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AVDELING IV TRANSPORTØRANSVAR

UTØVELSE AV RETTIGHETER

Ao contemplar a fala, a Fonologia Articulatória, apoiada em modelo de base motora, contrapõe-se à dicotomia abordada por teorias fonológicas tradicionais. Para tanto, propõe uma unidade mínima de análise, alternativa ao

fonema e ao traço distintivo, denominada gesto articulatório (Browman, Goldstein,

1990; Browman, Goldstein, 1992)1.

Nesta teoria, o gesto articulatório é explicado por meio de uma equação de um modelo dinâmico e físico (Browman, Goldstein, 1990; Browman, Goldstein, 1992; Albano, 1999). Pode ser entendido como uma oscilação abstrata com tempo intrínseco (tempo do próprio gesto), que determina as constrições no trato vocal a serem realizadas pelo movimento de um conjunto de articuladores atrelados fisiologicamente entre si. Tal conjunto de articuladores é denominado, nesta teoria, de variável do trato e realiza trajetórias necessárias para a produção de um determinado alvo acústico-articulatório (som da fala). O que é caracterizado não é o movimento de um determinado articulador, mas sim as variáveis do trato (Browman, Goldstein, 1990; Albano, 1999).

Os gestos articulatórios pertencem a uma estrutura linguística e organizam-se nas pautas gestuais, as quais, por sua vez, se organizam em camadas. Deste modo, o léxico é formado por pautas gestuais referentes aos gestos

1 Para uma resenha detalhada dos modelos dinâmicos de fala, consultar Ficker (2003), Mendes (2003) e Gregio

articulatórios necessários para a palavra.

A teoria Quântica e a teoria de Dispersão, ambas de base auditiva, contribuem ao mostrarem que os articuladores possuem um espaço de manobra a ser alcançado para garantir um efeito acústico. Há regiões no trato vocal consideradas invariantes, de modo que modificações dentro dessas áreas não comprometem o sinal auditivo captado pelo ouvinte. Porém, mudanças maiores implicariam num salto quântico ao gerar um efeito acústico diferente com mudança da qualidade do som. Ao mesmo tempo, os falantes podem adaptar suas produções sem perder a inteligibilidade do som de fala, podendo hipo ou hiperarticular. Estas

teorias explicam as variações interfalantes e intrafalantes, mostrando que o falante

adapta sua produção de acordo com o contexto (Lindblom, 1963; Lindblom, 1986; Stevens, 1989; Lindblom, 1990; Lindblom, 1991).

Albano (2001), fundamentada em modelos de base auditiva (Lindblom, 1963; Lindblom, 1986; Stevens, 1989; Lindblom, 1990; Lindblom, 1991) e motora (Browman, Goldstein, 1990; Browman, Goldstein, 1992), sugere um elo entre os planos articulatório e auditivo e propõe a Fonologia Acústico-articulatória (FAAR), que explica as produções gradientes encontradas em investigações da fala. Em tal concepção, a fala é considerada como resultado da interação dos aspectos simbólicos e motores.

Observa-se um grau de variância e invariância do gesto articulatório. A variância é atribuída aos movimentos dos conjuntos de articuladores (variáveis do trato). A invariância, por sua vez, decorre da estrutura linguística abstrata que determina a trajetória, de acordo com a intenção do falante, e, ao mesmo tempo, impõe limites à variância. Os gestos articulatórios na pauta gestual são invariáveis. A variação ocorre no sinal de fala. O efeito acústico vai ajustando as manobras articulatórias e formando um vínculo entre a produção e a percepção da fala (Albano, 2001).

Tais teorias contemplam o fenômeno da coarticulação que pode ser definida pela influência dos sons anteriores, posteriores e também adjacentes. Deste modo, os segmentos podem adquirir características semelhantes ao segmento vizinho (Kuhnert, Nolan, 1999; Farnetani, Recasens, 1999). Para Silva et al (2001), um modelo dinâmico de fala pode explicar a coarticulação e a sua natureza gradiente.

