• No results found

5   Avsluttende  oppsummering

5.2   Utfordringer  for  fremtiden

Se as pesquisas anteriormente discutidas estavam muito mais preocupadas nos impactos da mobilização social sobre o processo de tomada de decisão política e condução de políticas públicas, esse outro conjunto de pesquisas vai perder de vista essa ênfase para ganhar em densas análises acerca dos padrões discursivos operados na internet.

De modo coerente a essa preocupação central, grande parte desses estudos se utilizará de fóruns, listas de discussão e salas de bate papo online como principais objetos de investigação (Albrecht, 2006; Brants, 2002; Dahlberg, 2001a; Hageman, 2002; Min, 2007; Papacharissi, 2004).

Não obstante, haverá em relação a esse conjunto de pesquisas uma intensa diferença no terreno argumentativo e de projeções em relação àquele outro conjunto de investigações que focalizam a eficiência das mobilizações políticas promovidas com o suporte da internet. Isso porque, a partir do momento que os parâmetros normativos da esfera pública passam a

70 fazer parte de modo sistemático das análises, as projeções passam a se tornar mais irregulares e disputadas (para não dizer contraditórias).

Uma disputa que inclusive investigará as possibilidades abertas pela internet para criar oportunidades a uma comunicação política com padrões argumentativos que os media de massa não estariam em condições de prover. Tal perspectiva será levada tão a sério por alguns pesquisadores que fará com que se coloque em questão até que ponto a internet seria ela mesma uma esfera pública, no caso, uma esfera pública virtual (Dean, 2003, Papacharissi, 2002).

Circulando na órbita dessa agenda de pesquisa, diversos estudos de casos irão favorecer a hipótese de que a internet serve sim como um ambiente adequado à deliberação pública (Dalhberg, 2001c; Price & Cappella, 2002; Strommer-Galley 2003). Essas pesquisas propõem, então, que as experiências estudadas ―podem mais adiante servir para se observar as capacidades das novas tecnologias da comunicação em gerar aprendizado público e a formas de processamento de opiniões em ambientes ricos em conversação‖ (p.323).

Essas pesquisas demonstram muito bem a natureza rugosa do terreno de análise dessa agenda pesquisa. Nesse sentido, tanto Strommer-Galley (2003) como Price & Cappella (2002) vão fazer referências diretas a outros estudos que, com os mesmos propósitos, chegam a resultados diametralmente opostos.

Dentro dessa outra perspectiva empírica da deliberação online, tem-se a pesquisa de Davis (2005) que simplesmente descarta a existência de um debate qualificado por parte das listas de discussão. Para ele, ―nos grupos políticos, os lances discursivos muitas vezes não são discussões, mas monólogos.‖ (p.123). Isso porque, o que se encontraria na listas de discussão seriam muito mais a mera expressão dos seus assinantes, que não se disporiam a considerar os argumentos dos outros, a trocar argumentos, a produzir aquilo que se te denominado de reflexividade discursiva. Nesse sentido, Maia reporta um conjunto de pesquisas que endossam a perspectiva crítica sustentada por Davis:

Conforme os estudos de Wilhelm (1999) e Hill e de Hughes (1998) evidenciam, a grande maioria dos participantes em listas de discussão política e chats expressam a própria opinião, buscam e disponibilizam informação, sem que se vinculem a um debate propriamente dito. (MAIA, 2002, p.56).

Ademais, Davis (2005) e Wilhelm (2000) apontam que essas intervenções, muitas vezes, sequer se apresentariam na forma de argumentos já que muitas delas seriam frutos de

spam ou de divulgações de notícias e informações produzidas pelos meios de massa. Uma

71 ambiente de conversação online, manifesta através de discursos de ódio, de xingamentos, daquilo que eles denominam de flaming.

Essa realidade, no entanto, é contestada por Papacharissi (2004). Nesse sentido, ela propõe compreender a civilidade de modo mais amplo (como o comportamento capaz de fortalecer a conversação democrática) e aplicá-lo como indicador analítico para estudar a qualidade discursiva das postagens de listas de e-mail.

Ao desenvolver esse estudo, a autora estabelece que a civilidade é um padrão dominante das listas estudadas, mas chega também a uma conclusão que parece ser pertinente a quase totalidade das pesquisas sobre deliberação online aqui referenciadas: ―as discussões políticas online são freqüentemente dominadas por um pequeno grupo de pessoas e possuem muito pouco, se algum, impacto sobre o processo de decisão política‖ (PAPACHARISSI, 2004, p.23).

Elas chegam a ser pertinentes talvez muito mais em função das preocupações que orientam essas pesquisas do que pela natureza essencial das atividades políticas realizadas no ambiente online. Conforme foi observado anteriormente, a agenda de pesquisa da deliberação

online e da internet como esfera pública virtual está interessada basicamente na qualidade

argumentativa e discursiva que são estabelecidas entre cidadãos quando eles resolvem se engajar em debates políticos. Quando tal preocupação se torna central, aquela qualidade de efetividade e influência política - que tanto animou os pesquisadores mais ligados à mobilização de recursos - tende a desaparecer. Daí, então, que mesmo os achados de conversas com altos níveis de civilidade e argumentação racional tendem a não demonstrarem maior relevância em termos de verificar uma influência efetiva, da constituição de input das razões aí processadas sobre o sistema político. Nesse sentido, Gomes observa ceticamente que:

apesar do fato de a internet prover espaço adicional para a discussão política, ela também é atingida pelas blindagens antipúblico do nosso sistema político, o que diminui consideravelmente a real dimensão e o real impacto da opinião pública tanto on-line quanto off-line. (GOMES, 2005a, p.221)

Isso não significa, por outro lado, que os fenômenos estudados pela agenda de pesquisa em questão possam ser considerados nulos em termo de funções deliberativas. Nesse sentido, Maia (2008) coloca a necessidade pensar não em efeitos diretos sobre o sistema político ou em níveis extremamente exigentes de discutibilidade como os problemas mais adequados para se estudar as conversações políticas online. Esses fenômenos, nesse caso, talvez estivessem muito mais aptos a revelar como eles podem ―preparar os cidadãos e os

72 atores coletivos cívicos para debates mais exigentes‖ (MAIA, 2008a, p.51) do que para provar se a internet tem ou não vocação para abrigar deliberação, se ela pode ou não ser considerada como uma esfera pública virtual.

Não obstante, talvez a maior lacuna teórico-metodológica desses estudos resida em explorar o papel da internet em abrigar deliberações compreendendo estas como encontros dialógicos singulares (Maia, 2008a, p.52). Desse modo, cria-se um esforço de medir a deliberação e avaliá-la em espaços de trocas discursivas mediadas por computador, a exemplos de fóruns, listas de discussão e salas de bate papo online.

O problema evidentemente não se refere aos objetos de estudo para pensar a deliberação e a esfera pública, mas na sua abordagem, nas perguntas de origem, nas hipóteses que são produzidas e testadas. Isso porque, salvo exceções (Friedman, 2005, Gillett 2003, Haje, 2002; Siapera, 2005), ao avaliarem um momento (um recorte) deliberativo, essas pesquisas exigem de uma situação muito específica uma série de demandas e questões que só serão possíveis de serem adequadamente avaliadas no processo deliberativo ampliado, ou seja, quando se leva em conta que as deliberações se constituem como processos complexos, que inclui uma diversidade de atores e que é processada pelo intercruzamentos de múltiplas arenas deliberativas e âmbitos interacionais.