Além do ensino de alto nível, as universidades possuem entre suas funções tradicionais a atividade de pesquisa básica e aplicada. Essas pesquisas geram impactos no desenvolvimento econômico de diversas formas: melhora a qualidade do aprendizado na graduação; disponibiliza ao mercado de trabalho pesquisadores; e contribui para a ampliação da capacidade local de gerar inovação (novos produtos, processos de produção, métodos sociais e institucionais de organização e de gestão). Segundo Rolim e Serra (2009, p. 409), o que distingue o crescimento econômico tradicional dos processos de desenvolvimento sustentável, basicamente, é o papel da inovação.
13Dados obtidos nas Contas Regionais do Brasil 2011 e no Produto Interno Bruto dos Municípios
De acordo com Wolfe (2003, p. 3), à medida que se fortalece o consenso de que cada vez mais as economias industriais estão baseadas no conhecimento, cresce a visão por parte dos formuladores de políticas de que as universidades são como “fábricas de conhecimento”, que quando aproveitadas geram inovações dentro das empresas, aumentando assim sua produtividade, levam ao surgimento de
clusters e, consequentemente, ao desenvolvimento econômico. Porém, se existem
casos bem documentados evidenciando uma relação virtuosa entre universidade e empresa, como o Vale do Silício e a Rota 128, que vêm alimentando muito sua defesa, é preciso encontrar justificativas para os inúmeros casos em que importantes instituições, em nível de pesquisa, não conseguiram gerar o mesmo tipo de transbordamento para a atividade econômica e revelaram que a relação universidade-empresa se mostra muito mais complexa do que os formuladores de políticas vêm imaginando.
Para Dagnino (2003, p. 271), a defesa da relação universidade-empresa resulta da convergência de duas correntes que ganharam força no início da década de 1990: a segunda revolução acadêmica, que passa a atribuir à universidade o papel de promoção do desenvolvimento econômico local e regional; e a ascensão das teorias neoschumpeterianas, que atribuem como decisivas para a competitividade das empresas as interações com o seu entorno.
Segundo Wolfe (2003, p. 3), o contrato social forjado no pós-Segunda Guerra garantia autonomia e recursos maciços para pesquisa básica com a expectativa de no longo prazo colher benefícios. No modelo de interação vigente nesse período, chamado pelo autor de linear, o processo começa com a pesquisa básica conduzida sem qualquer pensamento de aplicação potencial que possa conduzir a outra descoberta. “Estas, por sua vez, abrem a possibilidade de aplicações potenciais que são perseguidas, normalmente por empresas, por meio de pesquisa aplicada, desenvolvimento, design, produção e comercialização” (BROOKS, 1996, p.21; STOKES, 1997, p.10-11 apud WOLFE, 2003, p. 4, tradução nossa). Entretanto, esse modelo passa por mudanças que resultam em uma maior pressão para que as “universidades venham a expandir o seu papel tradicionalmente dominante na condução da pesquisa básica e tenha uma maior presença na pesquisa aplicada, por meio de parcerias com empresas” (WOLFE, 2003, p. 5, tradução nossa).
De acordo com as pesquisas de Webster & Etzkowitz (1991) apud Dagnino (2003, p. 272), entre as razões que explicariam essa mudança, por parte do setor empresarial, estão a elevação das despesas com pesquisa, como resultado da necessidade constante de inovação em um ambiente competitivo; a busca por formas de compartilhar esse aumento das despesas e dos riscos, principalmente com instituições de governo; e a redução dos recursos governamentais disponibilizados para áreas onde os resultados se espalhavam por diversas atividades, tais como o complexo industrial militar. Dentro das universidades, as motivações para reforçar essa tendência foram atribuídas à busca por recursos para pesquisa, em um cenário de escassez de financiamento público, e no “interesse da comunidade acadêmica em legitimar seu trabalho junto à sociedade que é, em grande medida, a responsável pela manutenção das instituições universitárias”. Há uma mudança também na expectativa dos governos com os investimentos em pesquisa básica, passando a cobrar por mais retornos econômicos. Isto acontece devido à vinculação desse financiamento a objetivos mais amplos de políticas públicas, tais como a promoção da capacidade nacional de inovação, maior competitividade e, cada vez mais, a promoção do desenvolvimento local e regional (WOLFE, 2003, p. 6).
Porém, existem acentuadas barreiras para que aconteça a transferência de tecnologia entre universidade e empresas. Como observa Wolfe (2003, p. 6), as abordagens convencionais que tratam do fluxo de conhecimento muitas vezes o consideram como algo sempre disponível, praticamente como um bem público gratuito cuja transferência pode ser feita como se fosse uma transação comercial claramente definida do ponto de vista jurídico, o que não é. As pesquisas sobre a economia da inovação e sobre sistemas regionais de inovação apontam que as transferências bem-sucedidas dependem do tipo de conhecimento envolvido e como essa tecnologia será empregada. Em um contexto de proliferação da relação universidade-empresa, pouco é discutido pelos formuladores de políticas públicas sobre o processo de transferência de um para o outro.
