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2 Introduction

2.3 Use of antimicrobial agents in food-producing animals, fish, and plants

Antes de mais nada, torna-se oportuno observar que a noção de sujeito, sobre cujos aspectos mais relevantes falaremos agora, é aquela que se coaduna à perspectiva teórica assumida pela AD. Abordar essa questão tão fundamental à

constituição dessa disciplina teórica significa, ainda que de forma breve, recompor um percurso histórico que remonta a um período (anos 1950 e 1960) profundamente marcado pelo estruturalismo lingüístico, cuja principal característica, segundo Ferreira, foi a “deliberada exclusão do sujeito, já que este era visto como o elemento capaz de perturbar a análise do objeto científico, que deveria corresponder a uma língua objetivada, padronizada” (2005: p.13). Ainda em conformidade com esta autora, esse paradigma então reinante só pôde ser quebrado a partir do momento em que o debate em torno do sujeito conferiu a este a devida relevância, sobretudo, em função do impulso dado pelo movimento de maio de 1968 e pelos questionamentos surgidos no âmbito das ciências humanas. Mas, afinal, como se define este sujeito? Quais suas principais características?

Para Benveniste, a quem coube o mérito de reincorporar aos estudos lingüísticos a noção de subjetividade (Brandão, op.cit. p.55), o homem se constitui na e pela linguagem como sujeito, sendo a subjetividade a capacidade do locutor de se colocar como o ‘sujeito’ de seu discurso. O autor reconhece que esse ‘ego’, fundamento da subjetividade, somente se torna possível se experimentado pelo contraste. Desta maneira, de acordo com o lingüista francês, “Eu não emprego eu a não ser dirigindo-me a alguém, que será na minha alocução um tu” (1995: p.286).

No entanto, dois aspectos da perspectiva benvenistiana de sujeito foram duramente criticados. O primeiro diz respeito ao fato de Benveniste atribuir ao ‘Eu’ um papel de maior destaque em relação ao ‘tu’, uma vez que, segundo o autor, a polaridade entre o ‘eu’ e o ‘tu’ não significava igualdade nem simetria, na medida em que ao ‘ego’ cabia uma função de transcendência quanto a ‘tu’.

Ora, para uma perspectiva que encara a linguagem a partir de sua dimensão dialógica, o sujeito se constitui somente ao interagir com o outro; dessa relação dinâmica é que se constrói sua identidade (Brandão, 2003), não sendo possível, dessa forma, pensar a subjetividade de um ponto de vista que assume o ‘eu’ como centro do discurso, ‘dono’ de seu dizer.

Outro aspecto da teoria deste autor que recebeu inúmeras críticas foi a afirmação de que o fundamento da subjetividade, determinada pelo status lingüístico de pessoa, encontra-se no ‘ego’ que diz ‘ego’ (Benveniste, op.cit.).

Para vários estudiosos, pareceu simplista reduzir a subjetividade a uma categoria de pessoa. Para Possenti, por exemplo:

Na verdade, tudo o que sai da boca do homem tem sua marca [...]. O simples fato de falar (e não necessariamente de dizer ‘eu’, de utilizar um dêitico ou de produzir um ato de fala), por exigir a escolha de certos recursos expressivos, o que exclui outros, e por instaurar certas relações entre locutor e interlocutor [...] já indica a presença da subjetividade na linguagem (1993a: pp. 55-6).

Diferentemente da perspectiva de Benveniste, surge uma outra que considera a noção de sujeito como sendo indissociável de aspectos sociais, históricos e ideológicos. Para essa concepção, a relação que esse sujeito estabelece com o outro (‘tu’) não é de transcendência, mas, pelo contrário, de assujeitamento do ‘Eu’ em relação ao ‘Tu’.

Segundo Pêcheux, o principal postulado teórico assumido por essa concepção, que declina de toda e qualquer hipótese assentada sobre um sujeito intencional como fonte de seu discurso, encontra-se no fato de que o processo discursivo é:

[...] concebido como máquina autodeterminada e fechada sobre si mesma, de tal modo que um sujeito-estrutura determina os sujeitos como produtores de seus discursos: os sujeitos acreditam que ‘utilizam’ seus discursos quando na verdade são seus ‘servos’ assujeitados, seus ‘suportes’ (op.cit., p.311).

Althusser, de quem essa noção de sujeito é tributária, procurou articular de forma dialética as noções de sujeito e de ideologia, propondo que “a categoria de sujeito só é constitutiva de toda ideologia, na medida em que toda ideologia tem por função (que a define) constituir os indivíduos concretos em sujeitos” (1974: p.94). Para o autor, a articulação entre essas duas categorias é possível uma vez que “a ideologia não é mais que o seu próprio funcionamento nas formas materiais da existência deste funcionamento”. Dito de outro modo, as idéias de um sujeito ganham forma e espessura em seus atos, em suas práticas cotidianas.

