7. Analyse
7.2. Usikkerhet rundt effekten av skolestenging
Ruth Amossy e Dominique Maingueneau tratam da dimensão social do discurso literário e o seu projeto sócio-crítico. Para eles: "O trabalho diz à sociedade do seu tempo na medida onde o "trabalho textual", às vezes frustrou as armadilhas das ideias já ditas e aceitas, às vezes revela tensões e aporias que revelam um imprevisto" (AMOSSY; MAINGUENEAU, 2003, p. 63)56. A análise de discurso retoma a ambição sociocrítica, mas a literatura não está autonomizada e isolada, ou seja, a sociabilidade do texto é indissociável de uma situação de comunicação ou das instâncias da locução e da alocução, que são percebidas em suas determinações sociais e institucionais. É, por esse motivo, que a AD dá primazia ao dispositivo enunciativo. No entanto, essa lógica é dependente do gênero do discurso selecionado: se oferece uma cena genérica e, portanto, uma distribuição de regras. Os dispositivos são simples ou complexos, a posição do autor ou a legitimização que ela lhe confere constitui o ethos prévio ou pré-discursivo, isto é, a imagem do locutor tal como é conhecida adiante e fora, da tomada da palavra do novo discurso, onde ele constrói um ethos discursivo: portanto, temos que ter em conta a sua posição no campo.
56“l’œuvre dit la société de son temps dans la mesure où le “travail textuel” tantôt déjoue les pièges du déjà-dit
et des idées reçues, tantôt laisse percevoir des tensions et des apories révélatrices d’un impensé” (AMOSSY; MAINGUENEAU, 2003, p. 63).
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Para conciliar uma abordagem que quase seria da sociologia com os estudos dos textos internos, a AD vai retomar o conceito de doxa: surge um segundo nível de sociabilidade: não é só a troca de duas instâncias socialmente determinadas, mas também o intercâmbio dos discursos que desenham o perfil de uma dada sociedade. No artigo Análise do Discurso e literatura: problemas epistemológicos e institucionais57 publicado na revista eletrônica Linguasagem, Maingueneau apresenta uma discussão sobre os pressupostos, conceitos e métodos em se trabalhar uma Análise do Discurso Literário:
A introdução de corpora literários na análise do discurso a obriga a preocupar-se muito mais do que anteriormente com perguntas sobre o texto. Quando se trabalha sobre a literatura escrita, o texto não é somente o vestígio de uma atividade enunciativa, mas o produto de uma história geralmente muito rica, um enunciado que geralmente atravessou múltiplos contextos, sofrendo constantes modificações, um objeto de múltiplas culturas… Esta circulação implica que se atribua um papel privilegiado à memória, à diversidade dos suportes materiais, aos modos de divulgação, à diversidade de usos dos textos. Isso é uma situação pouco familiar à análise do discurso; em geral e de preferência, ela se coloca problemas de transcrição, quando se trata de texto oral, e, quando se trata de texto escrito, apreende os enunciados no seu contexto original ou como manifestações de uma situação de comunicação rotineira. (MAINGUENEAU, Análise do Discurso e literatura: problemas epistemológicos e institucionais, s∕d)
O discurso engendra sua doxa, um trabalho de remanejamento e transformação que apresenta não só a produtividade, mas também a operosidade da co-construção de significado inerente a qualquer troca verbal (MOSSY; MAINGUENEAU, 2003, p. 66-7).
O que podemos reter dos elementos acima mencionados, é um novo estudo do corpus Literário, com a inserção dos estudos do Discurso Literário com uma outra visada que vai além dos estudos tradicionais classícos no ambiente acadêmico. Essa nova vertente de pesquisas acadêmicas vem enriquecer nosso trabalho, pois temos uma corpora oriunda do século XIX, ou seja, período em que encontramos nas análises dos periódicos recorrência contante de elementos da Literatura Universal – thesaurus58 de uma comunidade, em seu
repertório literário – nas litografias e nas seções das edições da Revista Illustrada e de outros
57 Esse artigo Análise do Discurso e literatura: problemas epistemológicos e institucionais de autoria do teórico
Dominique Maingueneau foi traduzido por Roberto Leiser Baronas – PPGL/CNPQ/Gercad- UFSCar & Samuel Ponsoni – Gercad – UFSCar/ Fapesp processo 2009/04675-7. Cf.: MAINGUENEAU, D. Análise do Discurso e literatura: problemas epistemológicos e institucionais. Trad. Roberto Leiser Baronas. Disponível em : http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao13/art_01.php. Acesso em 19 de julho de 2017.
