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As organizações criminosas, de forma geral, buscam explorar as fraquezas do Estado, averiguando os setores nos quais é mais fragilizado, isto é, onde o Estado está menos presente e onde este oferece menor assistência. Assim, a organização mafiosa examina as opções que melhor garantem a sua lucratividade e assim, se estabelece e se fixa no território e nos setores.

A característica mais marcante das organizações criminosas do tipo mafiosa na Itália é a infiltração dos integrantes da Máfia no setor público. Estes se infiltram para obter controle e/ou gestão de atividades econômicas, especialmente na região Sul, onde sempre se constatou maior fragilidade do Estado no controle da gestão pública.

Os agentes mafiosos se infiltram na política e passam a agir, direta ou indiretamente, nos negócios públicos, conseguindo informações a respeito de licitações, ou mesmo conseguindo direcioná-las de acordo com os seus objetivos ou fraudá-las (MENDRONI, 2009).

Na Itália quatro organizações do tipo mafiosas são dadas como as principais, são elas: a Cosa Nostra, ´Ndrangheta ou La Santa, Camorra e a Sacra Corona Unita. Cada uma origina-se em uma região e atuam em territórios diferentes, possuem características específicas (algumas comuns) e atividades de maior atuação como se pode notar na tabela. Esta, basicamente, fará o primeiro contato com cada organização. No entanto, no decorrer da apresentação da história da Máfia, será possível conhecê-las e compreender que tipo de “fenômeno” é caracterizado como “Máfia”. Ademais, percebe-se que muitas vezes as definições

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para Máfia mesclam-se com a sua própria história, justamente porque o vocábulo Máfia podia significar um indivíduo, uma atitude em certo contexto ou ainda, uma única organização criminosa.

COSA NOSTRA NDRANGHETA (LA SANTA)

SICÍLIA CALÁBRIA

Estruturada em "famiglias" pequenas e fechadas Estruturada em "famiglias"

Envolvimento político Horizontal

Empreendedorismo Núcleos independentes

Tráfico de drogas Contrabando de cigarros

Tráfico de armas Tráfico de entorpecentes

Tráfico de armas

Tráfico de humanos

Maior agressividade

"Maçomafia" - Globalização

CAMORRA SACRA CORONA UNITA

CAMPAGNIA PUGLIA

"Clientelismo" Menor e é a mais nova organização

"Favoritismo" Interesse pelo Mar Adriático

"Malavita" Tráfico de entorpecentes

Domínio territorial sem famílias de

sangue Tráfico de armas

Constante conflito entre as células

urbanas Tráfico de humanos

Contrabandos exIugoslávia, Conexões com países como a

Tráfico de entorpecentes Turquia, Grécia, Líbano e Israel Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Síria, Tráfico de armas

Não possui envolvimento direto com a Política

Quadro 1 - Principais organizações criminosas italianas e algumas de suas características

Fonte: Mendroni, 2012 / Elaboração Própria.

É interessante observar que a ´Ndrangheta se origina na época da unificação da Itália – fundada em 1860 por um grupo de picciotti, membros da Máfia siciliana que foram banidos de sua ilha nativa pelos novos governantes do norte e se estabeleceram na Calábria. Seu nome é derivado da palavra grega andragathía, que

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significa lealdade e coragem - atributos que ajudaram os seus fundadores a ascender ao poder. Com seus membros providos de várias relações estabelecidas ao redor do casamento consanguíneo, a ´Ndrangheta se desenvolveu até o fim da década de 1980, primordialmente dentro das fronteiras italianas.

