De volta à Representação, o abaixo-assinado anexado à mesma é composto por
170 assinaturas, todas de homens. Destes, 116 fazem alguma declaração a respeito de si,
sendo 111 da profissão e 03 de sua etnia (italianos).44 As informações profissionais foram declaradas como se segue:
Tabela 9: Profissão/Número de signatários da Representação encaminhada ao Chefe da Polícia da província de São Paulo (Jacareí/1883)
Profissão Nº declarantes Negociante 32 Fazendeiro 20 Artista 16 Proprietário 13 Lavrador 12 Empregado 07 Comerciante 06 Empregado público 02 Capitão da reserva 01 Industrial 01 Marchante 01 TOTAL 111
Fonte: APHJ – Fundo Fórum – Ano 1883 – Caixa 376 - Abaixo-assinado anexado à “Representação”.
44 Dos 02 faltantes para fechar esta conta, a informação complementar ao nome estava ilegível. Diante de
Sobre a ação transcorrida em Araraquara, junto aos relatos das ocorrências,
também é encontrado um abaixo-assinado nos mesmos moldes daquele de Jacareí.45 Este contêm 213 assinaturas, também somente de homens, sendo que 31 dos mesmos
não declararam sua atividade profissional. O restante, assim o fez:
45 A ocorrência de Araraquara é anterior à de Jacareí. A primeira ocorreu em entre os dias 28 e 29 de
Tabela 10: Profissão/Número de signatários da Representação encaminhada ao Presidente da província de São Paulo (Araraquara/1883).
Profissão Nº declarantes Lavrador 128 Negociante 18 Artista 08 Professor 03 Lavrador negociante 02 Proprietário 02 Médico 02 Advogado 02 Vereador 02 Feitor 01 Vigário 01 Tabelião 01 Diretor de colégio 01 Escrivão de órfão 01 Comerciante 01 Fiscal de Câmara (?) 01 Dentista 01 Carpinteiro 01 Sapateiro 01 Escrivão do (?) 01 Professor de música 01 Procurador da Câmara 01 Farmacêutico 01 Alferes reformado 01 TOTAL 182
Fonte: APESP, Polícia, Ordem 2626, Caixa 192 - Cópia da carta e abaixo-assinado ao Presidente da província de São Paulo sobre a expulsão do advogado Antonio Henrique da Fonseca de Araraquara.
.
Se compararmos o perfil profissional dos participantes na ação de Jacareí ao
Fonseca na cidade de Araraquara naquele mesmo ano, encontramos semelhança na
variedade de profissões dos indivíduos envolvidos nas ações. À que podemos creditar a
aderência nos atos de expulsão, tanto em Araraquara quanto em Jacareí, de tantos
sujeitos, considerando que os maiores interessados eram os proprietários de escravos?
Voltando nossa análise para o documento referente ao município de Jacareí,
primeiramente, não nos é possível precisar, efetivamente, quem eram os proprietários de
escravos entre aqueles que tomaram parte do ato de expulsão ou concordaram
ideologicamente com o mesmo a ponto de assinarem a Representação sem terem
participado do ato de expulsão46.
Em segundo lugar, a imprecisão dos termos fazendeiro, proprietário e lavrador
elencados nas tabelas acima expostas a partir da descrição que fazem de si mesmos os
signatários dos abaixo-assinados contribui para o aumento da indefinição dos sujeitos
que tinham cativos em sua posse. Ao definir os diferentes grupos que compunham a
sociedade do município cafeeiro de Vassouras, Stein considera que o
“termo lavrador incluía a agricultores de grandes e pequenas lavouras, donos de propriedades e fazendeiros sem terra. Em primeiro lugar os fazendeiros (possuidores de fazendas acima de 30 alqueires); em seguida os sitiantes (possuidores de propriedades – sítios ou situações – até 30 alqueires). Os lavradores também incluíam os agregados, homens livres que os fazendeiros permitiam residir na fazenda e lavrar a terra sem nenhum direito de propriedade. Colonos ou trabalhadores contratados completavam o grupo conhecido como lavradores. Dependendo do tamanho da propriedade e do número de escravos, os lavradores incluíam tanto os muito ricos quanto àqueles beirando a pobreza.”47
Diminuindo a importância das imprecisões acima apontadas, é preciso
considerar que a instabilidade social em torno das questões relativas à escravidão,
46 Através do relato das testemunhas inquiridas não é possível precisar se todos os indivíduos que
participaram do ato da expulsão assinaram o abaixo-assinado (ou o contrário). APHJ - Fundo Fórum – Ano 1883 – Caixa 376 - “Inquérito”.
47 STEIN, Stanley. Vassouras. Um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova
principalmente em municípios localizados em áreas de produção cafeeira neste período,
atingia a vida de todos48, e desta forma, não seria difícil que um acontecimento como o que está sendo analisado alterasse a rotina das pessoas que viviam na localidade, a
ponto dessas tomarem partido, muitas vezes pressionadas pelas figuras de poder local,
do lado daqueles que lutavam pela manutenção do status quo na questão da escravidão.
Isso podemos depreender da seguinte passagem do depoimento do já citado Manoel
Antonio Catharino de Freitas Júnior, negociante, que diz ter participado da “referida expulsão por ser isto de necessidade para tranqüilidade de toda a população, lavoura e comércio do qual faz parte”. 49
Muitas outras possibilidades poderiam ser aventadas sobre a diversidade de
sujeitos envolvidos na defesa dos interesses dos escravocratas a partir de suas
assinaturas na Representação, mas nos aproximamos mais de perceber a estratégia de
anexar um abaixo-assinado àquele documento que relatava ao Chefe de Polícia da
província os acontecimentos como uma tentativa dos mais poderosos, ou daqueles mais
expostos aos problemas que poderiam surgir junto à escravaria, que também poderiam
ser chamados daqueles que tinham mais a perder com o alastrar de ideais abolicionistas,
de buscarem dar uma maior legitimidade à causa ao associarem-na à coletividade, à
população da cidade.
No entanto, apesar do discurso generalizante de alguns envolvidos, que se referiam àqueles que participaram do ato de expulsão como “quase toda a população”, é possível ouvir algumas vozes dissonantes entre aqueles que assistiram aos
acontecimentos, e a respeito disso, encontramos vestígios e sinais nos documentos.
48 Sobre esse aspecto escreve Machado: “É verdade que senhores de escravos, feitores, camaradas e
mesmo a população em geral, residentes em áreas estratégicas de produção cafeeira, tal como Campinas, a partir da segunda metade do século XIX, passaram a conviver, de uma maneira ou de outra, com o temor provocado pela alta concentração do braço escravo, espelhada na forma de uma crescente criminalidade, caracterizada, principalmente, pelos homicídios contra as figuras que representavam o mando senhorial.” Machado, O Plano..., p. 68.
49APHJ – Fundo Fórum – Ano 1883 – Caixa 376 - “Inquérito” - Depoimento da 3ª Testemunha, Manoel