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Using Hotdrink to solve a financial problem – a naïve approach

Mas o que é lazer? Muito se tem discutido no meio acadêmico acerca do conceito de lazer. Se partirmos do senso comum, o lazer é tido como momento de descanso, divertimento ou, simplesmente, como momento do não-trabalho. Portanto, de acordo com o senso comum, o lazer é uma atividade que pode ser desenvolvida após uma interrupção da jornada diária de trabalho. Essa interrupção seria, então o uso do tempo livre para vivenciar atividades que fujam da rotina imposta pelo trabalho.

No meio acadêmico não existe consenso acerca do conceito de lazer. Muitos autores partem do princípio de que, desde os primórdios da civilização humana, sempre existiram os momentos do trabalho e os momentos do não-trabalho, onde pudessem ser desenvolvidas atividades que não tivessem a obrigatoriedade de ser realizadas. Nessa linha de raciocínio, o lazer poderia então realmente ser considerado como momento do tempo livre.

Para Yurgel (1983, p. 17), tempo livre é “a totalidade de tempo fora do sono, das refeições, e do trabalho; o tempo que engloba todos os comportamentos fora do trabalho profissional ou doméstico”. Neste sentido, o tempo gasto com o transporte, com higiene pessoal, com a educação, apesar de ser um tempo do não-trabalho, não pode ser considerado como tempo livre, já que são atividades tidas como cotidianamente necessárias, portanto, não sujeitas, simplesmente, à livre escolha do sujeito em realizá-las.

Considerar a autonomia do sujeito na realização do tempo livre também não é consenso no meio acadêmico. Para Marcellino (1987, p.29), “o lazer não pode estar restrito a um tempo determinado. Além disso, tempo algum pode ser considerado livre de coações ou normas de conduta social”. Para o autor, a idéia de considerar um tempo específico para a prática do lazer é equivocada. Isso porque um indivíduo pode realizar mais de uma atividade ao mesmo tempo. Se as regras aplicadas ao ambiente de trabalho permitirem, o cantar, o ouvir música, o dialogar e o sorrir são algumas ações que podem ser desenvolvidas pelos indivíduos, enquanto trabalham.

É sabido que, em todo ambiente de trabalho, estabelecem-se normas de conduta que determinam aquilo que pode e o que não pode ser feito, durante o expediente. Mas essas normas de conduta extrapolam o limite do ambiente de trabalho. O estabelecimento de regras comportamentais é prática cultural das sociedades humanas inclusive nos ambientes onde se exercem atividades extraprofissionais. Diante disso, Marcellino (1987, p. 29) considera ainda que o ideal é falar em “tempo disponível” e não “tempo livre”. Para ele o individuo não é

totalmente autônomo para realizar nem mesmo as atividades de lazer, pois o seu tempo sempre está sujeito a sofrer interferências do meio social de onde vive, sendo, muitas vezes, forçado a acatar as normas sociais ali estabelecidas. Nesse sentido o lazer é considerado como sendo:

[...] a cultura – compreendida no seu sentido mais amplo – vivenciada (praticada ou fruída) no “tempo disponível”. O importante, como traço definidor, é o caráter “desinteressado” dessa vivência. Não se busca, pelo menos fundamentalmente, outra recompensa além da satisfação provocada pela situação. A “disponibilidade de tempo” significa possibilidade de opção pela atividade prática ou contemplativa [...] (MARCELLINO, 1987, p.31).

Na visão do autor, lazer são atividades vivenciadas pelos sujeitos durante o “tempo disponível” cuja finalidade principal é o prazer em realizá-la. Neste sentido, no conceito de lazer proposto por Marcellino, até mesmo as atividades de trabalho podem ser consideradas concomitantemente atividades de lazer, levando em consideração a satisfação e o prazer em realizá-las.

Assim sendo, contrariando a visão coercitiva do trabalho, visto como uma atividade que tem que ser realizada a todo custo para não comprometer o sustento da família, o “tempo disponível” é marcado pelo livre arbítrio de vivenciar ou não determinada ação. Entendemos então que neste conceito de lazer proposto pelo autor, o prazer e a opção de escolha, apesar de submetidos a normas de condutas especificas, marcam uma ruptura entre as atividades de trabalho, tidas como necessárias e obrigatórias, daquelas executadas no “tempo disponível”.

