O arquivo é muitas vezes utilizado, aqui na secção de Política, para “pintar” as peças?
Sim, utilizamos com bastante frequência porque, muitas vezes, as notícias que nós temos para dar não são sustentadas em acontecimentos do próprio dia. Por isso, é muitíssimo frequente a utilização do arquivo. Um exemplo: uma intenção do governo. Se nem Passos Coelho nem o ministro em causa tiverem saído à rua naquele dia, nessa situação, temos que recorrer ao arquivo.
Outro dos casos é quando damos notícias de coisas que ainda não aconteceram. Do género de antevisão do futuro. O arquivo também funciona. É um recurso que utilizamos com enorme frequência. Quase diariamente.
Mas utilizam só quando não têm imagens? Ou existem outros motivos?
Às vezes misturamos imagens do dia com imagens de arquivo porque o texto que estamos a contar fica assim mais perceptível, ou até porque vem a propósito da situação a relatar. Estou a imaginar: “Seguro reúne-se hoje com parceiros sociais”. O resultado serão imagens muito paradas, fechadas numa sala, com duas pessoas ou três de cada lado, frente a frente. Portanto, não são muito atraentes para televisão. Por isso, é normal, por exemplo, irmos buscar imagens do Passos Coelho reunido com o Seguro, ou algumas imagens do Seguro reunido com o Partido... As coisas do dia são muito fechadas numa sala e acabamos por criar alguma dinâmica nas peças através do uso do arquivo.
Aqui em Política qual é a média de peças que vão para o ar usando imagens de arquivo?
Perto de 90%... Não diria 100% porque há muitas peças feitas com imagens do dia. Contudo, a maioria, seguramente, utiliza imagens de arquivo. Pode não ser exclusivamente, mas pelo menos uma parte da peça é construída com arquivo. No entanto é um valor dito assim sem nenhum rigor
científico como se costuma dizer, embora me pareça que as coisas andem mais ou menos por aí, apesar de não ter dados concretos.
Acha que deveria aparecer um oráculo a dizer que se tratam de imagens de arquivo? Acho que sim. Até porque se utilizou durante muitos anos. Lembro-me que, quando eu vim para a TVI (já lá vão uns quantos anos), usava-se sempre o oráculo a dizer ‘arquivo’. Nós quando fazíamos os oráculos dos entrevistados e dessas coisas todas, usávamos muito o ‘Lisboa hoje’ ou ‘sede do PS esta tarde’ – as peças tinham sempre o local e o momento – e, em contraponto, ‘arquivo’. Usávamos imenso esse oráculo. Depois caiu em desuso há relativamente pouco tempo, provavelmente com a evolução do cabo e a quantidade de produção noticiosa que é bastante maior e mais acelerada (não sei se tem a ver com isso...) Não sei dizer qual foi o momento em que desapareceu, nem me lembro que tenha havido uma nota de serviço a dizer ‘a partir de hoje desaparece o oráculo arquivo’. O que é certo é que desapareceu.
Mas faz falta?
Acho que não se perde. Se as pessoas souberem que são imagens de arquivo, talvez ajude a clarificar um bocadinho a informação. Mas também acho que as pessoas que estão a ver não se prendem a esse pormenor. Contudo, se podermos ser o mais transparente possível nas peças que transmitimos e na informação que damos ao telespectador, isso sim, acho que sim. É uma forma de completar a informação. Ajuda a compreender a informação que estamos a dar, embora não seja uma coisa fundamental, essencial. Não me choca que não exista, mas acho que não é demais pôr lá.
A utilização destas imagens requer mais cuidados por parte do jornalista?
Requer alguns. Há uma série de cuidados que nós temos quando usamos imagens de arquivo. No parlamento temos que ser muito rigorosos porque há deputados que, entretanto, deixaram de o ser e, para que a coisa não apareça completamente desfasada da realidade, tem que haver essa preocupação com a atualidade das próprias imagens de arquivo. Não vamos, por exemplo, pôr hoje imagens com o Sócrates no parlamento. Quando isso não acontece, pode ser propositado...
Se temos uma peça a falar do tempo em que o Sócrates era primeiro-ministro, aí é normal que ele apareça.
No entanto, se estamos a falar da bancada do PS hoje e não usamos imagens recolhidas hoje, temos que ter cuidado para que esse arquivo seja relativamente recente porque são coisas que são dinâmicas, que se vão alterando.
E há, de facto, essa preocupação da nossa parte. É lógico que tem que haver. Até porque a palavra arquivo não está lá e as pessoas podem ficar um pouco baralhadas. Portanto, é importante que as imagens correspondam mais ou menos à realidade atual.
E com a rapidez da informação, esses cuidados são sempre tidos em conta? Ou por vezes, pode escapar?
Sim, pode escapar. Isso pode sempre. A informação não é feita por máquinas, é feita por pessoas. Por isso, essas coisas podem acontecer. E podem dar origem a situações chatas. E aqui em Política isso já aconteceu alguma vez?
Que me lembre não. Até pode ter acontecido, mas, neste momento, não me ocorre nada.
E qual é a sua opinião pessoal sobre esta utilização? É mesmo necessário usar tantas imagens de arquivo?
Acho que é necessário, sim. Com a quantidade de peças que nós produzimos hoje em dia na televisão – porque temos um canal de notícias e porque cada um tem mais peças por dia para fazer –, é difícil só usar imagens do dia.
Uma das notícias de hoje é sobre um caso de gripe A na zona de Coimbra. Isto não tem nada a ver com política, mas é um exemplo. Ir por exemplo a um centro de saúde fazer imagens das pessoas em fila de espera, a fazerem análises, etc... tudo isso é um procedimento demorado. É preciso pedir autorização, aguardar a resposta, agendar a reportagem para ir lá fazer... E é óbvio que ninguém nos vai deixar ir para um centro hospitalar, hoje, fazer imagens. Tendo imagens de arquivo, é feito na hora. O arquivo é absolutamente imprescindível para este tipo de casos. E para
os telespectadores é um bocadinho indiferente se aquele braço que está a tirar sangue é de hoje ou é de há quinze dias. É igual, não tem relevância. Nesses casos, eu não vejo problema nenhum. Com a rapidez com que nós trabalhos hoje em dia, não vejo a alternativa.