McNally e Florescu (1995), em sua obra Em Busca de Drácula e outros vampiros, afirmam que Bram Stoker pesquisou o tratado de Sabine Baring-Gould para compor sua obra. Elizabeth Miller (2000), responsável pela transcrição das notas68 de Stoker, corrobora a afirmação de McNally e Florescu. Segundo Miller, Book of Werewolves se encontra entre as referências do autor de Drácula na composição de seu romance. Por sua vez, Montague Summers (2003), afirma que a obra de Sabine Baring-Gould não apenas se tornou famosa na Inglaterra do final do século XIX e início do século XX como também constituiu influência clara na obra de Stoker.
Book of Werewolves, publicado em 1889, não é apenas um tratado sobre licantropia,
mas também e, principalmente, uma significativa referência sobre a cultura popular europeia do século XIX. Fruto de extensa pesquisa de campo empreendida pelo autor, este livro apresenta transcrições de contos tradicionais e anotações sobre o folclore inglês, francês, eslavônico, romeno e húngaro referente a criaturas sobrenaturais. Como documento, a obra de Sabine Baring-Gould apresenta valor inestimável para o estudo da cultura popular e do imaginário destes povos, no que se refere a criaturas sobrenaturais.
Utilizando da concepção de Laplantine e Trindade (1996) é tomado, neste trabalho, como sobrenatural, o fantástico presente na realidade, na representação do real, como elemento desconcertante, dissonante e improvável; portanto, além do natural, do que seria esperado de acordo com as leis da natureza e a visão de mundo do povo em questão. Homens que se transformam em animais, mortos que se erguem da sepultura, magia e imortalidade, para as comunidades estudadas por Sabine Baring-Gould constituem-se exemplos do sobrenatural.
Em sua obra, Baring-Gould aponta exemplos, que apesar de hoje serem explicáveis pela ciência, na época e nas comunidades pesquisadas pelo autor não tinham outra explicação senão o fantástico. Canibalismo, sadismo, distúrbios de personalidade e transtornos mentais, no contexto e no período pesquisados, assumiam contornos sobrenaturais. Na mentalidade mágico-religiosa, tais comportamentos só poderiam ser considerados como oriundos da intencionalidade de uma entidade
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As notas de Bram Stoker, coleção de 162 páginas manuscritas, se encontram guardadas na Fundação Rosenbach, na Filadélfia, Estados Unidos. No final de 2008, a pesquisadora canadense Elizabeth Miller, uma das mais destacadas autoridades mundiais no assunto, transcreveu e publicou as notas de Stoker no recém lançado Bram
Stoker's Notes for Dracula: A Facsimile Edition. Não me foi possível ainda conseguir uma edição, mas em sua obra
anterior, Dracula: Sense and Nonsense (2000), a autora afirma constar a obra de Sabine Baring-Gould na lista de influências reportada pelo próprio Bram Stoker em suas notas. Em várias páginas de seu manuscrito, Stoker se refere ao trabalho de Baring-Gould, sobretudo no que diz respeito à aparência física, comportamento e habilidades sobrenaturais de sua personagem vampírica.
sobrenatural, violenta e bestial, fora da esfera de ação do ser humano69.
Nessa perspectiva, essa referência se torna imprescindível para a apreensão da relevância do objeto da presente pesquisa e devido a isso nos reportaremos aos principais temas tratados por Baring-Gould e que embasaram a construção do Drácula de Bram Stoker.
A trajetória intelectual de Sabine Baring-Gould
Nascido em Exter, Inglaterra, em 1834, Sabine Baring-Gould foi um homem de muitos talentos. Formado em Artes na conceituada Universidade de Cambridge, Sabine concluiu o mestrado em Artes na mesma universidade em 1860. Tendo se tornado curador do museu Horbury Bridge, em West Yorkshire, ele se interessou pela arqueologia e pela história.