Esse caráter “desinteressado” em que se realizam determinadas atividades é também fundamental no conceito de lazer desenvolvido por outros estudiosos do tema. Apesar do desenvolvimento das técnicas produtivas, que cada vez mais amplia as possibilidades de tempo disponível para a vivência de outras atividades, não vinculadas às atividades profissionais, a visão da necessidade de maximização dos lucros e do consumo defendida pelo

capitalismo tem levado uma parcela considerável, sobretudo das sociedades urbanas, a se dedicar a trabalhos extras para ampliar seus lucros e/ou o potencial de consumo.

Uma das conseqüências imediatas desse processo é, na maioria das vezes, a extensão da jornada de trabalho obrigatória (as chamadas horas extras), que tem como objetivo a ampliação dos rendimentos. Em contrapartida, ampliou-se também o número de pessoas que estão desenvolvendo atividades tidas como artesanais que, para Martins (1973, p.62), são exercidas em um “regime de trabalho doméstico que reúne os diferentes processos manuais de criação de objetos usuais ou artísticos, ou suscetíveis de sê-lo, com emprego de material disponível”, tudo isso, também, com o objetivo de ampliar a renda familiar.

Neste caso, esse caráter “desinteressado”, que a maioria dos estudiosos consideram, no estudo do lazer, tem que ser considerado na análise. As pessoas acabam desenvolvendo atividades artesanais, aproveitando-se da habilidade e da criatividade, para ampliar os seus rendimentos, tendo como diferencial a não obrigatoriedade de sua execução, já que, apesar de prazerosa, estas atividades são tidas como complementares, pois as pessoas que as executam já possuem vínculos empregatícios.

Para as pessoas que ficaram desempregadas e que, por motivos diversos, não conseguem se inserir novamente no mercado de trabalho, a produção artesanal não pode ser considerada simplesmente como uma atividade “desinteressada”. Neste mesmo grupo de pessoas poderíamos, talvez, incluir as que se ocupam das tarefas domésticas e familiares. Enquanto no grupo das pessoas desempregadas o trabalho artesanal, apesar de ser uma atividade prazerosa, é uma atividade utilitária, pois assume um caráter econômico, cuja função principal é contribuir para o sustento familiar, no grupo das pessoas que se ocupam de tarefas domésticas e familiares, algumas funções por elas exercidas, embora não tenham, necessariamente, esse caráter econômico, podem trazer satisfação, ao serem realizadas. Neste caso, o aspecto utilitarista dessas atividades está na necessidade de realizá-las, mas isso não

elimina o prazer que se tem em desenvolvê-las, que assume, em parte, esse caráter desinteressado. Dumazedier (2001) chama de “semilazeres” esse conjunto de atividades que estão sendo desenvolvidas e que:

[...] Em muitos lugares, independentemente do trabalho profissional complementar, verifica-se uma crescente expansão de atividades manuais em parte desinteressadas, em parte utilitárias, quer no local de trabalho, quer no jardim da família [...] Trata-se de uma atividade que, em proporções variáveis, pode ser utilitária e desinteressada. Os dois aspectos interpenetram-se, um preso ao setor das obrigações e o outro ao dos lazeres [...] (DUMAZEDIER, 2001, p. 36-37).

O autor considera como “semilazeres” todas as atividades que, apesar de ter esse caráter utilitário, são realizadas de “boa vontade”, e que em alguns casos chegam a ser consideradas até mesmo como momentos de descanso para quem as realiza. Neste grupo de pessoas ele destaca as mulheres casadas e donas de casa, que ficam a maior parte do tempo no lar. Admite-se então a existência de uma zona intermediária entre o trabalho e o lazer que, segundo Dumazedier (2001, p. 118), “abrange um conjunto de atividades tão ou mais importantes do que a zona de lazer propriamente dita”.

Diante de tudo isso, na concepção de Dumazedier (2001), essa zona de lazer, ou seja o lazer propriamente dito, é:

[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais. (DUMAZEDIER, 2001, p. 34).

