• No results found

Usikre utsikter

In document Finansiell stabilitet (sider 32-36)

No seguimento da reconstrução, a Europa reorganiza-se, económica e politicamente, com assinatura do Tratado de Roma (1957) e a consequente instituição da Comunidade Económica Europeia. Nesta aproximação administrativa e comercial entre vencedores e vencidos, o velho continente procura recuperar a autonomia perdida durante o resgate norte-americano e reavivar o seu papel no plano político internacional. Fortemente comprometida com a nova estrutura Europeia, a França inicia um período de grande prosperidade acompanhada de transformações mentais e artísticas, resultantes em grande parte da influência e do consumo dos padrões americanos de vida moderna, através dos quais novos hábitos vão instalar-se no quotidiano dos franceses.

A sociedade mergulha numa amnésia voluntária, induzida pelos media, que procuram sarar a violência física e moral exercida durante o conflito, através da divulgação de existências edílicas e infinitas possibilidades obtidas através pelo consumo hedonista. Com o baby boom, que repovoará o pós-guerra, nasce uma geração coca-cola com cidadania europeia. Os comportamentos evoluem e o imaginário social preenche-se por novos ícones, heróis e contradições, vindos quase sempre dos desenvolvidos e magnetizantes Estados Unidos. Esta rápida evolução deve muito a uma nova ideologia baseada nas

promessas da sociedade de consumo, onde o ter é o objetivo a atingir e a busca do futuro ideal se torna essencialmente materialista.159

Por conseguinte, os conceitos de qualidade de vida e de bem-estar confundir-se-ão com a aquisição cíclica de estéticas existenciais que mimetizem os slogans burgueses enquadrados pelos novos media. Enquanto o Homem vê a sua longevidade aumentada, a moda e o determinismo dos sistemas de produção introduzem os objetos e as espacialidades numa obsolescência programada, condenando-os à caducidade do seu estado físico e do seu valor estético. Através do lançamento de novos produtos, necessidades e aspirações, o capitalismo promove a instauração idílica de uma sociedade sem hierarquias onde a igualdade de oportunidades se concretizaria na renovação contínua de estilos de vida. Assim se inicia a cultura do efémero e do descartável, assente na produção de comodismos e automatismos com rótulo de conforto, com os quais o imperativo capitalista redesenha infinitamente os mesmo objetos, apresentando-os como novidades incontornáveis na construção de felicidades utópicas.160

159 Veja-se Pérec, 1974.

160 Preferimos um consumidor que tem uma mobília que passados dez anos não tolera mais e por isso se vê

obrigado a renová-la todas as décadas, àqueles que só compram um objeto quando o anterior se deteriora com o uso. Loos, 1908: 87.

A própria língua francesa acaba por ser colonizada, visto que os anglicismos abundam em quase todos os domínios. Esta mestiçagem da comunicação verbal será uma caraterística essencialmente dos espaços urbanos e das camadas mais jovens da população, dando azo a críticas severas por parte de certos intelectuais, como foi o caso de Etiemble no seu célebre livro Parlez-vous Franglais?161 Consequentemente, dá-se uma inversão no modelo de influência linguístico-cultural em vigor no seio das elites pois, se até à Segunda Grande Guerra, o sotaque francês conduzia as aspirações burguesas, a inovadora efervescência da coca-cola vem inglesar, não apenas, as cordas vocais europeias mas também o seu contexto artístico e material.162

Por outro lado, inicia-se uma nova etapa na revolução dos meios de comunicação que vai alterar substancialmente as relações do homem com o espaço, nas suas diferentes dimensões. As distâncias geográficas anulam-se consideravelmente com a democratização de rápidos meios de transporte, como o avião, tornando quase vizinho o que anteriormente era longínquo, e com a introdução de novas rotas transatlânticas no circuito aéreo comercial.163 Simultaneamente, a primeira viagem do homem ao espaço (Gagarine, URSS, 1961) e o primeiro passo na Lua (Armstrong, USA, 1969) criarão uma nova consciência interplanetária que transcende as fronteiras físicas dos estados e a própria cortina de ferro. Em plena Guerra Fria, as duas nações disputam a liderança tecnológica e política da reconstrução europeia, transpondo o imaginário aeroespacial e as suas conquistas para a aerodinâmica do styling que seriam apropriada e difundida pela sociedade capitalista.

