O Almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan (1840-1914) foi o mais consagrado teorizador do poder marítimo. Nasceu cerca de 20 anos antes de Mackinder, tendo falecido no ano em que teve início a I Guerra Mundial.
Além de ter sido um distinto militar evidenciou-se como teorizador geopolítico, mas também como estratego, tendo sido, inclusivamente um dos principais responsáveis pelo primeiro alargamento61 do conceito de Estratégia62.
Thayer Mahan, como pensador geopolítico que releva o domínio do mar enquanto fonte estrutural do Poder, valoriza sobremaneira as vias de comunicação (Fator Circulação) e os variados recursos naturais propiciados pelo mar (Fator Recursos Naturais).
Todas as obras de Thayer Mahan, com exceção da última (datada de 1905), foram publicadas antes de Mackinder apresentar a sua teoria inicial, destacando-se a primeira de todas - The Influence of Sea Power upon History: 1660-1763 - logo em 1890, pois foi “…considerada à altura como referência na apologia do poder marítimo” (Dias, 2010, p.144), influenciando, ao longo de todo o século XX as correntes de pensamento político e militar de muitos Estados.
Thayer Mahan apreciava que o domínio do Globo seria obtido pela potência que dominasse o mar, pois este constituía cerca de 70% da superfície da Terra (Østerud, 1988). Avisava, contudo, que essa aspiração só seria possível detendo-se o controlo de bases terrestres situadas em lugares estratégicos, propiciadores de diversas primazias e que denominou como Chokepoints63. Emílio Sacchetti (1990) chama-lhes «pontos focais», esclarecendo que são pontos de interesse geopolítico, normalmente bem definidos geograficamente, onde grande número de rotas marítimas se cruzam, confluem ou se
61 O primeiro responsável pelo «1.º alargamento» do conceito de estratégia foi o Marechal Colmar von der
Goltz (1884) mas, como a sua obra não teve a mesma difusão das obras de Thayer Mahan, este, apesar de ter publicado a mesma ideia mais tarde que o Marechal Prussiano é com frequência – e erradamente - referido como o autor original da ideia.
62 Até final do século XIX, início do século XX, a Estratégia era entendida como a atividade exclusivamente de
âmbito militar (ao mais alto nível, onde se manifestava a arte e a ciência do Comandante) e que só era relevante em tempo de guerra, mas Alfred Thayer Mahan, apoiado no pensamento de Goltz, acabaria por rebater essa ideia defendendo, com êxito, que a «Estratégia» era tão importante em tempo de paz como em tempo de guerra, passando - desde então - a ser exercida a todo o tempo, competindo-lhe promover o desenvolvimento e aplicação dos instrumentos da força.
63 "Não é necessário, argumenta Mahan, que um Estado detenha o controlo de todos os pontos no mar para o
comandar (...) para controlar os pontos de estrangulamento das rotas marítimas mais importantes basta uma pequena força, altamente treinada e equipada, desde que cuidadosamente projetada para esses pontos" (Dolman, 2002, p. 34). Mendes Dias (2012, p.25) complementa salientando que “…o controlo das linhas de comunicações, utilizando o elemento líquido, assume importância significativa, assim como os canais e estreitos existentes, ensinando-nos também… que tudo tem vantagens e desvantagens, ou ainda potencialidades e fragilidades”.
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aproximam. Quem os controlar adquire vantagem, podendo ser estreitos, canais, zonas de concentração da navegação e locais de aproximação de importantes portos. São áreas críticas que convém controlar, porquanto em situação de guerra o inimigo tem grandes probabilidades de aí conseguir um ataque remunerador, pois, como refere James Kraska (2011b) são áreas onde estes meios ficam mais vulneráveis à deteção e ataque.
Hervé Couteau-Bégarie (2007) recorda-nos que a Grã-Bretanha era a potência marítima mundial desde o final do século XIX, a primeira potência marítima da história verdadeiramente mundial, porquanto o seu domínio se estendia a todas as regiões do mundo e a todos os setores de atividade, fruto de possuir uma poderosa marinha de guerra e uma marinha mercante forte, os maiores estaleiros navais do globo64, bem como o controle dos sistemas de comunicações internacionais.