No conceito desenvolvido pelo autor, o tempo para o lazer é o tempo descompromissado com toda e qualquer obrigação ligada às atividades tidas como necessárias ou obrigatórias. Esse tempo pode ser utilizado para finalidades diversas, desde que sejam marcadas pela livre escolha do sujeito, pelo caráter “desinteressado” e que o bem maior seja o bem-estar, a satisfação, a alegria e o prazer de quem as realiza.

A cada dia que passa está mais difícil a realização de atividades que tenham essa caráter desinteressado. O sistema capitalista se impõe diante do livre arbítrio do sujeito em realizar até mesmo as atividades que não estão diretamente vinculadas com o trabalho profissional e doméstico. Essa situação de submissão do sujeito ao tempo ditado pelo capitalismo leva a considerar o tempo livre como uma conquista simbólica, abstrata. Sua existência se materializa, sobretudo, no imaginário, na teoria, porque, na prática, o que prevalecem são os interesses do capital, que se impõem diante do livre arbítrio do sujeito. Kurtz (2000, p. 42) chama esse processo de “ditadura do tempo abstrato”; segundo ele, “o tempo livre conquistado foi imediatamente ocupado pela finalidade própria do capital, neste sentido o homem não pode estabelecer finalidades autônomas desvinculadas da própria finalidade do capital”.

De acordo com os conceitos e visão de alguns estudiosos do lazer, podemos perceber que o tempo ocupa um lugar central na concepção e desenvolvimento das atividades a ele relacionado. A todo momento se faz referência ao “tempo do trabalho”, ao “tempo do não- trabalho” que, como já vimos, não pode necessariamente ser considerado como tempo livre, e ao próprio “tempo livre”. A necessidade de reprodução do capital está diretamente vinculada à produção desse tempo livre. Não se pode considerar o lazer sem uma análise da necessidade de reprodução do capital. É inegável a importância da inserção do homem no mercado de trabalho, para que ele possa prover o seu sustento e o de quem dele depende. Portanto, o trabalho, o lazer e o consumo estão intimamente ligados, existindo entre eles uma interdependência. Não se valoriza o trabalho pelo trabalho, mas sim pelo que ele pode oferecer. Não se valoriza o lazer pelo lazer, mas sim o que ele pode proporcionar para quem o oferece e para quem o pratica. Neste sentido o lazer seria não só o consumo do tempo tido como “livre”, mas é, sobretudo, o tempo para o consumo da mercadoria.

Outro ponto importante a se considerar é que o desenvolvimento tecnológico contribuiu para uma ampliação do “tempo livre”, ao mesmo tempo em que contribui, também, para o aumento do “tempo da ociosidade”. Consideramos que o tempo da ociosidade é fruto do desemprego estrutural, provocado por uma mudança radical na estrutura produtiva, nos diversos setores de uma economia nacional. Podemos dizer, então, que o “tempo da ociosidade” é aquele vivenciado pelas pessoas que estão fora do mercado formal de trabalho. As pessoas que vivenciam esse tempo não podem participar, ou melhor, escolher, livremente, dentre todas as possibilidades de lazer que são oferecidas, já que elas não possuem condições financeiras de consumir o que está sendo oferecido.

Com relação a isso, Santos (2000, p. 33) relata que o “consumo é o grande fundamentalismo contemporâneo, que preside tudo, ou quase tudo, inclusive o lazer”. O autor considera ainda que esse processo de fundamentalização do consumo é facilitado pelo o que ele chama de “extraordinária mercantilização das relações”, ampliada pelas influências externas, promovidas pelo processo de globalização. Nesta condição, ele afirma que tanto aquele que visita, em busca do lazer, como aquele que recebe esse visitante, sofre as influências dessa “manipulação do tempo livre”, que é subordinado ao capital. O lazer é assim uma atividade que, quando não criada para essa finalidade, é por ele apropriada, a fim de se ter o controle, podendo, ainda, estabelecer os critérios de sua prática e de até mesmo selecionar aqueles que dela poderão participar.

