“Nesta fase inicial aquilo que eu fundamentalmente procuro é perceber o que eles vêm (jogadores) e em função disso e daquilo que eu vejo vamos criar
uma forma de jogar” 14 Miguel Leal
Criar uma dinâmica coletiva em organização defensiva é, também, um dos desafios que poderemos refletir partindo desta temática.
Na nossa opinião, existem quatro elementos chave na base do processo defensivo das equipas de alto rendimento, designadamente, o espaço, a bola, os colegas e os adversários que, inerentemente, deverão ser tidos em atenção pelos jogadores.
Não obstante, estes constrangimentos e elementos estruturantes do jogo de futebol, encontram-se em constante interação durante uma partida, devendo- se constituir como modeladores das ações dos jogadores, em comunhão com outros indicadores específicos.
Cada equipa revela uma forma especial de percecionar e articular os diferentes elementos que abordámos, embora eles estejam sempre todos presentes. Por isso, manipulam de forma específica essas variáveis e a informação proveniente do contexto. Ou seja, existem equipas que valorizam mais a proteção dos espaços, e outras que atribuem mais significado aos adversários, não querendo com isto dizer necessariamente que os outros indicadores sejam assim menosprezados. Parece-nos é que, tal como um
14 Reportagem exibida no canal do Sporttv – Reporttv “Pré-época” – trailer em
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cozinheiro, há equipas que colocam proporções diferentes de cada ingrediente e, eventualmente, até as podem alterar em função das contingências do jogo.
No processo de construção de uma forma de defender, baseada numa defesa zonal, método que nos parece identificador das melhores equipas, naturalmente que os indicadores referenciados (espaço, bola, colegas e adversários) são alvo de preocupação por parte dos seus treinadores. Neste sentido, deverá existir um vínculo permanente entre estes constrangimentos ao longo do jogo, de modo a operacionalizar uma dinâmica que provoque a redução dos espaços e que impeça o adversário de progredir e marcar.
Todavia, é importante voltar a reforçar que este processo é sempre particular, até porque os indicadores que regularão parte destas dinâmicas são próprios de cada forma de jogar. Para além de que os jogadores que lhes darão corpo serão sempre distintos.
Por isso, fará eventualmente sentido considerar que não existe uma forma de defender zona, mas sim múltiplas (Amieiro, 2004). Apesar de em termos macro poder ser balizada, a concretização da mesma assume contornos únicos. Ou seja, de um modo geral existem comportamentos similares entre todas, mas ao mesmo tempo cada uma evidencia características e atributos particulares.
Nesta conceção, os espaços são uma das referências alvo. Pretende-se fechar como equipa os espaços de jogo mais valiosos, os mais próximos da bola, colocando a equipa adversária e em especial o portador da bola, sob constante constrangimento (Amieiro, 2004). Na nossa opinião, poderemos salientar também os espaços próximos da nossa baliza, dando como exemplo uma situação de cruzamento. Quando as equipas preparam este tipo de ações nos corredores laterais, por vezes um dos erros cometidos por quem defende, relaciona-se com o facto de não se posicionarem corretamente para protegerem as possíveis zonas de ataque ao cruzamento e o respetivo controlo das entradas dos adversários.
Nesta lógica, existem determinadas equipas, que até preferem subvalorizar momentaneamente o espaço circundante à bola nas situações de 1x1 (no último terço) nos corredores laterais. Nessas ocasiões, por vezes os
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treinadores preferem garantir superioridade na zona central, protegendo com maior segurança os espaços perto da baliza.
A referência bola permite-nos realizar um varrimento dos espaços, fazendo o bloco defensivo flutuar em função da sua posição.
“Se eu quero proteger a minha baliza e a bola está num dos lados, na minha ótica é preferível bascularmos e protegermos esse lado e não tão importante estarmos posicionados de acordo com o nosso adversário. De qualquer forma, devem existir estratégias de ajustamento, isso para mim é o que habitualmente designamos de cultura tática.” Miguel Moita (anexo 2)
Ao mesmo tempo, os colegas de equipa possibilitam o escalonamento permanente de diferentes linhas (Amieiro, 2004). Ou seja, um jogo de coberturas sucessivas, que cria uma espécie de teia para tentar condicionar o jogo do portador da bola do adversário. O que por consequência, permite até certo ponto controlar os adversários sem bola através do fecho das linhas de passe.
“Questões de basculação, encurtamento, de controlo de profundidade, de orientação de apoios, de contenção e coberturas, tudo isso são questões que a meu ver, são claramente características das grandes equipas do ponto de vista defensivo.” Tiago Leal (anexo 1)
Contudo, este processo é mais complexo do que muitas vezes se poderá pensar. Em primeiro lugar, porque na maioria das vezes a relação que se estabelece entre estes constrangimentos em termos percetivos não é a mesma para todos os jogadores da equipa. Pela cultura tática de cada um, alguns revelarão certamente uma maior capacidade para ligar estes elementos e assim resolver mais corretamente os problemas que emergem.
Como mencionámos, em função das suas vivências, possivelmente haverá jogadores que serão mais sensíveis a determinados constrangimentos, porque lhes atribuem maior significado. Se um defesa central, durante a sua
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formação, foi aculturado para “marcar individualmente” nos contextos onde se desenvolveu, tendo sido a defender deste modo que alcançou o futebol profissional, isso terá repercussões nas suas ações. É algo que estará incorporado e que exigirá treino para moldar a forma como este entende o jogo.
