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USIKKERHET OG KONTINUITET: TIDEN ETTER 1990

Como pude observar frequentemente pelo meu convívio com a “comunidade nikkei” do Estado de São Paulo, geralmente as famílias brasileiras com descendentes de japoneses que querem manter algum vínculo com a “comunidade” ou “cultura japonesa” dão aos seus filhos um primeiro nome “brasileiro” e um nome do meio “japonês”, seguido do sobrenome japonês por parte de pai.

Tal procedimento era comum no início da imigração japonesa para o Brasil, quando estes imigrantes passavam inevitavelmente pelos cartórios brasileiros e pela Hospedaria dos Imigrantes antes de serem destinados às fazendas de café. Os primeiros imigrantes de japoneses e os primeiros descendentes nascidos no Brasil causavam igual estranhamento nos brasileiros que trabalhavam nestes cartórios, resultando, em casos extremos, em uma série de nomes “japoneses” escritos de maneira incorreta ou mesmo inexistentes no Japão. Uma de minhas informantes que me acompanha desde o Mestrado tem um nome “japonês” que não existe no Japão, motivo de estranhamento entre os colegas da escola.

Assim, é comum encontrar no Brasil descendentes de segunda e terceira geração com nomes como Marcelo Takeo Watanabe, Danilo Hiroshi Sato, Maria Aiko Watanabe, Carla Harumi Kanashiro, etc, nomes que basicamente respeitam a nomeação de crianças japonesas, mas com a adição de um primeiro nome brasileiro. Mais comuns nas gerações anteriores no Brasil, tais arranjos onomásticos adquirem outros tons quando estes Marcelos, Danilos e Carlas migram para o Japão como decasséguis.

Poucos dias depois da minha chegada em Hamamatsu fui convidado para participar de uma festa junina da “comunidade brasileira” local e tamanho foi o meu espanto ao perceber que grande parte dos presentes eram não-descendentes, com casais de loiras e negros andando em meio a descendentes de quarta ou quinta geração que já não traziam no fenótipo os traços de “japonês” característico dos nikkeis.

Como me disse Bruno, um informante afeito aos assuntos de “kaikan” e à idéia de preservação ou manutenção da “cultura japonesa”, logo no primeiro telefonema para sua mãe no Brasil ele disse: “ih, mãe, se você quiser ver descendente, então não saia daí do Brasil”. Como então encarar a entrada de tantos não-descendentes no Japão se o visto para decasséguis é vinculado, justamente, na descendência?

Como a permanência no Koseki é requisito para a obtenção do visto para decasséguis, o sobrenome japonês destes descendentes facilita imensamente na inserção legal e burocrática destes indivíduos na sociedade japonesa. Com nomes oriundos do mesmo sistema de escrita do país, se não fosse pelo primeiro nome “brasileiro”, estes descendentes atravessariam de maneira quase invisível às tramas burocráticas quando se misturam aos Suzukis, Watanabes, etc., que vivem no Japão.

Como uma vez comentei com uma amiga descendente em Hamamatsu, até o inkan é mais fácil de ser encontrado, bastando apenas adquirir um com o mesmo sobrenome. Nestas andanças eu percebia o quanto meu DaSilva é um impasse ou um entrave menor na percepção burocrática, ainda mais quando temos brasileiros chamados Suzukis e Watanabes.

Vinculados ao Koseki e, conseqüentemente à hierarquização proposta pelo modelo de estruturação familiar do ie, os sobrenomes japoneses destes brasileiros não só garantem o visto e a permanência como também uma série de direitos e facilidades locais, sendo os nikkeis os imigrantes que em tese causariam menos danos ao tecido social japonês (TSUDA, 2003). Desse modo, programas de auxílio-moradia, desemprego, saúde, contratos com empreiteiras, etc., são recursos oferecidos para os nikkeis justamente pelo seu parentesco de sangue com a sociedade japonesa.

Nesse ponto, os sobrenomes japoneses passam a ser um “artigo de luxo” entre os brasileiros não-descendentes que almejam a migração para o Japão, sendo o Koseki um instrumento de barganha na mão dos descendentes. Como ouvi de um advogado brasileiro cuja ocupação é cuidar justamente dos casos de casamentos e divórcios na “comunidade”, ter

o sobrenome japonês para a migração é um dos fatores cruciais na constituição de famílias artificiais que chegam na cidade.

A disputa por um sobrenome japonês justificaria então os vários arranjos familiares que podem ser encontrados em Hamamatsu e que causam, em maior ou menos grau, atrito com as percepções ou modelos de família. Famílias com esposo, esposa e namorado e filhos, ou então as famílias constituída de gays com casamentos falsos é comum, assim como o súbito divórcio de brasileiros que chegam ao Japão.

O divórcio de nikkeis no Japão é algo que desestabiliza profundamente o arranjo familiar dos imigrantes no Japão, em especial com relacionamentos entre descendentes e não- descendentes. Para os descendentes, o divórcio é algo facilmente contornável, pois ambas as partes podem assegurar a permanência no Japão com o próprio sobrenome japonês. Já entre os descendentes e não-descendentes, o divórcio simboliza não a perda de parentes apenas, mas a perda de nomes.

Logo nos primeiros dias em Hamamatsu pude conhecer Alessandra na rua Kaji Machi passeando de bicicleta. Peruana e fluente em português, ela trabalhava à noite em um bar para estrangeiros em Hamamatsu, acabávamos nos encontrando eventualmente à tarde no centro da cidade, momento quando ela tinha maior disponibilidade para conversar.

Em nossos primeiros encontros Alessandra me perguntava sobre o que eu achava de morar no Japão. Beirando os 40 anos, peruana não-descendente e muito amistosa, Alessandra disse estar no Japão dentro de um casamento arranjado por causa do sobrenome japonês do marido. Seu marido, peruano e descendente de japoneses, era gay e morava com o parceiro, enquanto ela morava em uma casa separada.

Soube de outros informantes brasileiros que esse tipo de arranjo era bastante comum entre brasileiros e peruanos no Japão e, como forma de garantir a permanência destes não- descendentes, sustentavam um casamento de aparências. Alessandra dizia que só via seu marido quando precisava atualizar as informações do visto ou então para a obtenção de algum documento, sendo alguém com quem ela mantinha boas relações pois era “um bom amigo”.

Apesar de nossas conversas não terem se aprofundado, fiquei com a impressão que o acordo de Alessandra e o marido era aquele em que, contanto que mantivesse o casamento de aparências, ela ficava perfeitamente livre para fazer o que quiser e morar onde quiser, pois o divórcio culminaria do seu retorno forçado ao Peru. Assim que ela me explicava então a

grande quantidade de não-descendentes na festa junina que visitei, os casamentos artificiais e a plasticidade dos arranjos familiares depois da chegada ao Japão.

Alessandra gostava da vida que levava no Japão, melhor do que em seu país de origem e daí, portanto, a manutenção do casamento e de seu sobrenome japonês. Tal arranjo acabava sendo bastante comum entre brasileiros e algo refletido nas próprias crianças quando em sala de aula.