Ainda em West Yorkshire, Baring-Gould se tornou sacerdote anglicano, e, em conjunto com o museu Horbury Bridge, restaurou a igreja de Saint Peter‟s, no condado de Lewtrenchard, onde herdou um antigo manor70 da família.
Como arqueólogo e tendo o museu e a Igreja Anglicana como patrocinadores, Baring- Gould viajou por grande parte da Europa Continental e pelas Ilhas Britânicas, recuperando obras de arte, relíquias pré-cristãs, monólitos druídicos e documentando manifestações da cultura popular. Suas principais publicações, Book of Werewolves e Curious Myths of the Middle Ages trazem narrativas populares, contos e lendas tradicionais de diversas partes da Europa, enquanto Songs of
the West, uma de suas obras mais famosas, apresenta músicas e partituras folclóricas da cultura
popular inglesa, francesa, germânica e latina. (BARING-GOULD, 2003)
Além de trabalhos acadêmicos e sobre a cultura popular europeia, Baring-Gould também se tornou escritor de ficção, tendo publicado novelas e contos, sendo a maioria de terror, no estilo gótico vitoriano. Seu romance mais famoso na Grã-Bretanha é Mehalah, uma narrativa sobre fantasmas.
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Jhon Sanford (1988), em sua obra Mal, O Lado Sombrio da Realidade, ressalta como a cultura cristã, tanto do catolicismo romano quanto do catolicismo ortodoxo e das vertentes protestantes, na Europa, se dedicou a construir entes sobrenaturais capazes de portar todas as características tidas como imorais ou anti-éticas. A construção da figura do Diabo, embora tenha tido mais proeminência durante a baixa Idade Média, como ressalta Nogueira (2000), se tornou uma representação de longa duração, tendo altíssima influência no imaginário popular e na cultura de massas tanto da Idade Moderna quanto dos nossos dias.
Embora tenha sido construída como um símbolo da cultura de massas, a figura cristã do Diabo foi introjetada através da imposição cultural e do sincretismo, na cultura popular europeia ao longo dos séculos.
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Manor, tipo de construção medieval comum na Inglaterra, constitui-se de uma mansão ou casarão fortificado, cercado por terras cultivadas e/ou florestas.
Convidado a lecionar na Universidade de Hurstpierpoint, em Mid Sussex, Inglaterra, Sabine se tornou famoso por sua excentricidade. O professor criava morcegos e fazia questão de dar aulas com seus animais de estimação sobre os ombros.
Em 1871, tornou-se reitor da Universidade de East Mersea, em Essex, e foi sucessivamente reeleito para o cargo, ocupando a reitoria durante dez anos. Em 1897 se tornou presidente do Royal Institution of Cornwall, o instituto do patrimônio histórico da região da Cornualha, sudoeste da Inglaterra. Sabine morreu em 1924, oito anos após a morte de sua esposa, com a qual se casou em 1868 e com quem teve quinze filhos. (BARING-GOULD, 2003)
Entre diversos feitos de Sabine Baring-Gould encontram-se composições musicais, entre elas o hino religioso Onward Christian Soldiers, a tradução de músicas e documentos em língua basca, além de publicações científicas, contos e estudos etnográficos. (BARING-GOULD, 2003)
A proximidade de Baring-Gould com a literatura fez com que suas obras científicas obtivessem bastante repercussão entre autores de ficção e recebessem críticas de acadêmicos. Montague Summers, na introdução de sua obra Werewolves in Lore and Legend (2003), tece críticas a Baring-Gould, acusando-o de ser um “literato” e não um cientista.
Book of Werewolves
A primeira edição da obra Book of Werewolves, de Sabine Baring-Gould, foi publicada em 1889. Com 16 capítulos, trata do imaginário relativo à licantropia, a habilidade creditada a certos humanos de conseguirem alternar entre a forma humana e uma forma animal. Embora na maior parte da obra o autor refira-se a símbolos da cultura popular, alguns capítulos também trabalham com a questão da licantropia na cultura de massas, sobretudo católica, como detalharemos adiante.