente como sendo de características patriarcais, por muitos historiadores, que mencionam superficialmente este assunto, ao tratar do aspecto social em Goiás. Vimos ao contrário, que no século XVIII, por ser uma região de passagem, onde a maioria dos habitantes eram do sexo masculino, que viviam em constante mobilidade, não fixando-se nos grandes plantéis de produção, dentre outros fatores, Goiás do século do ouro possuía diversas formas de vida familiar, como o concubinato, padres com família, etc., menos o tipo patriarcal.
Já para o século XIX, as transformações econômicas geradas principalmente com o incremento da pecuária, aliados às reformas administrativas do Império, propiciou o surgimento em Goiás das castas familiares, unidas por interesses econômicos e políticos. Essa forma de vida familiar, no entanto não era exclusividade na Cidade de Goiás do século passado, outras formas coexistiam, tanto no campo quanto na cidade, numa gama ampla e variada, da qual só nos foi possível abordar algumas.
Ao estudar família na Cidade de Goiás, emergiram do obscuro, a mulher diligente e dona de casa, a mulher objeto sexual, a mulher reprodutora, a enclausurada e a liberada, tão criticada pelos viajantes do século XIX, europeus e brasileiros. Também saiu do anonimato o homem padre amante e pai, o homem machão, o “coronel”, o intelectual e o vaqueiro, o agricultor.
Percebeu-se, com esta pesquisa, uma Vila Boa do século do ouro, movimentada, cheia de relações incestuosas e adúlteras, de prole ilegítima e miscigenada. De poucos casamentos dentro das normas e de muitos casamentos consensuais, que a gente simples do campo e da cidade legitimavam com sua fé nas festas de São João, para fugir dos encargos caros da Igreja. Revelaram-se casamentos, feitos em massa, quando o padre passava em um arraial, onde as noivas durante a cerimônia, amamentavam seus rebentos.
Portanto cabe perguntar, neste momento: qual é o modelo de família em Vila Boa dos séculos XVIII e XIX?
Dizer que há vários é redundante. O melhor é dizer que a que se estender muito e entender muito, o conceito de família para compreensão da realidade familiar goiana do séculos XVIII e XIX. As famílias nessas épocas foram marcadas pela inconstância que caracterizou a ocupação e o povoamento da região nesse período, e pelas influências do seu contexto macro o Brasil colônia e subseqüentemente o Império.