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Ao longo do presente ponto, far-se-á a análise e discussão dos subconteúdos do discurso do participante relativamente à organização escolar com vista à implementação do projeto, nomeadamente no que concerne à heterogeneidade do grupo discente, à

67 organização de alunos e de professores e, ainda, à organização do tempo escolar e do espaço escolar.

Estamos perante a implementação de um modelo do tipo equipas educativas e uma gestão flexível dos tempos e dos espaços. O projeto ancorou-se na noção de equipa educativa, baseando-se na ideia de que um conjunto de professores pode delinear uma estratégia concertada que permita potenciar as capacidades de um determinado grupo de alunos com os quais trabalha. Partiu-se do pressuposto de que o bom funcionamento de uma equipa educativa está dependente da existência de um espaço de autonomia que lhe permita fazer uma gestão flexível de espaços, tempos e recursos humanos.

5.2.1.1. HETEROGENEIDADE DO GRUPO DISCENTE

Segundo o entrevistado, (…) a reorganização dos grupos não é uma organização

estática, é uma organização muito dinâmica e é uma organização que desburocratizou o conceito de turma e passa a trabalhar no conceito da atividade (…).

(…) A variável heterogeneidade consistiu, sobretudo, numa preocupação, no sentido de que, através das oficinas de projetos nós poderíamos ter esta partilha e esta possibilidade de integrar, inclusivamente, alunos com necessidades educativas especiais, onde eles foram iguaizinhos aos outros, onde as diferenças não se notam (…).

O importante é a implementação de dinâmicas de diferenciação que permitam aumentar as oportunidades e não as diferenças. Nesta perspetiva, o diretor defende que (…) temos

à nossa frente meninos que têm diversidade nas suas formas de aprender, têm direito à sua diferenciabilidade pedagógica e, sobretudo, também temos que perceber que nem todos vão aprender o mesmo, e muito menos da mesma forma. (…) Nesse sentido, quanto maior for a nossa capacidade de comprometermo-nos com a diferença destes alunos, maior será a potencialidade que eles têm para aprender mais.

(…) A escola tem que desocultar talentos tem que ter espaço para que os alunos experienciem outro tipo de atividades, outro tipo de aprendizagens. E, portanto, ainda temos um caminho grande para percorrer (…).

68 O que preconiza a escola inclusiva é a atenção e valorização das diferenças, enquanto “valor estruturante do sistema educativo” e “recurso da sociedade democrática” (Barroso, 1998, p.9). E, por isso, exige a conciliação do ensino de todos e a aprendizagem de cada um através da implementação da flexibilidade curricular e da diferenciação pedagógica.

A perceção de escola inclusiva está associada a sistemas flexíveis que funcionam ao nível da motivação e do interesse pela aprendizagem. É necessário organizar a escola sob um mundo de diversidade. E isso implica considerar novas formas de organizar e agrupar os alunos

5.2.1.2. ORGANIZAÇÃO DE ALUNOS E PROFESSORES

O diretor acrescenta que a criação de grupos flexíveis de composição e extensão variável, de acordo com o tipo de trabalho a desenvolver, bem como o estabelecimento de relações colegiais entre docentes de diferentes áreas curriculares, caminham no sentido de procurarem esquemas de trabalho pedagógico apropriados às necessidades dos alunos. Também adianta que:

(…) O nosso objetivo é chegar a uma transdisciplinaridade, uma mistura. Pronto, estamos ainda numa fase de interdisciplinaridade (…). Passaram a encarar o currículo de uma forma muito mais integrada, sem dúvida, e de uma forma muito mais transversal.

Ao nível da integração curricular, as dimensões organizacionais relativas ao agrupamento de alunos e à criação de equipas multidisciplinares parecem aproximar-se de um modelo de organização da escola por equipas educativas (Formosinho & Machado, 2009), conforme sustentado pelo entrevistado:

(…) Foi desconstruir o conselho de turma, (…) enquanto unidade burocrática, e essa foi a primeira medida que se tomou, do ponto de vista organizacional (…).

(…) Constituímos, para as oito turmas do 5.º ano, duas equipas pedagógicas, que tinham na sua constituição oito professores e estes oito professores “varriam” as quatro turmas (…).

69 Visa-se o agrupamento de conteúdos curriculares, alunos e professores de forma a garantir a flexibilização e gestão integrada do currículo. O diretor do agrupamento esclarece que:

(…) A organização vai passar pelas equipas em que o professor de matemática vai dar ciências, o professor de português ou vai dar inglês ou vai dar História e Geografia de Portugal (…).

A unidade básica de organização deixa de ser a turma, para passar a ser um conjunto de turmas de um determinado ano de escolaridade. A turma deixa de ser vista enquanto agrupamento rígido e permanente. A criação de grupos flexíveis, de composição e extensão variáveis, são determinadas em função das atividades a empreender, das características dos espaços disponíveis e do tempo necessário para a realização das mesmas. Esta organização flexível dos alunos exige uma planificação mais cuidada do que a organização por turmas. Diferentes tipos de agrupamento dos alunos são utilizados para atingir diferentes objetivos, sendo que as situações de aprendizagem programadas pela equipa educativa comportam um agrupamento distinto dos alunos (Formosinho & Machado, 2009, pp.41-42).

5.2.1.3. ORGANIZAÇÃO DO TEMPO E DO ESPAÇO ESCOLAR

O diretor refere que (…) quando estávamos a falar na oficina de projetos e nos

semestres é importante perceber que este trabalho permitiu-nos, a nós, também, experienciar modos de organização da sala de aula diferentes, tínhamos os tempos específicos para a oficina de projetos (…).

Era necessário mudar, como defende o diretor: (…) era uma das questões que nós

tínhamos no nosso diagnóstico, não era só a preocupação de mudarmos de uma monodocência para uma pluridocência, mas a preocupação de trabalharmos o currículo e os domínios do saber de uma forma muito segmentada, que é o que nos traz a disciplinarização (…).

A alteração da gramática escolar passa por equacionar novos modos de agrupar os alunos, segundo matrizes flexíveis e mutáveis, fazer um uso mais inteligente do tempo e dos espaços de instrução, organizando-os para fazer aprender os alunos, criar novas

70 formas de gestão curricular, mais inovadoras, integradas e flexíveis, e criar mecanismos de diferenciação pedagógica do trabalho escolar que permitam dotá-lo de sentido, dando

um outro sentido ao tempo de instrução (Perrenoud, 1995).

A requalificação dos espaços de aprendizagem está a ser implementada numa lógica de espaços multifunções e/ou polivalentes, apetrechados com recursos pedagógicos adequados ao funcionamento dos diversos domínios do currículo, com a criação de tempos de aprendizagem interdisciplinares flexíveis e indutores de metodologias ativas. A organização dos tempos conduziu, ainda, a que algumas disciplinas possam funcionar à mesma hora, possibilitando, em caso de necessidade, a circulação de alunos entre as turmas. Os saberes estão organizados em torno de questões significativas e identificadas de forma colaborativa por professores e alunos, para além das fronteiras das disciplinas.