A função primária da linguagem é a comunicação e o intercâmbio social, através do qual o homem representa o mundo que o cerca, e que lhe influenciará o pensamento e as ações no processo de desenvolvimento e de hominização.
A “comunicação” animal teria a bi-dimensionalidade: emissor – receptor, emitida apenas mediante a necessidade de satisfação de alguma necessidade biológica. Já a comunicação humana é tri-dimensional, pois nela há o significado.
Segundo o Dicionário Houaiss (2001):
“A comunicação humana é um processo que envolve a transmissão e a
recepção de mensagens entre uma fonte emissora e um destinatário receptor, no qual as informações, transmitidas por intermédio de recursos físicos (fala, audição, visão etc) ou de aparelhos e dispositivos técnicos, são codificados na fonte e decodificados no destino com o uso de sistemas convencionados de signos ou símbolos sonoros, escritos, icnográficos, gestuais etc.” (p. 781)
Faz parte da comunicação humana a transmissão da mensagem, onde a mensagem deve ser decifrada ou interpretada, mas isto só é possível se houver o conhecimento do sistema de códigos comum. Qualquer transmissão será vazia de conteúdo se não existir um significado inerente ao processo condutivo dentro da comunidade na qual ela acontece.
“A linguagem, como produto de uma coletividade, reproduz, através dos significados das palavras articuladas em frases, os conhecimentos – falsos ou verdadeiros – e os valores associados às práticas sociais que se cristalizaram; ou seja, a linguagem reproduz uma visão de mundo, produto das relações que se desenvolveram a partir do trabalho produtivo para a sobrevivência do grupo social.” (Lane, 1999, p.32-3)
Consideraremos a partir daqui a palavra comunicação dentro de uma perspectiva de construção de signos e significados, onde somente o homem inventa novos signos ou modifica o significado dos antigos de acordo com a necessidade.
“Uma das máximas relativas ao ser humano diz que todos os homens – não importa de que tempo ou lugar, de que talento ou temperamento, de que raça ou classe – estão continuamente empenhados em compreender o mundo que os cerca. (...) Embora o ser humano possa tolerar a dúvida, poucos conseguem tolerar a falta de significado. Para sobreviver psiquicamente, o homem precisa conceber um mundo estável, relativamente livre de ambigüidades e razoavelmente previsível. Ao fluxo de impressões deve-se estabelecer algum tipo de perspectiva. As sensações recebidas serão classificadas e organizadas de acordo com algum tema. Alguns fatos serão percebidos e outros ignorados; algumas características serão salientadas e outras desprezadas; certas relações parecerão possíveis, outras improváveis ou impossíveis. O significado não surge até que a experiência esteja situada em algum contexto.” (Barnlund, 1968, p.16)
O homem sempre busca, descobre e dá significado aos sinais naturais do mundo que o rodeia: uma pegada na praia é sinal de que alguém passou por ali. A fuga de animais sinaliza a iminência de algum desastre. O canto do galo é o sinal que o dia esta raiando. É possível que os primeiros signos criados pelo homem estivessem cada um associado a um determinado objeto. É próprio da mente humana a capacidade de abstração, isto é, de identificar o que há de comum em muitos objetos semelhantes. Esta capacidade de abstração de qualidades comuns e de colocar um nome à qualidade geral, deu origem ao conceito.
Com o reconhecimento dos infinitos objetos na natureza e o infindável número de artefatos que foram sendo criados, a memorização destas palavras tornou-se impossível, e surgiu a necessidade de simplificação deste sistema. O homem então criou o conceito: em lugar de ter de gravar em sua memória mil palavras de pedras diferentes, agora tinha de lembrar apenas o conceito de pedra e o signo correspondente à palavra pedra. O conceito viria então a ser a imagem formada na mente do homem após perceber muitas coisas semelhantes entre si. Transformadas em som e portadoras de conceitos, as palavras foram sendo incorporadas (apropriadas) em nossos acervos mentais que permitiriam a formação dos nossos esquemas mentais, ou seja, as estruturas cognitivas que organizam as informações em torno de temas e assuntos, tornando assim mais econômica e ágil a forma de armazenamento e acesso destas informações.
Com a formação do conceito e dos esquemas mentais, a linguagem, torna-se não apenas capaz de construir símbolos extremamente abstraídos da experiência cotidiana, mas também de levar o homem a recordar esses símbolos e inscrevê-los como elementos objetivamente reais do dia-a-dia, mesmo que não presentes visualmente.
“O homem não é um receptor passivo, mas um agente ativo que dá sentido as sensações. A significação que qualquer situação adquire é conseqüência tanto do que o perceptor lhe acrescenta como da ‘matéria
prima’ que recebe.” (Barnlund, 1968, p. 20)
Para Berger e Luckmann (1982), o significado de qualquer elemento deve ser formado, assimilado e transmitido através de um processo de “indiciação”, o qual, necessariamente, é também social. Enfatizam que os objetos não possuem qualquer status fixo, os significados mantêm-se por meio das indicações e definições feitas pelo homem. O status de cada palavra ou conteúdo varia de acordo com o contexto em que está inserido, tanto no tempo quanto no espaço. Desta forma, todos os objetos são ‘nomeados’ quanto ao seu significado, a partir da referência do grupo, por isso são considerados criações sociais. São elementos formados e originados do processo de definição e interpretação da interação humana.
A comunicação humana é um processo funcional da necessidade humana de expressão e de relacionamento. A comunicação humana não se constitui como uma pilha de signos e símbolos, ela é uma obra de sentido e de coerência que somente nós, homens, podemos construir e usufruir. Portanto nenhum grupo pode existir sem comunicação, sem a transferência de significado entre seus membros. Para Robbins (1999), é apenas através da transmissão de significados, de uma pessoa para outra, é que informação e idéias podem ser trocadas.
Segundo Aranguren (1975) a comunicação humana, consiste em três fases: emissão – transmissão – recepção. O significado, sentido e conteúdo da comunicação estão presentes na primeira e na terceira dessas fases, mas não na segunda, a qual consistiria sempre e tão somente num sinal, algo que tem que ser interpretado e pode ser erroneamente entendido no processo, e pode assumir a forma de um código ininteligível para quem não possuir a chave.
“(...) As palavras, tal como qualquer meio de transmissão, nada significam em si mesmas; elas são meros instrumentos que podem ser
usados para transmitir um significado, mas que também podem suportar o peso de vagos matizes, obscuras associações ou confusos desejos; assim é que, por meio de uma simples palavra – a qual é, por vezes, concedida a permanência na escrita ou como título de um livro inteiro – parecemos ficar na posse de um conceito ou mesmo uma teoria completa. (...)” (Aranguren,1975, p.19)
Representamos o processo de comunicação no seguinte esquema, enfatizando a dualidade do processo de transmissão, que não depende apenas do emissor, mas principalmente do acesso do receptor aos mesmos códigos e contexto em que a mensagem foi produzida:
Significado
Emissor Receptor
transmissão
Por estarmos continuamente empenhados em procurar significados, toda percepção é necessariamente pessoal e incompleta. Ninguém jamais apreende tudo, pois cada um abstrai de acordo com sua experiência passada e os próprios desejos. Paradoxalmente, são estas diferenças de percepção que tornam a comunicação essencial para a vida em sociedade. São as diferenças que levam ao compartilhar, e é a confrontação e a exploração conjunta dos significados que produz as mútuas transformações.