O gesto articulatório é sincronizado temporalmente com o espaço dinâmico de outro gesto, sobrepondo-se um ao outro, de forma parcial ou total, em

função do acento e da taxa de elocução. A coarticulação é uma consequência da coocorrência dos gestos, o que implica em trajetórias diferentes dependendo do contexto vocálico e consonantal. Tais características fornecem ao gesto articulatório um caráter temporal e dinâmico (Albano, 2001; Silva et al, 2001).

A FAAR considera a relação entre as esferas articulatória e acústica, bem como a variabilidade de fala, além de propor a utilização de instrumentos de análise do sinal de fala como requisito para uma investigação detalhada de informações por vezes despercebidas pela análise de oitiva. De acordo com Albano (2001), muitas produções de fala percebidas auditivamente como categóricas, revelam-se gradientes, se explanadas por meio de um instrumental.

Deste modo, a unidade de análise adotada para esta pesquisa é, ao mesmo tempo, motora e simbólica e considera a fala como um sistema dinâmico. O gesto articulatório é, portanto, uma unidade fonético-fonológica capaz de fundamentar a interpretação dos valores encontrados por meio de instrumentais de fala para explicar o detalhamento fonético.

Neste âmbito, a técnica da análise acústica torna-se fundamental ao permitir a explanação da fala (Silva, 2010). A análise acústica, além de ser um procedimento não invasivo, é um instrumental facilmente acessível ao pesquisador e/ou profissional, com a disponibilização de ferramentas gratuitas nos últimos anos. No entanto, para sua interpretação, são necessários e essenciais os conhecimentos fisiológicos da produção da fala, bem como as noções dos princípios da teoria Acústica da Produção da Fala (Llisterri, 1991).

A teoria Acústica da Produção da Fala, proposta por Fant (1970), baseia- se em um modelo matemático para descrever os eventos acústicos no aparelho fonador.

O sinal acústico de fala é explicado, por meio de um modelo composto de um tubo ressoador e de uma fonte vibratória, como resultado da ação do filtro atuando ao longo do trato vocal, em resposta a uma ou mais fontes sonoras (fonte de voz, fonte de ruído contínuo e fonte de ruído transiente)2. Os parâmetros acústicos como frequência, duração e intensidade são analisados e as medidas podem ser extraídas manual ou automaticamente, de acordo com os objetivos da análise e instrumental disponível.

2Para uma explicação detalhada da teoria Acústica da Produção da Fala, consultar Camargo (1999), Camargo

O resultado encontrado no sinal acústico é dependente da configuração do trato vocal. No sinal acústico de fala, as fronteiras entre os sons nem sempre se apresentam bem definidas. Os correlatos acústicos, ou pistas acústicas, indicariam no sinal de fala o segmento sonoro produzido pelo falante (Camargo, 1999).

Deste modo, a produção dos sons da fala pode ser analisada por meio do recurso à análise acústica, na medida em que esta permite fazer inferências sobre o posicionamento dos articuladores e fornece pistas para investigar o detalhe fonético. A aplicação deste instrumental tem mostrado sua contribuição ao revelar produções acústicas distintas e intermediárias, porém idênticas na percepção auditiva. Contudo, vale mencionar que a visualização do posicionamento dos articuladores é possibilitada por meio do dado articulatório, como palatografia, ultrassom e ressonância magnética (Silva, 2010).

As produções gradientes, vislumbradas pelo poder explanatório do sinal acústico e interpretadas por meio da teoria acústica de fala, à luz de um referêncial teórico de modelo dinâmico de produção e percepção de fala, permitem compreender a fala de crianças em aquisição normal, bem como as manifestações de fala alterada.

Esta pesquisa, ao referir estes modelos teóricos, posiciona-se sobre a existência de um contínuo intermediário, entre duas categorias fônicas binárias, e opõe-se aos modelos tradicionais que consideram apenas o categórico em termos de presente, ausente ou substituído. Neste sentido, utiliza como escopo tais modelos teóricos para investigar as propriedades físicas do sinal acústico, contemplando a gradiência da fala.

2.2 CARACTERÍSTICAS ARTICULATÓRIAS E ACÚSTICAS DO CONTRASTE DE