A propriedade do conhecimento não significa que as empresas vão conseguir absorve-la e utiliza-la com sucesso. De acordo com Pavitt (1991) apud
Wolfe (2003, p. 7), o conhecimento científico possui muitos elementos tácitos14, adquiridos por um longo processo de aprendizado, encarnados no pesquisador, não codificados, e por isso o conhecimento tácito não é facilmente transferível. Indivíduos ou grupos que trabalham juntos muitas vezes desenvolvem uma base comum de conhecimento tácito no decorrer de suas atividades de pesquisa e de produção (NELSON; WINTER, 1982, p. 76-82; DOSI 1988, p. 1126 apud WOLFE, 2003, p. 2). Nesse sentido, pode-se concluir que parte do conhecimento produzido na universidade é pessoal e intransferível.
Como o aproveitamento do conhecimento desenvolvido na universidade, por parte das empresas, depende de elementos tácitos, a transferência passa a depender das conexões pessoais. De acordo com Dagnino (2003, p. 276), os dados disponibilizados pela National Science Foundation (NSF), sobre os gastos com pesquisa das empresas nos EUA, revelam que apenas 1,3% foram contratados com universidades, enquanto 98% eram realizados pelas próprias empresas. Além disso, 70% dos doutores americanos estavam desenvolvendo atividades de pesquisa nas empresas. Para o autor, isso indica que a pesquisa universitária é importante para as empresas, porém não pelos seus resultados, mas sim pela formação de recursos humanos. O importante era o “conhecimento incorporado em pessoas que, através de um processo de capacitação longo e custoso, bancado naquele país et pour
cause pelos cofres públicos, davam o impulso inicial à cadeia de inovação”
(DAGNINO, 2003, p. 276).
Outros estudos vieram a reforçar a importância indireta da pesquisa acadêmica na formação de cientistas de carreira em empresas. Segundo Cohen e Levinthal (1990) apud Wolfe (2003, p. 8), a transferência de conhecimento das universidades é fortemente condicionada à capacidade das empresas, que precisam ter em seus quadros cientistas e engenheiros altamente qualificados. Os cientistas levam para as empresas as habilidades e os conhecimentos adquiridos na formação universitária, a linguagem da área de pesquisa, as mais recentes descobertas e uma rede de contatos acadêmicos. Esses atributos, ao se associarem com a base de conhecimento interna da empresa, ampliam a capacidade para reconhecer os conhecimentos externos úteis.
14 Segundo Polanyi (1962) apud Wolfe (2003, p.7), o conhecimento tácito corresponde ao aprendizado ou insight que os indivíduos adquirem no curso do trabalho científico, sendo
O vetor de competitividade da empresa passa a ser entendido como resultante de sua capacidade de gerar internamente um processo de aprendizado permanente mediante a combinação dos insumos do ambiente externo com aquilo que é insubstituível, que só ela pode realizar — o contato direto com a produção e o mercado. (DOSI; SOETE, 1988 apud DAGNINO, 2003, p. 274).
Diversas pesquisas vêm demonstrando que a relação entre pesquisa científica e inovação não acontece de forma tão direta como muitos acreditavam. Para Winter (1996, p. 62) apud Wolf (2003, p. 9), os centros especializados na realização de pesquisa, tais como os laboratórios das universidades, têm reduzido impacto sobre a inovação industrial. Para o autor, os centros de pesquisas das próprias empresas possuem vantagens em relação aos demais por conhecerem mais a realidade da indústria e interagir com seus clientes e fornecedores. Os resultados da pesquisa de Klevorick; Levin; Nelson e Winter (1995) apud Wolf (2003, p. 9) com 650 gestores de centros de P&D industrial nos EUA revelaram que recorrem muito mais ao corpo geral do conhecimento científico do que aos avanços tecnológicos recentes. Isso demonstra que a colaboração da pesquisa universitária na inovação empresarial se efetiva no longo prazo, pois ao fazer avançar a ciência amplia o leque de entendimentos e técnicas gerais que possam mais tarde ser empregadas nas mais diversas finalidades. Além disso, segundo Wolfe (2003, p. 10), com exceção da indústria farmacêutica, a inovação industrial utiliza como principais fontes de ideias para novos produtos e processos os feedbacks dos seus clientes e as dificuldades encontradas no “chão de fábrica”.
Ainda tratando de fatores que qualificam a transferência tecnológica entre universidade e empresa, Wolfe (2003, p. 12) aponta que estar em uma mesma região ou localidade contribui para o sucesso desse fluxo. Isso se explica pela necessidade da firma de ter acesso ao conhecimento tácito por meio do contato pessoal com os pesquisadores. De um modo geral, a inovação tem se mostrado altamente dependente da infraestrutura tecnológica da região, tais como universidades, centros de pesquisa e serviços empresariais. Nesse sentido, a presença de uma universidade pode vir a fortalecer a estrutura científica e tecnológica de uma região, atraindo empresas interessadas em compartilhar da mesma base de conhecimentos.