Ao contrário da Cosa Nostra, não se expandiu para as Américas, preferindo consolidar-se na Itália por meio de uma rede de n´drine espalhadas por todo o país. A identidade geográfica sempre foi uma característica da organização. Fazendo uso da corrupção e da intimidação, discretamente, as n´drine tiveram acesso às instituições italianas; de bancos às indústrias; de entidades locais às empresas estatais. Como exemplo, na década de 1970, uma bem sucedida política de penetração na maçonaria proporcionou as n´drine canais diretos com o poder judiciário e com os partidos políticos (NAPOLEONI, 2011, p.75)

A ´Ndrangheta difere-se também em sua estrutura interna, cuja configuração não é piramidal como a da Cosa Nostra, mas de tipo horizontal, podendo ser mais “autônoma” em seus respectivos territórios.

Atualmente (2011), as ´ndrine já se encontram espalhadas ao redor do mundo e fazem parte de uma entidade coletiva ainda ligada ao país de origem, mas desprovida de um círculo interior de comando, como sucede na Cosa Nostra, para que a organização não possa ser prejudicada por indivíduos de dentro da organização.

Os chefes das famílias se encontram uma vez por ano para discutir negócios e planejamento. As decisões são implementadas pelos chefões (capos) em seus próprios territórios. As autoridades italianas acreditam que a ´Ndrangheta é composta por 160 famílias e 6 mil pessoas somente na Itália (dados de 2011) (NAPOLEONI, 2011, p.76)

As ´ndrine não praticam assassinatos públicos espetaculares como os praticados pela Máfia siciliana com o objetivo de não causar alarde, preferindo assim, as execuções e assassinatos mais “silenciosos”.

No que se refere às diferenças de perfis e táticas de ação, a ´Ndrangheta assemelha-se a Cosa Nostra no código de conduta. A traição à organização criminosa é punida com a morte de todos os membros da família com rituais de execução (NAPOLEONI, 2011, p.76-77).

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As associações mafiosas surgiram por meio do reconhecimento mútuo de similaridades institucionais, incluindo certos paralelismos quanto ao modelo organizacional, cultura e regras normativas. A Cosa Nostra, por exemplo, foi a resposta tribal do campesinato siciliano do século XIX da conquista militar da ilha por Garibaldi. A solidariedade mecânica é particularmente forte nas sociedades primitivas e enfraquece com a modernização. A regra do casamento consanguíneo e estritamente observada durante um século, garantiu uma forte identidade tribal no seio das ndrines que são, por assim dizer, famílias ampliadas de caráter étnico e inibiu mudanças (NAPOLEONI, 2011, p.76-77).

Ao contrário da Máfia siciliana, a ´Ndrangheta nunca objetivou tornar-se uma força política. Seu principal intuito sempre foi o controle da economia local. O pizzo, a taxa de proteção mensal imposta a todos os negócios da área sob seu controle, simboliza essa denominação. A forte ênfase na economia em detrimento da política foi útil para a transformação da ´Ndrangheta em um fornecedor de serviços para o crime transnacional.

A ´Ndrangheta estabeleceu parcerias lucrativas durante toda a década de 1990. Com sua expertise e sua posição na infraestrutura econômica da Itália auxiliou seus parcerios a entrarem no mercado europeu e obterem lucro em suas atividades. Como a territorialidade continua sendo a chave do crime organizado, na economia globalizada o crime assim se expande (NAPOLEONI, 2011, p.76-77).

A concorrência entre organizações mafiosas locais impede a formação de uma rede internacional centralizada, estimulando, em seu lugar, o estabelecimento de alianças econômicas. O novo modelo do crime organizado global funciona através de parcerias entre o crime estrangeiro e o local/italiano.

Durante a década de 1990, os membros ´ndrines se mudaram para o exterior para implantar centros de supervisão das atividades de contrabando e lavagem de dinheiro. Estimuladas pela demanda de serviços por parte dos novos clientes, as ´ndrines espalharam-se para além da Europa, replicando a rede altamente integrada que atuava na Itália.

a incapacidade do Estado de dirigir uma transformação significativa da economia...pode levar ao enraizamento das máfias. Imensas oportrunidades surgem para o crime quando a política perde o controle das mudanças econômicas (NAPOLEONI, 2011, p.87).

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