Este silêncio do Pai na morte do filho cumpre fielmente o seu desígnio de encarnar-se e revela, de maneira singular, o caráter incondicional do amor de Deus para com cada ser humano e para com toda a humanidade. Esse encarnar-se pressupõe, por parte de Deus, a vontade de se submeter às liberdades humanas que geram as leis da história, e de aceitar, portanto, a decisão humana e responsável pela condenação à morte do seu Filho unigênito.
No fato de uma pessoa da Trindade assumir a natureza humana reside a realização e a revelação de algo compreensível ao humano. Mas é na Paixão e cruz, que a Trindade torna-se definitivamente compreensível ao homem, até à medida que sua humanidade lhe permite aproximar-se do mistério divino:
Um Deus puramente transcendente (no caso de que pudesse existir semelhante Deus) seria um mistério abstrato, puramente negativo. Mas um Deus que em sua transcendência pudesse ser também imanente, é um mistério concreto e positivo: na medida em que se nos aproxima, começamos a reconhecer o quão elevado está sobre nós, e na medida em que se nos revela em verdade começamos a compreender o incompreensível que é.254
Justamente no momento em que os seres humanos, caídos e fechados em si mesmos, manifestam o que têm de pior, o que por tantas vezes se repetirá na história, Deus revela-se como a máxima bondade mediante um perdão reconciliador e entrega, para além de toda e qualquer expectativa humana, recuperando a dignidade humana ferida e vilipendiada. “Quem não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos justiça de Deus.” (2Cor 5,21; cf. Rm 8,3). Na cruz, inicia-se, lenta, mas de forma fecunda, a ‘cristificação’ do ser humano e da história. É, portanto, sob a ótica da kénosis que deve ser analisada a paixão e morte de Jesus: a cruz de Cristo é o lugar hermenêutico definitivo da revelação do Deus trinitário, do Deus do despojamento total. Nesse silêncio doloroso da cruz e do abandono é onde a Teologia deve encontrar elementos para revelar ao mundo a face humana de Deus. Nesse sentido, podemos afirmar que Balthasar é um dos primeiros teólogos a refletir sobre o ser divino e a cruz de Cristo, pois o mistério do amor, presente na cruz de Cristo, faz parte do mistério de amor do ser eterno de Deus.
254 BALTHASAR, H.U. Teodramática, v.3: Las personas Del drama: El hombre en Cristo. Madrid. Ediciones
Esse mistério de amor somente pode ser revelado se visto sob o aspecto kenótico das pessoas divinas, embora a totalidade desse momento nunca será completamente compreensível ao homem. A humanidade de Jesus, presente em todas as etapas anteriores à paixão - tentação, lágrimas sobre Jerusalém e sobre o poder supremo da morte, a ira, o cansaço, o tédio etc -, culmina no abandono total de Si próprio, conforme relato de Marcos com um “atirar-se ao chão” (Mc 14,35), quando Jesus experimenta o abandono de seu Deus e o isolamento do Pai que se torna estranho para Ele, embora ainda não tenha desaparecido.255 A oração de Jesus é autenticamente humana, vivida entre a expectativa e o sofrimento, no medo e na sensação de abandono Daquele que lhe dá forças e coragem. Nesse momento profundamente humano, Jesus lança-se aos braços do Pai, dirigindo-Se com o grito terno e suplicante, “paizinho”, Abba (Mc 14,35), mas com o qual não existe nenhuma outra comunicação a não ser o anjo que, em Lucas, desce até o sofrimento para O reconfortar (Lc 22,43), ou na voz de João, como uma voz que ressoa no céu para fortalecê-lo. É o “esvaziamento” total da divindade do Filho frente à aparente ausência do Pai que, no silêncio do Getsemâni, também se esvazia ao se submeter às decisões da liberdade humana.