Procedendo à distinção entre, de um lado, o indivíduo concreto, e de outro, o sujeito concreto (embora observe que este só possa existir assentado naquele), o autor sugere também que “a ideologia ‘age’ ou ‘funciona’ de tal forma que ‘recruta’ sujeitos entre indivíduos [...] ou transforma indivíduos em sujeitos por esta operação muito precisa a que chamamos a ‘interpelação’” (idem, p.99).

Pêcheux definiu essa ‘interpelação’ como sendo:

O assujeitamento do sujeito como sujeito ideológico, de tal modo que cada um seja conduzido, sem se dar conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o seu lugar em uma ou outra das duas classes sociais antagonistas do modo de produção (ou naquela categoria, camada ou fração de classe ligada a uma delas (op.cit., pp.165-6).

Como destaca Brandão, para essa concepção de sujeito, as relações intersubjetivas “são governadas por uma tensão básica em que o tu determina o que o eu diz, ocorrendo uma espécie de tirania do primeiro sobre o segundo” (op.cit., p.54). Ainda para essa autora, trata-se de uma perspectiva teórica “fortemente influenciada pela retórica, presente nos momentos iniciais da AD cujas análises focalizaram sobretudo os discursos políticos” (idem,ibidem).

Uma terceira perspectiva de sujeito (a qual assumimos na presente pesquisa), rompendo com as concepções anteriores, cuja transcendência ora focalizava o ‘Eu’ ora o ‘Tu’, irá fundar-se numa relação de interação, de troca, de conflito, de aceitação ou de negação entre esses dois pólos. Para Brandão, a partir dessa nova perspectiva, “o centro da relação não está nem no ‘eu’ nem no ‘tu’, mas no espaço discursivo criado entre ambos”. E arremata: “O sujeito só constrói sua identidade na interação com o outro. E o espaço dessa interação é o texto” (p.76).

Ressalte-se, contudo, que, embora o sujeito se constitua na/da relação com o ‘outro’, o qual, segundo Brandão, “envolve não só o seu destinatário para quem planeja, ajusta a sua fala [...], mas que também envolve outros discursos historicamente constituídos e que emergem na sua fala [...]” (p.59), não se trata de um sujeito inteiramente assujeitado a esses outros, na medida em que a determinação histórica também age sobre o fazer do próprio sujeito, cuja

especificidade inclui os modos de apresentação de sua própria divisão, bem como a constituição de efeitos de sentido particulares. Em outras palavras, em que pese sua submissão a uma mesma ordem discursiva, a um mesmo universo institucionalizado, o sujeito não se submete a uma mesma ordem textual, uma vez que, como observa Possenti, “o modo de dizer, o modo de pertencer a essas organizações25 também é relevante [...] é nesse espaço que está um sujeito que se aproxima um pouco da singularidade” (2003: p.166).

Defendendo posicionamento semelhante, Faraco pondera que, embora não seja difícil perceber as diversas vozes desse ‘outro’ que está sempre nos constituindo, “não é difícil também perceber que somos capazes de trabalhar no interior da linguagem, isto é, de fazer intervenções, pelo menos em parte, nesse balaio de vozes” (2003: p.66). Ainda para esse autor, esse trabalho do sujeito se dá “exatamente nos espaços abertos pelo entrechoque dessas múltiplas vozes em múltiplas relações”.

Para Koch, esse trabalho com a linguagem não significa que o sujeito possa dizer o que bem entende, da forma como quiser, mas sim que, ao operar determinadas escolhas entre os variados recursos expressivos disponibilizados pela língua, o sujeito “vai dar uma configuração determinada ao seu discurso, tendo em vista o outro em uma interlocução constante” (2003a: p.125). Para a autora, trata-se, portanto, de um sujeito “social, mas não um sujeito assujeitado”.

Uma tal perspectiva teórica a respeito da noção de sujeito nos possibilita, inicialmente, compreender a razão pela qual as respostas dos formandos, embora parecidas no que diz respeito às soluções que se materializaram nas reescritas apresentadas, tenham se mostrado absolutamente diferentes quanto ao modo de apresentação, uma vez que contribuiu para constituí-las a relação específica que cada formando manteve com o texto produzido pela menina de 10 anos.

Além disso, permite observar ainda, do interior das relações de alteridade, a singularidade do sujeito em sua relação com a linguagem, porquanto, em nosso

25 Esta palavra faz remissão, no texto citado, ao universo doutrinário (comunismo, machismo, feminismo, nazismo, fascismo etc) ao qual as pessoas aderem e que, embora “igual para todas elas no fundamental”, é manipulado de forma particular por seus adeptos.

corpus, é possível observar a presença do ‘outro’ por força de um discurso

pedagógico que mobiliza certos procedimentos de reformulação textual, os quais, no entanto, apresentam-se marcados, nos processos de reescrita do texto-base, por uma singularidade que, no limite, particulariza a forma de apresentação desses mesmos recursos26.