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Utfordringene knyttet til en særregel for forbrukere

O trabalho ocupa um lugar fundamental na dinâmica de envolvimento afetivo entre as pessoas, condições favoráveis à livre utilização das habilidades e ao controle do trabalho pelos dos trabalhadores, sendo identificadas como itens importantes para proporcionar satisfação e saúde aos trabalhadores. Por outro lado, o trabalho desprovido de significação, sem suporte social, não reconhecido ou que se constitua em fonte de ameaça à integridade física e/ou psíquica, pode desencadear intensos sofrimentos mentais.

Quando um indivíduo é interpelado pelo outro sobre a sua identidade, provavelmente depois de perguntar qual o nome, a segunda pergunta pode ser “o que você faz na vida?” Esta forma tão banal na linguagem cotidiana, de perguntar a alguém qual a sua atividade profissional, traduz bem a importância concedida ao trabalho no conjunto de nossa vida cotidiana, demarcando a identidade pessoal e social dos indivíduos. Corrobora H:

Eu vejo como fator fundamental para a subjetividade as relações de trabalho, pois ele passa a ser a referência social de cada um. Quando se apresenta uma pessoa, geralmente falamos do trabalho que a pessoa realiza. É assim... Primeiro te perguntam o teu nome, depois o teu trabalho (H). (informação verbal).

Desta feita, o trabalho não é só um modo de ganhar a vida, é um lugar social ao qual se associam, às vezes, uma vestimenta específica, um vocabulário particular, com desejos e

32 A Hidra de Lerna era um animal fantástico da mitologia grega que habitava um pântano junto ao lago de

Lerna, na Argólida, que hoje equivaleria à costa leste da região do Peloponeso. A Hidra tinha corpo de dragão e sete cabeças de serpente cujo hálito era venenoso e que podia se regenerar. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hidra_de_Lerna>

aspirações singulares. A própria linguagem sofre interferências diretas do trabalho que se ocupa. Diferentes ambientes de trabalho determinam indivíduos totalmente diferentes. O trabalho do homem é seu modo de viver e de manifestar sua vida, sua maneira de ser, que é conjugada ao que ele produz e consome e ao modo como ele produz e consome. As relações de trabalho determinam o seu comportamento, suas expectativas, seus projetos para o futuro, sua linguagem, seu afeto, para quem cada gesto, cada palavra, cada reflexão, cada fantasia traz a marca indelével, indiscutível de sua classe social, do lugar que o indivíduo ocupa na produção (CODO, 2004, p. 139).

Ao relatarem as experiências dos usuários no mundo trabalho, os profissionais fazem referência, dentre outros elementos, à falta de sentido nas tarefas desempenhadas como elemento que impacta a saúde mental:

[...] tem usuários que referem que por uma falta de identificação com o trabalho que desempenhavam houve uma agutização de seu desequilíbrio emocional. Dizem que estudaram nos livros as tarefas que iriam desempenhar e o prazer das mesmas – na verdade idealizaram o emprego – mas quando se deparara com o trabalho real a frustração torna-se insuportável para eles. Não conseguem se adaptar; e aí vem o conflito entre aquilo que estudaram e aquilo que está na vida real do trabalho, as normas e rotinas repetitivas e às vezes autoritárias, além do baixo salário e da falta de reconhecimento (E).

Atendi um agente prisional que cuidava de crianças e adolescentes em conflito com a lei. Acontece que ele tinha a formação de professor de geografia e tinha o ideal de mudar a realidade daqueles jovens com a educação. Começou a criar regras próprias e ensinar os jovens. Por conta disso o usuário passou a sofrer muitas perseguições da chefia e colegas. Foi até transferido de local de trabalho. Adoeceu. Deprimiu e passou a apresentar fortes crises de ansiedade (I). (informação verbal).

Percebe-se pelos relatos que o sofrimento psíquico torna-se patogênico diante da impossibilidade da participação do trabalhador e de sua criatividade no processo de trabalho, intensificando o sofrimento, levando-o até a doença mental. O mito de Sísifo, já citado anteriormente, parece ser uma tradução perfeita para o drama do trabalhador que reconhece o seu trabalho como estranho a si mesmo, carente de sentido ao homem que trabalha. Assim o interpreta Guarany (2014): “O desespero do personagem [Sísifo] estava em ter consciência de que a tarefa de levar todos os dias montanha acima o pedregulho não fazia qualquer sentido, pois chegando lá ele era obrigado a largá-la e ela retornava ao ponto inicial” (GUARANY, 2014, p. 174-175).

A falta de identificação no trabalho leva necessariamente à problematização da relação homem-tarefa, na qual sobressaem três dimensões interligadas do fazer. Para Dejours (1993, p. 103):

a. O organismo do trabalhador não é um motor banal submetido a um só tipo de excitação. Ele deve gerenciar, ao mesmo tempo, excitações exteriores e interiores; b. o trabalhador não chega ao seu trabalho como uma máquina nova. Ele tem uma história pessoal, que se concretiza por certa qualidade de suas aspirações, de seus desejos, de suas motivações e de suas necessidades psicológicas. Isto confere a cada indivíduo, características únicas e pessoais, que combatem o mito do "trabalhador médio" tão ao gosto do taylorismo; c. o trabalhador, em função de sua história, dispõe de vias de descarga preferenciais, que não são as mesmas para todos e que participam na formação daquilo que se chama estrutura da personalidade.

Tais considerações, quando submetidas aos relatos dos entrevistados, parecem ter sido desconsideradas, pois como se evidencia no relato de I, foram bloqueadas pela organização a história profissional do trabalhador, suas motivações e suas necessidades psicológicas em desenvolver um trabalho criativo que lhe proporcionasse prazer e sentido nas tarefas realizadas. Sua individualidade foi suprimida em detrimento da imposição da “camisa de força” institucional como “trabalhador médio”. Essas observações também são pertinentes ao relato de E, sendo que, neste último, o choque entre o “emprego idealizado” – mediatizado pelo aparelho ideológico da escola – e a realidade empírica do emprego foi mais evidente. Parece que o conflito que opõe o desejo do trabalhador à realidade do trabalho coloca face a face o seu projeto criativo e a organização do trabalho, que limita a realização desse projeto e prescreve um modo operatório estranho às aspirações e necessidades do trabalhador. Mais uma vez, para Dejours (1993, p. 104):

Quando se coloca face a face o funcionamento psíquico e a organização do trabalho, descobre-se que certas organizações são perigosas para o equilíbrio psíquico e que outras não o são. As primeiras atacam e destroem o desejo dos trabalhadores. Elas provocam doenças mentais e físicas. A energia psíquica se acumula, se transformando em fonte de tensão e desprazer, até que aparece a fadiga [...] e, a seguir, a patologia.