O cuidado que se deve ter na visão da ausência e do silêncio do Pai, segundo Balthasar, consiste em descartar tudo o que puder pôr em perigo a unidade da vida trinitária: “A distância entre o céu e a terra não pode ser integrada mais que secundariamente (economicamente) na distância primária (imanente) entre o Pai e o Filho no Espírito, e ser interpretada como forma de expressão desta distância englobante.”256 O Pai, aparentemente espectador, entra na representação dramática, vivendo a sua própria kénosis, sofrendo igualmente com o Filho que atua e o Espírito que media. Até poderia dizer-se que o Pai configura-se em ator central, pois Ele “amou tanto ao mundo que entregou seu filho único” (Jo 3,16) numa clara participação no sofrimento do Filho. A sensação de “abandono de Deus” que experimenta o Filho no Getsemâni e na Cruz “não pode ser interpretado como um sentimento unilateral e exclusivo daquele que morre; se Deus está aqui objetivamente abandonado, então Deus é abandonado por Deus e, em tal caso, esta situação volta a ser uma forma econômica das relações pessoais no seio da Trindade imanente”.257
255 BALTHASAR, H.U. O evento Cristo. In: FEINER, Johannes; LOEHRER, Magnus, Mysterium Salutis
III/6Vozes, Petrópolis, RJ, 1974, p.66.
256 BALTHASAR, H.U. Teodramática, v.3: Las personas Del drama: El hombre en Cristo. Madrid. Ediciones
Encuentro. 2007, p.485.
Impossível não ver nesse momento de oração e de entrega do Filho o retrato de uma
kénosis recíproca, trinitária, onde o Filho se entrega, abandona-se nas mãos do Pai, num ato de fé incondicional, marcado pelo profundo silêncio de uma aparente ausência desse Pai que se faz ausente com sua onipotência, mas sofre junto com o Filho abandonado à liberdade humana. Abre-se, dessa forma, um novo conceito à palavra onipotência divina. A partir da Paixão de Jesus, a verdadeira imagem do Deus onipotente é a onipotência não-violenta, não- autoritária, mas profundamente comprometida com a solidariedade e a compaixão. Balthasar vê nesse momento um acontecimento trinitário de profunda entrega mútua e de desvelamento de um amor máximo de Deus para com o homem.
O escândalo da cruz inicia-se com o escândalo do Getsemâni, do Deus “jogado por terra” (Mc 14,35), num ato até então impensável de rebaixamento supremo como ato de amor ao homem. Antes de Pilatos apresentar a Jesus, o Deus encarnado, como ecce homo, figura exangue e maltratada, surge para o mundo a figura do “ecce Deus”: a imagem de Deus que nunca ninguém jamais viu (Jo 1,18). E, embora o homem seja o objeto desse ato supremo de amor, ele não pode participar: é um ato exclusivo da divindade, onde apenas o Pai e o Filho participam; de onde vem a ordem explícita dada aos discípulos com relação ao distanciamento (Mc 14,34; Lc 22,41), mantendo o isolamento dos discípulos, “os quais tanto o acompanham como são deixados para trás, à distância”258, apenas ao alcance da voz:
Mas, ao contrário do relato da tentação, em todo este acontecimento em parte nenhuma se fala do diabo. Toda a história da paixão o deixa à margem. Ela se passa entre o Pai e o Filho. Aquilo que interessa é a aceitação do pecado do mundo (Jo 1,29). Com este acontecimento, a potência adversária foi ‘desarmada” (Col 2,15), sem um combate expresso com a mesma.259 Neste mesmo raciocínio, 1Cor 2,6 é citado por Balthasar como um texto que prefigura uma aceitação puramente “literária” de um dos pontos de vista gnósticos dos adversários Coríntios260: “Entretanto, o que pregamos entre os perfeitos é uma sabedoria, porém, não a sabedoria deste mundo nem a dos grandes deste mundo, que são, aos olhos daquela, desqualificados. Pregamos a sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Sabedoria que nenhuma autoridade deste mundo conheceu (pois se a houvessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória). É
258 BALTHASAR, H.U. O evento Cristo. In: FEINER, Johannes; LOEHRER, Magnus, Mysterium Salutis
III/6Vozes, Petrópolis, RJ, 1974, p.66.
259 BALTHASAR, H.U. O evento Cristo. In: FEINER, Johannes; LOEHRER, Magnus, Mysterium Salutis
III/6Vozes, Petrópolis, RJ, 1974, p.70.
como está escrito: coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Cor 2,6-9)