De acordo com Wolfe (2003, p. 13), essa necessidade de proximidade das universidades para uma efetiva transferência de conhecimento as coloca como
um elemento essencial para o processo de desenvolvimento econômico regional e estímulo à formação de clusters, especialmente em setores intensivos em conhecimento, como tecnologia da informação, comunicações e biotecnologia. Qualquer política pública que estimule a formação de clusters precisa levar em consideração a presença de universidades intensivas em pesquisa, seja por seu papel na infraestrutura de pesquisa local, seja pela contribuição para disponibilidade local de mão de obra altamente qualificada.
Com relação ao Brasil, o que se observa é que a pesquisa científica tem um ritmo muito mais intenso se comparado aos indicadores de inovação. De acordo com dados disponibilizados por Lemos et al. (2009) apud De Negri; Cavalcante; Alves (2013, p. 18), a participação brasileira na produção científica mundial ultrapassa os 2,5% no final da década de 2000, enquanto que nas concessões de patentes depositadas no USPTO é da ordem de 0,1%. Fatores como baixa participação dos gastos empresariais em P&D, uma fraca infraestrutura científica e tecnológica, reduzido relacionamento entre academia e setor produtivo, baixo desempenho do sistema educacional (especialmente com pouca formação de engenheiros) e lento desenvolvimento das telecomunicações são elementos apontados por Freeman (1995) que explicam o descompasso tecnológico latino- americano em comparação ao asiático.
Porém, o que fica claro com os estudos de Suzigan e Albuquerque (2008, p. 10), analisando os trabalhos de Richard Nelson (1993), é a importância das raízes históricas na construção de instituições relevantes e de uma relação virtuosa entre institutos de pesquisa, universidade e empresa. Os exemplos investigados por Nelson (1993) de 16 experiências nacionais de sistemas de inovação revelam grande ocorrência de tradições persistentes e processos evolutivos a partir de esforços passados relevantes, ou seja, houve um longo processo histórico para a construção dessa interação.
De acordo com Suzigan e Albuquerque (2008, p. 11), há cinco elementos que dependem de tempo e investimento, indicados como importantes para solidificar a relação entre universidade-institutos de pesquisa-empresa: i) o arranjo financeiro, que viabiliza a surgimento e a manutenção de universidades/institutos de pesquisa e empresas; ii) a criação de instituições relevantes, seja universidades, institutos de pesquisa, empresas e laboratórios de
evolução desse mecanismo de diálogo para um processo de retroalimentação; v) a consolidação e desenvolvimento dessa interação.
O pouco desenvolvimento do sistema de inovação no Brasil tem fortes explicações em fatores históricos e culturais, conforme Suzigan e Albuquerque (2008). Comparando a realidade da evolução do sistema de inovação no Brasil e dos Estados Unidos, Suzigan e Albuquerque (2008, p. 12) trazem uma diferença crucial entre os dois países no início da revolução industrial. Enquanto o Brasil, em 1822, com 4,5 milhões de habitantes não possuía universidade, os EUA com 2,5 milhões, em 1776, já contavam com nove. O início tardio das instituições de pesquisa e de ensino superior no Brasil foi um componente importante para explicar os limites do atual sistema nacional de inovação. Além do caráter tardio da industrialização brasileira, quando o país passou a ter uma infraestrutura científica o padrão tecnológico que possuía apresentava poucas demandas ao sistema científico e universitário nacional.
As demandas da indústria sobre a infra-estrutura científica, embora mais sofisticadas, permaneceram pouco desafiadoras até pelo menos o final da década de 1980. Isto tem a ver com protecionismo exagerado, domínio de indústrias estratégicas por empresas multinacionais, descontinuidade de políticas públicas, e recorrentes crises macroeconômicas (SUZIGAN; ALBUQUERQUE, 2008, p. 17 e 18).
De acordo com Suzigan e Albuquerque (2008, p. 21), no Brasil existem apenas alguns casos bem-sucedidos de interação entre universidade, institutos de pesquisa e empresas, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); a EMBRAPA; o complexo de pesquisas ligadas ao setor aeronáutico (ITA, CTA e Inpe); e a interação entre o Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da UFMG com as mineradoras e siderúrgicas. De Negri; Cavalcante e Alves (2013, p. 19) incluem nessa lista também o complexo de pesquisa ligado ao setor de petróleo no Rio de Janeiro (Cenpes e a COPPE). Para Suzigan e Albuquerque (2008), esses exemplos de sucesso caracterizam-se como fruto de uma relação construída para fazer frente a problemas concretos e imediatos de determinados setores. Nesses casos, as demandas do setor produtivo estavam claramente definidas.
4 O PROCESSO DE FORMAÇÃO E A EVOLUÇÃO DO SISTEMA DE ENSINO