58 Thesaurus é um repertório de ideias, de pensamentos afins pertencentes a um campo específico de
periódicos da época, em que retomavam elementos da Literatura para criticar temas políticos do período, principalmente, das crises e tensões entre monárquicos e republicanos no cenário político do Brasil no século XIX.
Para a problemática da construção do significado, o leitor é submetido a uma dupla injunção que resulta da constituição dos próprios textos. Para Maingueneau (1996, p. 31), no discurso literário a “dissemetria entre as posições de enunciação e recepção desempenha um papel crucial” que, por sua vez, “faz parte da essência da literatura a obra poder circular em tempos e lugares muito afastados dos de sua produção”.
Uma obra literária, parte de um thesaurus de uma comunidade, pode passar por um regime de “descontextualização” de sua fonte primária para outras instâncias enunciativas, pois seguem regras mais coercitivas que uma linguagem trivial, segundo Maingueneau (1996).
Sobre o efeito da leitura, o leitor busca conhecimentos e estratégias variadas, além de ter contato com as obras literárias em contextos muito diversos e leitores muito diversos também. Desse modo, há um trabalho interpretativo instável, mudando de leitor para leitor, de leitura para leitura. Maingueneau adverte que:
[...] para um leitor que só dispõe de um saber linguístico, muitas obras seriam parcial ou totalmente ininteligíveis. Não se deve, contudo, esquecer que a leitura das obras contribui também para enriquecer os saberes do leitor, obrigando-o a tecer hipóteses interpretativas que excedem a literalidade dos enunciados. Para abordar um texto, o leitor se apoia, em primeiro lugar, num conhecimento, por menor que seja, do contexto enunciativo. Dispõe de um certo saber de extensão muito variável sobre a época, o autor, as circunstâncias imediatas e distantes e o gênero do discurso ao qual a obra pertence. (MAINGUENEAU, 1996, p. 43).
Um romance, uma obra literária, os cânones de uma época, atrai tanto um leitor de seu período de publicação como um leitor contemporâneo, principalmente, quando aborda temas atuais e polêmicos como o romance O que é isso companheiro(1979), de Fernando Gabeira, que retrata militantes de esquerda na luta contra o regime militar instaurado no Brasil em 1964. Em 1997, o romance foi adaptado para o filme que levou o mesmo nome da obra, dirigido por Bruno Barreto. Ou o romance Os Bruzundangas (1922), de Lima Barreto, que satiriza os primeiros anos da República no Brasil. Arriscaríamos afirmar que ambos os
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romances citados são tão atuais e polêmicos como a nossa atual conjuntura política brasileira, por exemplo.
Em um livro de história, há registros sobre algum tipo de acontecimento e temos conhecimentos que se referem aos fatos ocorridos em uma linha temporal e espacial reais, que apresentam personagens que existiram (a história demanda de métodos, critérios científicos, arquivos para produção do conhecimento cientifico), de acordo com Aguiar e Silva (1979, p. 42). Esse teórico cita o romance Os Maias (1888), de Eça de Queirós, para elucidar sua análise ao relatar o tempo e espaço em que se inicia a ação da trama.
No primeiro capítulo da obra portuguesa, há uma descrição desse lugar “a casa que Os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida da vizinhança da Rua S. Francisco de Paulo (...).”, ou seja, nesse fragmento do romance Os Maias destacado por Aguiar e Silva em seu livro Teoria da literatura (1979), temos ciência de fatos fictícios, pois só ocupam o status verídico no universo imaginário oriundo da obra literária. Aguiar e Silva, entretanto, fala de uma sujeição da realidade, e o discurso literário, para ele, o discurso literário se encontra “indissociável de uma determinada historicidade e de um determinado universo ideológico” (AGUIAR E SILVA, 1979, p. 44).
Na literatura temos uma existência/criação de um fato que resulta na atividade criadora da escrita. Ela não dispensa o saber e a leitura de um grupo de referências que utiliza para sua fundamentação, contextualização de uma narrativa literária. O autor tem liberdade para dar asas a sua imaginação, para criar novos mundos por meio da linguagem, da palavra. De acordo com Maingueneau (1996), o mundo verídico que uma obra tenciona representar como um mundo exterior a ela mesma, somente é alcançável pelo “mundo” criado pela obra literária. De certo modo, a obra deve ser o universo que pressupõe essa representação. Para o autor, a obra literária, demonstra e institui um mundo por meio da enunciação.