Podemos considerar esse tipo de lazer, controlado e seletivo, como uma espécie de “lazer artificializado”, ou seja, que foi produzido pelo capital, com a finalidade de controlar o tempo livre, por meio do consumo. Diante de tudo o que foi posto, Kurtz (2000) afirma que

[...] O tempo do lazer não consiste em tempo liberado, mas transforma-se em espaço funcional secundário do capital. Na realidade, este tempo não está à livre disposição, pois caso isso fosse verdade, também deveria ocorrer com respeito à atividade produtiva. Não se trata de ócio no seu sentido antigo, mas de tempo funcional para o consumo permanente de mercadorias. Deste modo, a indústria da cultura e do lazer não somente constitui novas e secundárias esferas do trabalho abstrato e, portanto da

oferta capitalista, mas ironicamente o lazer torna-se para o consumidor continuação do trabalho por outros meios. Não apenas quando ganha dinheiro, mas também quando gasta o homem capitalista é um trabalhador. A ditadura do tempo abstrato também ocupou o lazer (KURTZ, 2000, p. 43).

Essa visão que Kurtz (2000) tem do tempo do lazer é interessante, porque o autor quer deixar clara a dependência desse tempo do lazer em relação à reprodução do capital. Se o tempo do trabalho é o espaço funcional primeiro do capital, o tempo do lazer é, então, o espaço funcional secundário. Ele é como se fosse uma extensão, uma continuidade do espaço funcional primeiro, com a diferença de que, no do tempo do trabalho, ele participa como mão- de-obra para reprodução do capital e, no tempo do lazer, ele passa a ser consumidor daquilo que, muitas vezes, ele mesmo ajudou a produzir, ou seja, a mercadoria propriamente dita. Podemos dizer, então, que além de o sujeito não ter o controle sobre o tempo do trabalho, com a apropriação do tempo do lazer pelo capital, ele perde o controle também sobre o tempo que ele passa fora do trabalho profissional e/ou doméstico, ou seja, do tempo que deveria ser livre.

A análise conceitual que fizemos, até este momento, sobre o lazer, leva-nos a questionar sobre a autonomia do sujeito na escolha do seu lazer, diante das imposições que são colocadas pelo capital e pelas relações que por ele são mediadas ou determinadas. Torres (1968, p. 70) aponta que “a grande revolução de nosso tempo pode estar na possibilidade de lazer para todos, fazendo, assim, desaparecer as distinções entre as classes, ou melhor, as disparidades de oportunidades de lazer nas diferentes classes”. O autor defende a criação de uma “política de socialização do lazer”, onde as possibilidades de lazer possam ser, no mínimo, ampliadas, podendo, assim, amenizar o que ele chama de “choques sociais”.

Não acreditamos que a solução para amenizar os “choques sociais” esteja na socialização do lazer, mas sim numa melhor distribuição de renda. Contudo, consideramos o lazer como sendo fruto de uma bagagem cultural específica, e como um dos traços definidores da identidade de um povo. Para que ele exista, faz-se necessária a existência do trabalho e do desenvolvimento das técnicas produtivas capazes de prover o sustento daqueles que dele

participam. Segundo Dumazedier (1979, p. 236), “o lazer não é a ociosidade, pois que ele supõe, antes de mais nada, a presença do trabalho profissional, ao passo que a ociosidade supõe em primeiro lugar a negação deste”.

Neste sentido, podemos dizer que o tempo do lazer não pode existir sem o tempo do trabalho. O lazer não existe no tempo da ociosidade, ou seja, no tempo daquele que não tem trabalho. Isso porque a ausência de trabalho causa angústia, tristeza, e a finalidade principal do lazer é, ao nosso ver, o deleite e a satisfação proporcionada pela possibilidade de sua prática, ainda que ela seja controlada ou mediada pelo capital, que é o que Kurtz (2000, p. 43) chama de “ditadura do tempo abstrato”.

Neste sentido, faz-se necessário avaliar a importância do lazer para a reprodução da comunidade estudada. No próximo subcapítulo iremos abordar, então, a concepção de lazer dos membros da comunidade rural do Fundão, estabelecendo uma relação entre o teórico e o empírico, ou seja, estabelecendo uma relação entre a concepção de lazer dos membros da comunidade com os conceitos trabalhados.