Nesta lógica, é essencial que este consiga gradualmente começar a prestar atenção a outros constrangimentos igualmente relevantes, sob pena de não tomar decisões adequadas. Basta que, dentro dos elementos que destacámos, esteja menos sintonizado em relação a um destes, para que eventualmente no alto rendimento o sucesso deste jogador fique comprometido. Se um lateral for um jogador forte na dinâmica com a sua linha defensiva, assim como na basculação com a equipa em função da bola, mas não for um jogador que esteja atento às entradas no espaço do extremo do seu lado, certamente causará problemas à sua equipa.
Um dos problemas que, a determinada altura, se evidenciou na nossa equipa foi, precisamente, uma interpretação errada por parte de alguns jogadores deste modo de defender. Pois por vezes, pelo facto de se salientar excessivamente a importância dos espaços e dos colegas, talvez tenhamos enviesado a forma de percecionar o jogo que pretendemos. Proporcionámos condições para que eles entrem numa “zona de conforto”. Na qual, o adversário/homem passa a não ser um constrangimento importante, quando este também o é.
Face ao exposto, consideramos que uma das características que também é relevante identificar numa defesa zonal é a sua adaptabilidade e dinâmica para se metamorfosear em função das necessidades que o jogo coloca.
“Relativamente à organização defensiva e a estas ideias que as equipas de top têm, eu tenho plena convicção de que mais importante que as equipas defenderem em bloco baixo ou bloco alto, mais do que isso, para mim é essencial o ajustamento e articulação que há entre os diferentes “momentos” de organização defensiva...” Miguel Moita (anexo 2)
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Desse modo, consideramos que a relação que se estabelece entre os diferentes referenciais que destacámos anteriormente, poderá por exemplo diferir em função da zona onde a bola está. A entrada da bola na grande área por parte do adversário, consideramos que poderá ser um desses exemplos. Será que nestas situações, a referência “adversário” não emergirá como uma das que terá maior valor na modelação da ação dos jogadores?
“Por exemplo, se pegarmos nisto numa situação defensiva, dentro da área, numa situação de cruzamento. Aí sim, podemos dizer que o posicionamento do adversário influencia o comportamento dos jogadores, a questão dos centrais, da orientação dos apoios para verem onde está adversário e para poderem dividir o espaço de forma a estar mais perto deles. Aqui, o elemento adversário tem uma maior preponderância, por exemplo, junto à nossa baliza.” Tiago Leal (anexo 1)
“...há situações em que é necessário dentro de uma perspetiva zonal, termos muito maior controlo do adversário.” Miguel Moita (anexo 2)
Esta ideia relaciona-se com aquilo que Jorge Jesus (2013)15 salienta, na
medida em que este treinador considera que na regulação das ações defensivas dos seus jogadores, existem determinadas zonas em que o elemento adversário deve assumir maior importância, destacando o espaço dentro da grande área, assim como os momentos no “centro do jogo”.
No fundo, aquilo que pretendemos transmitir é que a hierarquização entre estes elementos nas melhores equipas, altera-se consoante a necessidade. Por exemplo, será que o Manchester City, quando pressiona e tenta impedir as equipas contrárias de sair a jogar apoiadamente, não se aproxima circunstancialmente em determinadas zonas do campo de uma defesa
“individualizante”? Ou nos momentos de transição defensiva no
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controlo/vigilância das referências de saída para contra-ataque/ataque rápido das equipas adversárias? Atentemos ainda nas palavas do nosso entrevistado Daniel Sousa (anexo 3), em relação ao controlo de jogadores que sejam determinantes no processo ofensivo de um adversário:
“O Van Gall disse-me uma coisa muito boa, que é marcação individual zonal. Tu sabes que o adversário tem um 10 que é muito bom e criativo ou um jogador que realmente desequilibra por dentro e então tu sabes que não lhe podes dar espaço. Sabes que vais ter de o pressionar e marcar se calhar quase para não receber a bola. Uma pressão ao portador da bola e depois ao outro jogador, para tentar condiciona-lo o máximo possível para que não receba a bola. Eu não digo que tens de fazer uma marcação individual, mas tens de dizer à tua linha defensiva e média, aos jogadores que participem nesse processo que este jogador sempre que estiver na vossa zona, têm que o marcar.”
Daniel Sousa (anexo 3)
Não obstante, apesar destas modificações momentâneas que eventualmente até poderão ser do domínio estratégico, entendemos que não deve deixar de ser considerada uma defesa zonal. Os elementos espaço, colegas e bola estão na mesma a ser contemplados. Trata-se apenas de uma nova nuance,uma forma de manifestação distinta.
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5. Realização e
desenvolvimento da prática
profissional
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5. REALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA PRÁTICA PROFISSIONAL
Após uma problematização da prática e de uma reflexão acerca dos constrangimentos que dela emergiram durante o período de estágio, de modo a respeitar o roteiro definido no início do trabalho, direcionaremos os próximos assuntos para a importância da dimensão tática na interpretação do jogo. Sem prescindir de a relacionar intimamente com as tarefas desenvolvidas enquanto treinador-adjunto com responsabilidades direcionadas para a observação e análise de jogo, procurando refletir de que forma estas tarefas influenciaram a preparação e o planeamento do treino da equipa e dos jogadores.