• No results found

2 Theory

2.1 Use of assistive living technologies in a care perspective

Pouco antes e logo após a deflagração da II Guerra Mundial na Europa, o noticiário, os programas de variedades e até os humorísticos tomavam uma posição favorável ao eixo Roma -Berlim-Tóquio. É que as notícias eram rigorosamente controladas pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, comandado por Lourival Fontes, um confesso admirador dos regimes nazi-fascistas124.

Esse quadro começou a mudar quando o governo Vargas passou a jogar com ambigüidade em relação a que lado iria ficar. A censura controlada por Lourival Fontes, apesar de pessoalmente a favor do Eixo, teve que proibir críticas aos americanos pelos órgãos de imprensa. O colunista Martins Castelo (1942) registrou o posicionamento que as emissoras passaram a adotar com a definição do lado que o Brasil assumiu no conflito:

9

O rádio brasileiro vive hoje mais do que nunca a serviço da nossa integridade... expõe as nossas obrigações históricas e mostra o acerto na política do Estado Nacional... ordena a cooperação geral, o silêncio das nossas estações seria um crime. E o momento não perdoa as deserções e as covardias.

A censura também mudou de postura após a definição política do país diante da II Guerra Mundial.

Após o rompimento de relações com o Eixo e a participação efetiva do Brasil na Guerra, a censura liberou os comentários favoráveis aos aliados, limitando-se a cercear informações inerentes às necessidades de sigilo militar, proibindo referências a combates, batalhas, viagens, acordos militares, movimentos de tropas, navios e aviões militares, boletins meteorológicos etc. (GARCIA, 1982, p.113)

Com a entrada do Brasil no conflito, as notícias, que eram neutras, passaram a tender a favor do grupo aliado.

Na fase inicial, de avanço vitorioso e irresistível das forças nazistas, fascistas e nipônicas, esses reflexos foram no sentido de fortalecer o regime totalitário aqui dominante; o Brasil adotou posição neutra, o noticiário da imprensa e do rádio mostrava isso; a partir da entrada dos Estados Unidos no conflito, em 1941, aqueles reflexos se fizeram no sentido oposto; a entrada do Brasil na Guerra, nos segundo semestre de 1942, foi, realmente, a consolidação dessa mudança. (SODRÉ, 1998, p.383)

Ainda sob efeito da entrada do país na guerra, o governo lançou, em 13 de outubro de 1942, o decreto nº 4.828, que aumenta o controle sobre os meios de comunicação, conforme destacado pelo pesquisador Othon Jambeiro (2003, p. 120):

Ficam coordenados, a serviço do Brasil, todos os meios e órgãos de divulgação e de publicidade existentes no território nacional, seja qual for sua origem, forma, caráter, processo, propriedade ou veículo de subordinação... ao Ministério da Justiça e Negócios competem, em geral, as atribuições

0 indispensáveis... excluir da divulgação e publicidade assuntos julgados inconvenientes aos interesses, aos compromissos, à ordem, à segurança, à defesa do Estado; determinar a divulgação e publicidade do que, em vista do estado de guerra, convenha a incentivação da harmonia dos povos do Continentes, da mobilização espiritual dos brasile iros...

O rádio nunca foi tão usado pelo governo como no período da II Guerra Mundial, conforme revela um dos radialistas pioneiros, Saint-Clair Lopes (1970, p. 63):

Nunca se utilizou a radiodifusão como durante os seis anos da II Guerra Mundial. Dos dois lados do conflito transmitia -se suas mensagens em todos os idiomas com aumento das potências das emissoras para que extrapolassem as fronteira divididas pela posição bélica. O rádio foi uma arma secreta usada de forma estratégica.Os programas jornalísticos, mesmo de maneira incipiente, só foi desenvolvido com o impacto da II Guerra Mundial.

Como preço pela adesão ao grupo liderado pelos Estados Unidos, o Brasil viu-se obrigado a adotar uma política contra o Eixo e de repulsa às ideologias fascista e na zista. Desta forma, indiretamente estava “dando um tiro no próprio pé”, já que a base da formação do Estado Novo foi inspirada nesses dois regimes, que era agora obrigado a renegar.

Com o advento da II Guerra Mundial, o ar passou a ser usado como local de combate, não somente pelos aviões bélicos, mas também pelas transmissões radiofônicas. As emissoras de rádio de países de ambos os lados do conflito se esforçavam em invadir, com aumento da potência de seus sinais, o território inimigo ao mesmo tempo em que reforçavam suas irradiações para os aliados. No Brasil, a situação não foi diferente. O país se empenhou para que sua voz ultrapassasse as fronteiras nacionais. A partir de 1943, o sinal da emissora estatal, a Rádio Nacional, chegava em várias partes do mundo. No dia 31 de dezembro de 1942, a estação do governo inaugurou os novos transmissores, tornando-a a quinta mais potente do mundo.