Ao generalizar-se, a televisão torna-se a janela por onde entra o mundo todos os dias em muitos lares e a sua influência será decisiva, vindo a tornar-se um objeto imprescindível no espaço doméstico como veículo de divulgação de novos valores, ideologias e modos de vida. Estima-se que em 1959 houvesse já em França um milhão de casas equipadas com um televisor.164 Logo, houve uma aproximação das pessoas e das coisas veiculadas pelas imagens, e uma maior e mais veloz circulação da informação que foi atenuando a diferença secular que opunha o modo de vida citadino ao camponês, numa unificação tendencial de comportamentos, assente em matrizes urbanas trazidas até aos locais mais remotos através das novas plataformas mediáticas.

Porém, todos sabemos que nem todas as mentalidades seguem estas mudanças de forma linear. Se as camadas mais jovens da população urbana manifestam grande apetência pelas novidades, grande parte da população, sobretudo aquela que vive afastada das

161 Neologismo (mot-valise) construído a partir da junção de sílabas do Francês e do Inglês para mostrar o

estado de hibridismo do idioma dos novos tempos.

162 Era la puesta en marcha de una forma completamente nueva de operar que fascino a Europa del mismo

modo que los europeos habían fascinado a los estados unidos antes la guerra. Colomina, 2007: 6.

163 Nos anos 60, o Boeing 707 faz ligação entre Paris a Nova Iorque em apenas oito horas. 164 Frodon, 2010: 13.

grandes cidades, continua agarrada a valores e a hábitos tradicionais. E, nestes universos a rádio se mantém como um mass media importante.

Com a ascensão de uma classe média atraída por um ideal de modernidade e mergulhada num entusiasmo consumista, abrem-se as portas a novos objetos, cujo papel assume grande relevo na vida quotidiana. O espaço e a moda reforçam os seus antigos laços, através dos quais, a arquitetura materializa, enquadra e veicula as ultimas tendências, com recurso à sua própria iconografia e organização. As opções simbólicas da construção assumem-se como marcas distintivas ao serviço da comercialização de estilos de vida, sendo complementar e complementada pelos mais variados produtos que povoam a existência.

No interior, os eletrodomésticos mudam os ritmos do funcionamento da casa. No exterior, a democratização do automóvel personifica o progresso e a emancipação pessoal, onde mobilidade e conforto se associam no veicular de um conceito utópico de igualdade de oportunidades. Consequentemente, as divisas modernistas são adulteradas pelos slogans do consumismo, trauteados em conceções espaciais depuradas, nas quais se publicitam e legitimam rebuscados produtos.

Se os primeiros anos posteriores à guerra foram consagrados à reconstrução do país, o período seguinte será de expansão urbana e esta vai modificar não só a paisagem da nova era, mas também introduzir novas formas de ocupação do espaço doméstico. A arquitetura modernista integrará o fascínio popular generalizado pelas imagens e artigos norte-americanos, tornando-se mais um objeto de consumo e uma nova embalagem para o homem moderno, tal como o vestuário ou o automóvel.165

É neste contexto que Pierre Cardin apresenta em 1959 a sua primeira coleção de prêt- à-porter. E esta renovação do guarda-roupa leva também à uniformização social pela indumentária, porque se multiplicam os padrões e os modelos no mercado e as montras se tornam grandes ecrãs apelativos. Enquanto a laca e a brilhantina rivalizam com os chapéus, as mulheres ousam trajar-se com os primeiros pares de calças ao mesmo tempo que as bainhas iniciam uma rápida e provocante subida até às escandalosas minissaias.

Politicamente, passa-se da IV para a V República, em 1958. Uma revisão constitucional vai atualizar os princípios da governação, agora que a França já não é um país colonialista tradicional e procura reafirmar a sua nova posição no mundo, com um rosto de nação mais moderna mas sem perde os velhos pergaminhos.

O mundo das ideias e das artes tem de acompanhar também os novos tempos e dá- se então a explosão da era da imagem, consolidando uma cultura de massas inserida em contextos urbanos. E com este processo de mudança, haverá também lugar paraum novo cinema que regista e questiona as transformações em curso.

3.6. O HOMO LUDENS E OS CORPOS PRÉ-FABRICADOS

In document Finansiell stabilitet (sider 32-36)

RELATERTE DOKUMENTER