O presente capítulo trata do método utilizado para a condução da pesquisa. Primeiramente, é descrita a abordagem metodológica da Análise Ergonômica do Trabalho e em seguida, os métodos e técnicas específicos que foram empregados.
4.1.A Análise Ergonômica do Trabalho
De acordo com Wisner (1994), a AET é composta basicamente por cinco etapas: a) análise da demanda – ponto de partida da AET que visa definir um problema a ser estudado e resolvido em um contexto. A partir dos diferentes pontos de vista, é necessário então reformulá-la a fim de contribuir para a elaboração de hipóteses, que guiarão a escolha das investigações necessárias para responder às questões colocadas; b) análise do ambiente técnico, econômico e social – ou análise da tarefa, requer o entendimento do que é solicitado ao trabalhador e inclui informações como: o processo técnico, a organização do trabalho, a natureza da tarefa, os constrangimentos temporais, os resultados quantitativos e qualitativos, a circulação de informações, hierarquia, entre outros (GUÉRIN et al., 2001; ABRAHÃO et al., 2009);
c) análise das atividades e da situação de trabalho – etapa considerada por Wisner (1994) como o essencial do trabalho do ergonomista. O autor resume os três principais objetivos da análise da atividade como sendo: realizar um inventário das atividades no trabalho, indicar as principais inter-relações entre essas atividades e descrever o trabalho em sua totalidade. Portanto, esta etapa consiste em compreender o trabalho que é efetivamente realizado pelos operadores, as dificuldades encontradas e as estratégias utilizadas para enfrentá-las;
d) recomendações ergonômicas – elaboradas a partir do diagnóstico, produto essencial da análise efetuada que sintetiza os resultados das análises realizadas, as recomendações sevem de guia para concepção e para o projeto das transformações do trabalho;
e) validação da intervenção e eficiência das recomendações – essa etapa evita que as recomendações sejam negligenciadas, mal interpretadas ou esquecidas (WISNER, 2005).
Os métodos e as técnicas empregadas dentro da AET dependem de cada situação estudada, sendo ajustados ao contexto, às questões e ao que foi identificado (GUÉRIN et al., 2001). Assim, a AET é um método aberto, em que a escolha das ferramentas de coleta de dados depende de cada situação e do que foi colocado na demanda. Entretanto, seja qual for a situação, toda AET parte de dois pressupostos essenciais: o estudo de campo em situação real e a participação do operador no processo de análise (VASCONCELOS et al., 2008).
O estudo de campo em situação real significa a observação do exercício efetivo da atividade de trabalho para alcançar uma apreensão desta que ultrapasse as representações parciais dos diferentes atores envolvidos. Segundo Guérin et al. (2001), é a observação que permite ao pesquisador tomar conhecimento dos elementos da situação e ela pode ser realizada de maneira mais aberta (geralmente nos primeiros contatos com o posto de trabalho), chamada de observação livre, como também pode focar na coleta de determinadas informações com objetivos precisos, chamada de observação sistemática. Conforme Abrahão
et al. (2009), nas observações sistemáticas, as variáveis usualmente coletadas são: a
localização, os deslocamentos, a exploração visual, as comunicações, as posturas, as ações, as verbalizações, os instrumentos e o ambiente físico.
Todas as observações tem por objetivo desvendar a lógica interna da atividade e devem considerar fatores os significativos, o desenvolvimento das ações, seus encadeamentos e suas relações (ABRAHÃO et al., 2009). Entretanto, embora a observação do comportamento permita identificar vários fatores que não funcionam corretamente em uma situação, ela não é suficiente para explicar o porquê e os motivos que levam os operadores a agirem de determinada maneira (LIMA, 2000). Para Guérin et al. (2001), a atividade não pode ser reduzida ao que é manifesto e, portanto, observável. Os raciocínios, tratamento de informações, planejamento das ações, só podem ser realmente apreendidos por meio das explicações dos operadores.
Dessa forma, a participação do operador no processo de análise é necessária para as diferentes etapas da ação ergonômica, nas modalidades de verbalizações e entrevistas. Segundo Guérin et al. (2001) as verbalizações são importantes:
• nos primeiros contatos com o operador, para compreender as principais características da atividade, os constrangimentos sob os quais ela se realiza, suas flutuações e suas consequências mais evidentes para a saúde e para a produção; • no decorrer dos períodos de observação mais sistemática, para compreender melhor o
desenvolvimento da atividade observada. Elas se referem então aos eventos que se produzem e às ações efetivamente realizadas e;
• no momento da interpretação dos resultados, para contribuir para a elaboração e validação do diagnóstico final.
As entrevistas são divididas em três modalidades: aberta (ou não-estruturada), semi- estruturada e fechada (ou estruturada). Conforme explicam Abrahão et al. (2009), cada modalidade é escolhida em função do momento da ação e dos objetivos que se pretende atingir:
• as entrevistas abertas consistem em realizar série de perguntas sem um planejamento prévio rigoroso e sem estrutura definida a fim de obter informações gerais sobre o trabalho realizado;
• as entrevistas semi-estruturadas consistem em formular questões especificas a partir de um roteiro predefinido, porém não rígido, para obter informações detalhadas sobre determinada situação;
• já as entrevistas fechadas consistem em formular questões pontuais com um roteiro fixo e estruturado e com respostas predefinidas para obter informações específicas e objetivas sobre a situação de trabalho.
Outra modalidade de entrevista crucial em ergonomia é a entrevista em autoconfrontação, já que ela representa o principal meio de validação dos resultados e obtenção do diagnóstico final. A autoconfrontação consiste em restituir ao operador os resultados da análise de modo que ele valide-a, corrija possíveis falhas ou complete a análise (WISNER, 1994), haja vista que é o operador quem detém todos os conhecimentos sobre o trabalho.