A Nacional passou a transmitir programas em quatro idiomas. As estações de ondas curtas possuíam oito antenas do fabricante americano RCA Victor: duas voltadas para os

1 Estados Unidos, duas para Europa e três para o próprio Brasil, estas, como parte do projeto de integração nacional. Em discurso na ocasião da inauguração das antenas internacionais, o então diretor da Rádio Nacional, Gilberto Amado, comemorou a conquista: “A voz do Brasil vai falar para o mundo”125.

O entanto, as transmissões para o exterior não expressavam somente o interesse político, mas também abriam espaço para o incremento do comércio e da cultura do Brasil fora das fronteiras. Os produtos brasileiros de exportação, como café, algodão, borracha e madeira, eram constantemente expostos nessa “vitrine aérea” internacional.

A estatal Rádio Nacional passou a fazer transmissões em francês, inglês e espanhol para divulgar a música e o folclore brasileiros. Porém, era em espanhol e inglês que era lido ao microfone diariamente um comentário de conteúdo social e político, acompanhado de informações gerais sobre o Brasil.

Em plena guerra mundial, o editorial e as notícias em língua estrangeira têm o objetivo de difundir internacionalmente realizações e políticas da ditadura Vargas. A audiência latino-americana do boletim noticioso do DIP desconfia da ofensiva de propaganda do Brasil. De modo particular entre os vizinhos sul-americanos, o noticiário em espanhol denuncia intenções hegemônicas, que talvez não estivessem nos planos do governo Vargas, mas que soam aos governos fronteiriços como uma indisfarçável promoção daquilo que eles denominam de imperialismo brasile iro. (BAHIA, 1990, p 184)

Ao mesmo tempo, as ondas radiofônicas brasileiras passaram a ser invadidas por programas produzidos por países aliados, revela Luiz Mendes (2005):

O que para as emissoras parecia ser um grande negócio, receber programas gratuitos, não nos dávamos conta na época que não eram eles que estavam nos dando algo, éramos nós que estávamos dando espaço para que vendessem sua cultura e ideologia através das emissoras brasileiras. Estas sim forneciam seus horários de graça.

125 Trecho do discurso do diretor da Rádio Nacional, Gilberto Amado. Cf. SAROLDI & MOREIRA,

2 O radialista Luiz de Carvalho explica que havia grande interesse do país pelas transmissões da BBC, onde o irmão dele trabalhou como locutor.

A maioria do noticiário de Guerra vinha da BBC de Londres, que era tida como uma emissora séria e isenta. A BBC tinha programas feitos especialmente para o Brasil. O meu irmão, Ramos de Carvalho, foi trabalhar lá em 1938 e, no ano depois, estourou a Guerra. A BBC era muito ouvida porque, para se informar sobre o assunto, era a que tinha a cobertura mais completa, com repórteres falando direto dos fronts de batalha (CARVALHO, 2005).

Em 1945, de acordo com os destaques dos programas de rádio veiculados entre os dias 03 e 30 de janeiro publicados pelo Jornal A Noite, verifica-se que, entre os programas transmitidos diariamente, estava a produção da BBC Londres Informa , que ia ao ar em duas edições de 15 minutos, antes e depois da rede obrigatória para a transmissão da Hora do

Brasil. A transmissão era feita através da Rádio MEC, pertencente ao Ministério da

Educação e Saúde. O mesmo levantamento mostra que pela também estatal Rádio Mauá era transmitido, entre 18h30 e 19h55, o musical Ritmos do Tio Sam, produzido pela Voz da América. A atração precedia a Hora do Brasil, que nesta época era irradiada às 20h. O radialista Luiz de Carvalho lembra do Ritmos do Tio Sam e de outras atrações musicais que eram oferecidas gratuitamente às emissoras brasileiras para retransmissão.

Eu me lembro deste programa. Ele veio com uma série de outros. Além da Guerra, que vinha através de noticiários, documentários e programas especiais, havia uma preocupação com a distração e a transmissão da cultura daqueles países. Desta forma, a Voz da América e a BBC também produziam programas para o Brasil para divulgar suas músicas. Como também eram donas das principais gravadoras, ainda ajudavam empresas de seus países a venderem seus discos. (CARVALHO, 2005).