No alvor do século XX, Thayer Mahan desenvolveu o seu pensamento geopolítico em torno da competição que se estabelecia e desenvolvia entre o poder terrestre, do Império Russo, e os Estados marítimos do ocidente que faziam o seu comércio através do mar, mormente o Império Britânico e os Estados Unidos da América (Antrim, 2010b); estes prolongavam os seus mercados desde as periferias da Europa até às da Ásia, fazendo uso do poder marítimo e cercando a potência terrestre, que desta forma se via condicionada na aplicação do seu poder na Ásia do Sul.
O Almirante norte-americano recorreu às evidências históricas para sustentar as suas posições em torno da hegemonia naval e, “…o seu primeiro objetivo era alertar os EUA para seguir o papel imperial dos Britânicos” (Østerud, 1988, p.194).
Este desígnio do Almirante Mahan haveria de se materializar poucos anos após a sua morte, o que nos diz da qualidade da sua «visão geopolítica», pois os EUA foram-se substituindo à Grã-Bretanha e, “…em 1916, a Royal Navy e a U.S. Navy já estavam em paridade, que ficou consagrada no Tratado Naval de Washington, em 1921. Os anos que se seguiram ficaram marcados pela progressão contínua da U.S. Navy, que ficará sozinha em primeiro lugar a partir da II Guerra Mundial” (Couteau-Bégarie, 2007, p.19).
Thayer Mahan enaltecia as possibilidades proporcionadas pela posição geográfica dos Estados com vocação marítima, destacando a extensão das suas costas (fronteira marítima), a natureza dos portos, a possibilidade de controlo de canais e rotas de navegação e, o acesso
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Com efeito, a Grã-Bretanha possuía “… os maiores estaleiros: em 1892, estes chegam a deter uns incríveis 81% da produção mundial” (Couteau-Bégarie, 2007, p.18).
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ao mar livre. Descobriu na posição insular65 da Inglaterra o principal catalisador da sua liderança mundial nos mares, o que era fortemente potenciado pelos apoios terrestres que obtinha nas suas possessões no Ultramar, onde dispunha dos melhores portos em todos oceanos, e pelo domínio inglês do Oceano Índico. Por fim, ainda destacava que junto às suas costas passam as rotas que ligam o norte da Europa e o restante Oceano Atlântico, bem como o facto de a coroa inglesa controlar as principais portas de acesso ao continente europeu, pois detinha o domínio efetivo de Choke Points como o Canal da Mancha, o Mar do Norte, o Estreito de Gibraltar e o Canal do Suez (Dias, 2010).
O geopolítico norte-americano ponderava outras características físicas, como sejam a extensão e configuração dos territórios dos diversos Estados; assim, enfatizava as vantagens que as penínsulas conseguiam obter, que em alguns casos poderiam aproximar-se daquelas que as ilhas propiciavam. Mas, não ficava por aqui, pois dava particular importância à vocação marítima dos povos e à sua propensão para o mar, que se traduziam na sua recetividade a projetos de natureza marítima, no comércio marítimo, e na exploração dos recursos que o mar facultava (Dias, 2010).
O teorizador norte-americano considera que o cerne do poder mundial está no Império Russo, que aprecia ser o poder terrestre dominante e ter dimensão transcontinental. É certo que a imensa massa terrestre e as condições geográficas existentes lhe propiciavam enorme valor estratégico, mas também ajudavam a reduzir o seu Poder, pois as desmedidas distâncias a percorrer nem sempre facilitavam a liberdade de movimentos ou proporcionavam linhas de comunicações internas adequadas (Dias, 2010), provocando também limitações que o impediam de aceder ao mar, influenciando negativamente o seu poder marítimo (Antrim, 2010a; Antrim, 2010b).
A potência terrestre estava completamente cercada por outras terras e pela calote glaciar do Ártico, o que a impelia a expandir-se para os oceanos Índico66 e Pacífico67, procurando o acesso aos mares quentes e adquirindo uma dimensão oceânica. A responsabilidade de evitar essa expansão caberia ao Estado que detinha o Poder Marítimo68, ou seja, à Inglaterra.
O Almirante Thayer Mahan enfatizava que cerca de 3/5 das terras emersas do Globo terrestre se localizavam no Hemisfério Norte, onde vivia cerca de 90% da população
65 Políbio de Almeida lembra-nos que Mahan “...considera que a melhor posição de um estado é a insular onde
não há fronteiras a defender por terra. Sem inimigos «à porta», o Estado pode dispor dos seus efetivos para outros fins, adquirindo uma maior liberdade de movimentos e uma alta flexibilidade estratégica” (1994, p.25).
66 “…através do Afeganistão e da Pérsia” (Dias, 2010, p.146). 67 “…através da Manchúria” (Dias, 2010, p.146).
68 Thayer Mahan interpreta o Poder Marítimo como sendo a “...soma de forças e fatores, instrumentos e
circunstâncias geográficas que cooperam para conseguir o domínio do mar, garantir o seu uso e impedi-lo ao adversário” (IAEM, 1982, p.72).
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mundial (Fonseca, 1973), destacando, dentro deste hemisfério, como já vimos, o poder terrestre dominante - a Rússia69.
O geopolítico norte-americano anteviu que o Grande Urso se tornaria uma potência com vontade de se expandir para a Ásia (e não só), sendo que a potência marítima poderia contê- la recorrendo “…às bases periféricas da grande massa euro-asiática” (Dias, 2010, p.151), pois a partir destas bases poderia projetar o seu Poder por mar, beneficiando da maior flexibilidade materializada nas vantagens e versatilidades dos movimentos marítimos relativamente aos movimentos terrestres. Essa contenção seria mais eficaz se a Inglaterra70 se aliasse aos EUA, Alemanha71 e Japão, o que também possibilitava o controlo da China.
Alfred Thayer Mahan, preocupava-se com as fronteiras marítimas da grande ilha que considerava serem os EUA, entendendo que a sua existência pacífica ao longo dos tempos seria melhor prosseguida se possuíssem esquadras com grandes navios de superfície, se estabelecessem bases navais no Havai, Filipinas e Caraíbas, e se construíssem um canal artificial que ligasse os Oceanos Pacífico e Atlântico (Canal do Panamá), para potenciarem a versatilidade da Armada norte-americana e o comércio marítimo (Bessa, 2001; Dolman, 2002; Dias, 2010). Com estas medidas garantia capacidade de projeção de forças, o indispensável apoio logístico e o controlo das rotas comerciais.
Foram teses que muito influenciaram o pensamento geopolítico nos EUA, procurando afirmá-los na cena internacional e, quiçá, procurando transformá-los na nova potência marítima, mas que fizeram escola e justificaram a sua profusa difusão um pouco por todo o Globo.
Em nosso entender foi um geopolítico que, pese embora relevasse a enorme massa de água existente no globo terrestre - que considerava um oceano contínuo e não interrompido - não conferiu grande importância ao espaço Ártico, porquanto não possibilitava a circulação marítima que Thayer Mahan tanto enalteceu nas suas teses. Estamos convencidos que o degelo do Ártico e progressiva navegabilidade das suas rotas importaria em profundas
69 Com efeito Thayer Mahan considerava “…que a faixa de latitude entre os 30º e os 40º norte da Ásia era uma
zona de instabilidade, onde estavam em conflito o poder terrestre da Rússia e o poder marítimo da Inglaterra” (IAEM, 1982, p. 73).
70 Com efeito na fase final do século XIX o Poder da Inglaterra já estava em franco declínio, pois “…na década de
1890, a Royal Navy, de facto renunciou ao Hemisfério Ocidental, abandonado à U.S. Navy. Face ao crescimento acelerado da Marinha Imperial Alemã, a Grã-Bretanha centrou os seus esforços em torno da metrópole: em 1902, o seu Tratado com o Japão significou o abandono da supremacia naval no Extremo Oriente, que recairá sobre o Japão, após a vitória deste sobre a Rússia na guerra 1904-1905” (Couteau-Bégarie, 2007).
71 “Por volta do ano de 1910, o Almirante americano começou a centrar as suas preocupações na Alemanha,
dadas as suas potencialidades decorrentes, essencialmente, dos fatores geopolíticos físico (principalmente o subfactor posição), humano, circulação e estruturas” (Dias, 2010, p.151).
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implicações no modelo global do Almirante Thayer Mahan, se concebido um século mais tarde.